quarta-feira, 8 de outubro de 2008

PAREDES >> Carla Dias >>

Filosofando com Mahatma Gandhi grudado na parede, a imagem capturada e presa nesse pôster já amarelado, apontando época, tempo, dispêndio de sonhos.

Todos nós, se já não falamos, falaremos com pôsteres grudados em paredes. De Farrah Fawcett aos Beatles; seja Roberto Carlos, Garfield, Jesus Cristo ou Marlon Brando. Martin Luther King, Mônica e Cebolinha.

Pôsteres expostos nas nossas paredes ou nas de outros.

Talvez nos sintamos intensamente sós, de vez em quando, a ponto de a imagem de outra pessoa - ou de outro personagem – justificar esse bate-papo de mão única. Mas de repente é só sandice mesmo, ou ensaio para declaração de amor engasgada, para a reclamação no trabalho que, apesar de justa, assusta. Ensaio para decorar roteiro de peça de teatro.

De repente, é desabafo e só ele estava lá, o ator da sua novela preferida, estático e vestindo aquele sorriso-colgate, para ouvir o que você tinha a dizer.

Eu fui uma menina de muitos pôsteres na parede e talvez ainda haja em mim esse quê. E eu conversava mais com eles do que com colegas de escola; chegava a me achar fluente na oratória na qual, na vida real, nunca fui tão boa e acho que jamais serei. Sabe? Gosto das palavras nas vozes das outras pessoas.

Que vim ao mundo meio torta eu já sabia, mas fato é que minhas irmãs não me deixam esquecer que, ainda moleca, não dormia sem dar boa noite ao povo dos pôsteres da parede onde encostava meu beliche; que ia dos artistas aos santos que apreciava: Menudo, RPM, Janis Joplin, São Jorge, Cindy Lauper, Joana D’Arc...

Mais do que menina-dos-pôsteres, sempre fui pessoa-das-paredes. Desde que me conheço por gente, elas falam por mim de um jeito mais honesto do que consigo fazer apenas falando.

E nisso, as paredes são sinceras e mais fluentes do que eu.

Sempre tive nas paredes da minha casa um relatório de algumas paixões, toques de ideais, desejos, bons momentos. Há lembranças que pipocam nelas... Na verdade, sinto-me à vontade contando o trajeto de cada regalo até chegar naquelas paredes, como a toalha para bandeja em patchwork que uma amiga me deu, dizendo: “para você servir café com charme”. Aquela peça tão bonita, feita por uma amiga por quem tenho um carinho imenso, jamais freqüentou bandejas, mas está lá... Há anos... Lá mesmo, lembrando-me do sorriso dela ao me presentear.

E os chapéus... Adoro chapéus, mas há anos não uso. Tenho um preto, que ganhei de uma cantora com quem tocava, quando nos apresentamos em Maresias, litoral de São Paulo. Houve uma festa na praia e fomos, havia esse rapaz que era estrangeiro... Não me lembro bem, mas acho que ele era da Nigéria. Enfim, me apaixonei pelo chapéu e o ganhei de presente. Naquela noite, a lua estava enorme como nunca, beliscando o horizonte. Usei esse chapéu nas viagens a São Thomé das Letras, um dos poucos lugares onde ser chamada de bruxa não ofende.

Minha mãe fez vários chapéus para mim, mas tem esse - colorido, florido, lindo como minha mãe - que captura meu olhar como se estivesse naquele dia, debruçada sobre a mesa, esperando que ela terminasse a costura.

Pensando bem, não são somente as paredes, mas principalmente elas. É que a maioria das coisas que tenho em casa tem história e enfeita a minha. Como as castanholas, que um dia aprenderei a tocar; presente de uma amiga muito querida que se lembrou de mim lá na Espanha; ou a escultura que um amigo fez e que batizei de “o homem e a lua”, porque tenho essa impressão de que é a lua que ele carrega na mão. A boneca feita pela minha irmã, as fotografias, os quadros, tamborim, máscaras que outra amiga me trouxe de Veneza.

Houve uma época em que as minhas paredes colecionavam postais, notícias importantes de jornais e revistas; poemas que mexeram comigo. Hoje, dita madura, mas certamente não tão adulta, prefiro lembranças mais presentes. Proximidades.

Há muitos anos, os pais de um amigo foram buscá-lo na escola onde trabalhávamos. Enquanto ele saiu um pouco com o pai, a mãe me chamou de canto e agradeceu por eu ser tão amiga do filho dela, ajudando-o num momento tão complicado. Até então, eu não entendia por que meu amigo andava tão bagunçado. A mãe dele sorriu e me entregou um pacotinho. Dentro dele, um lenço lindo, lindo; agradecimento pela amizade que eu cultivava pelo filho dela. Depois, ela me fez um pedido: que olhasse por ele um pouco mais, pois ela estava doente e era isso que o estava atormentando tanto.

A mãe do meu amigo faleceu algum tempo depois. Foi difícil, mas hoje ele está muito bem. Não digo que superou, porque a morte ninguém supera, apenas passa para o nível seguinte, quando a dor se transforma em saudade. Uma pena não ver meu amigo com tanta freqüência quanto naquela época. O lenço pendurado na parede lá de casa, faz-me lembrar do amor que a mãe sentia pelo filho e, de uma forma muito peculiar, isso é um alento.

Cada um lida com a realidade própria da forma que lhe cabe. Eu gosto de ser uma pessoa-das-paredes. Isso pode parecer um tanto esquisito, mas no fundo é apenas meu jeito de cultivar apreços. É simples, tranqüilo, agradável. E também é gratidão, porque cada coisinha remete a um afeto, um aprendizado, uma história boa de se contar.



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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ô moça-das-paredes... surpreendente essa história toda. Quer dizer, eu também já passei longas horas diante de um pôster do Charles Chaplin e de um quadro da Virgem Maria com Jesus no colo, mas nunca me ocorreu conversar com eles: desperdício de oportunidades.

O bom mesmo é ler sua crônica-parede, perceber como as palavras são objetos cuidadosamente espalhados na sala, abrir-se para essa porta aberta, pôr-se na poltrona, confortar-se de seus carinhos com tudo que foi-é.

Ana disse...

Pois eu, que falo com todo mundo, nunca me atrevi a tagarelar com as paredes. Nunca, até hoje, porque você acaba de me ensinar uma nova forma de comunicação (talvez de terapia). Vou correr pra casa e falar com as belas paisagens que enfeitam as minhas paredes!
beijos!
Ana

Marisa Nascimento disse...

Carla, eu falava com o Che pendurado na parede, há muito tempo. Abandonei nossas conversas, assim como abandonei os sonhos revolucionários da juventude. E o Che? Deve ter ficado perdido numa dessas idas e vindas da minha vida nômade. Obrigada por conduzir essa reflexão tão especial!

Carla Dias disse...

Eduardo... Nunca é tarde para começar a falar com pôsteres e colecionar histórias nas paredes. Neste caso, as oportunidades estão sempre disponíveis.
Tudo que foi-é não torna a realidade mais graciosa?

Ana... Espero que seu bate-papo com as belas paisagens que enfeitam suas paredes sejam dos mais agradáveis. Paredes não servem somente para nos manter seguros em um espaço, mas também para nos ajudar a destrambelhar mesmo... O que pode ser muito bom!

Marisa... Conversar com Che devia ser interessantíssimo. Fiquei aqui pensando com quem você irá conversar mais adiante. Que seja com alguém muito especial.

C Letti disse...

Carla, impressionante seu dom de transformar (até) paredes em prosa poética. Adorei esta crônica, especialmente... :)
beijo grande,