domingo, 12 de outubro de 2008

A CRIAÇÃO DO CORPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Elisa Lazo de Valdez / Corbis.com (editado com excesso de brilho)Para Liliana e Tia Liginha

Se no princípio era o verbo, e o verbo se fez carne... então o corpo começou pela boca. No princípio era a voz, e a voz se fez língua, dentes e lábios.

A boca fala do que o coração está cheio, logo falo para tomar conhecimento de meu próprio peito.

*

Quando eu era bebê, e minha mãe uma estudante de Odontologia, as colegas dela se reuniam lá em casa para estudar. Meus olhos não distinguiam rostos, meu pensamento não adivinhava palavras. Eu só escutava o som das vozes e, quando tinha fome, minha mãe me dava de mamar no peito. As vozes das colegas de minha mãe se faziam carne no quente de seu seio.

*

Os lugares de minha vida são muitos, e especiais. Mas o mais constante é o menos notável: o posto odontológico onde minha mãe trabalha desde que eu era criança. De lá, lembro a aplicação de flúor numa espécie de dentadura sem dentes cheia de um líquido gelatinoso que não podia ser cuspido nem engolido durante cinco infindáveis minutos: minha primeira lição de eternidade foi ali, no Centro de Treinamento Odontológico. Mas, uma vez feitos os reparos necessários em minha boca, eu tinha direito a um sanduíche na cantina: primeira lição de simplicidade deliciosa. Minha mãe, e todas as suas colegas, vestiam-se de branco. O leite não estava mais restrito ao seio, vestia-se no corpo inteiro. E eu, agora menino, compreendia as palavras e me envergonhava quando algumas delas me diziam respeito.

Os lugares que eu freqüentava iam mudando com a idade, mas as visitas ao CTO continuavam: uma cárie aqui, uma restauração acolá, um siso a arrancar, um dente extra-seriado a acompanhar na radiografia... O tempo passava e o CTO se transformou em Centro de Especialização Odontológica. Minha mãe agora trabalhava no CEO (céu de quem pronuncia, que nunca é o céu de quem lê): paredes claras, pessoas de branco, luzes potentes...

Um dia ligaram para lá:
— De onde fala?
— Do CEO.
— Do céu? E quem está falando?
— Jesus.

Jesus do CEO é uma mulher simpática, dentista alegre que faz as crianças que atende pensarem que foram a um parque de diversões. Isso até o motorzinho começar a funcionar e a broca entrar em contato com o dente. Quando eu era criança, minha mãe primeiro xiringava (seringava, que seja!) água em meus dentes. Quando eu fechava os olhos, ela trocava de instrumento; eu me contorcia de dor e ela dizia: "É só água, meu filho. É só água." Eu cresci pensando que água doía.

Semana passada, visitando Fortaleza, adivinhem qual o lugar a que fui mais vezes. O Pacheco? A Praia do Futuro? A casa de minha avó? Não, fui ao CEO. Minha mãe já não me atende mais: talvez porque tenha ficado claro, para mim, que broca não é xiringador e que metal não é água; e, para ela, que seu filho não pertence mais a si, agora é do mundo.

A pessoa encarregada de me atender, uma grande amiga de minha mãe, é capaz de fazer um adulto pensar que foi, se não a um parque de diversões, pelo menos a um museu ou a um teatro: ela cantava, contava histórias, informava-me sobre cada procedimento que realizava e, quando minha mãe entrava na sala, ela mostrava minha boca como se estivesse diante de um livro: era mesial para cá, distal para acolá... E eu me sentia mais uma vez um bebê diante do incompreensível: os sons eram, novamente, mais palpáveis que as palavras.

Sentar na cadeira do dentista é conformar-se ao silêncio: até os gritos são mudos. A anestesia esconde uma dor que você sabe que está lá. Eu só podia usar o pensamento: até a necessidade de cuspir foi substituída por um sugador de saliva. E eu ficava pensando que verbos a amiga de minha mãe cutucava na carne de minha boca. Sim, em minha boca devem estar impressos, visíveis para quem for capaz de ler, tudo que eu já disse: as primeiras palavras; os palavrões ditos durante a primeira e única briga de rua; a declaração de amor no portão da casa da primeira namorada; as desculpas de tantas separações; os rascunhos vocais de todas as canções... Não, não era apenas uma questão de obturações e restaurações. Liliana lia o verbo na carne de minha boca. E, mesmo assim, esses dias no CEO foram menos traumáticos. Porque havia algo de divino naquela intimidade.

Às amigas de minha mãe, é difícil pagar. Como se minha mãe já tivesse pago tudo adiantado. Moeda de minha mãe tem cor para além dos dourados. Não adianta ter dinheiro numa hora dessas. A conta bancária também tem de se conformar ao silêncio. E, tentando achar um jeito de fazer aquele justo pagamento, eu lembrei daqueles pacientes que, nas cidades pequenas, enchem o consultório do médico de galinhas e queijos e rapaduras. A algumas daquelas pessoas, talvez falte dinheiro. A todas, deve sobrar agradecimento. Na galinha, no queijo, na rapadura... não está só o pagamento: está o reconhecimento dessa intimidade para com quem se entranhou em seu próprio corpo, recriando-o, feito um escritor que remove palavras, desentorta sentidos, antes de devolver o verbo à carne. Há que se pagar, então, com a própria vida gravada no que se cria e produz.

Eu, bicho urbano, não tenho à mão essas coisas do sertão. Minha criação é só palavra: verbo feito em carne fraca. Dou do que sou porque não pude dar do que tenho. E agora sei que paga melhor é ser do que ter. Porque quem dá o que é não fica sem o que deu.

*

Há um tempo entre o início do verbo e o final da carne. A crônica não se segue imediatamente ao acontecido. A vida se intromete no escrito, com intimidades de reescrevê-lo. A criação do corpo principia na boca, mas não termina ali.

*

Ontem, já de volta a Brasília, fui a uma festa de aniversário: um ano do filho de um primo querido além de qualquer grau de parentesco. A mãe dele, minha tia de não sei que grau, que eu não via há quinze anos, veio lá de Campina Grande. Nossa separação, nossa ausência da vista um do outro, completava seu décimo quinto triste aniversário, de uma tristeza que eu nem mais me dava conta, e que só senti retroativamente. Percebi a tristeza de quinze anos na alegria daquele encontro. E a enxurrada do presente tanto trouxe à tona quanto levou na corrente os anos ausentes.

Minha tia tem palavras de gentileza. E seu verbo já chegou às mãos. Nela, está completa a criação do corpo. Suas mãos são maduras, crescidas, não temem o contato. Põem-se na cabeça de um sobrinho, nas pernas de uma sobrinha, nas costas do marido, no braço do filho, em meu peito. Suas mãos dizem tudo que a gente tenta dizer com a boca e não diz direito. Verbo amar fez-se carne nela até as mãos. O fim dos tempos já chegou nos dedos de Tia Liginha. O juízo final é claro: o verbo é um só, sendo todos: amar.

*

A crônica chega ao fim. O verbo que ouço virou carne de texto. E percebo que minha voz fala pelos meus dedos na esperança de um dia amar até o limite do que não tem fim.



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12 comentários:

Tia Monca disse...

Que lindo agradecimento!
Fico encantada com a facilidade de expressar, com os dedos, a sua gratidão e tantos outros sentimentos :)
Bj,
Tia Monca

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, para você não há um só verbo que defina o bem transmitido pelos seus textos. Que meus olhos possam levar ao coração o amor que seus dedos falam nessa linguagem única e tão especialmente sua!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tia, coisa boa é encantar-se. Que bom que meus dedos estão tecendo encantos. :)

Marisa, então que seja o bem de coração pra coração. :)

Ana disse...

Eduardo, quase pude ver você, menino, nos seus 5 minutos eternos, anres de cuspir. Era isso?
Mas fiquei mesmo encucada, foi com a dentadura sem dentes...

C Letti disse...

Uia, que isso tá bom demais, lindo demais. Sempre pensei que deveria haver poemas nos tetos dos consultórios mas hoje, depois da sua prosa poética, acho que o poema está na boca... :)
beijo grande, Edu!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Desencuque, Ana, há outras eternidades mais amenas que encaixar os próprios dentes numa dentadura cheia de flúor. Mas você me viu lá, naquela situação deprimente, e não fez nada?! Que amigona, hein! :)

Pois se eu fosse dentista, Claudia, adotava logo essa idéia dos poemas no teto. Acho que os do Augusto dos Anjos funcionariam bem como anestesia de choque. :)

Anônimo disse...

Texto lindo... lindo... lindo... preciso lembrar de não ler você nos meus dias de TPM!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Brigadim, Anônima. Fiquei curioso pra saber qual o efeito dos meus textos sobre sua TPM. :)

*Fê* disse...

Edu,
Adorei... Lindo como SEMPRE!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Fernanda, pelo lindo e pelo sempre. :) Eu adoro o verbo adorar.

Renata Loureiro disse...

Meu querido primo ( também não sei em que grau de parentesco)só consegui localizar o site e crônica hoje. É impressionante a capacidade que você tem de expressar os sentimentos,de materializá-los em palavras. Dom só presentes nas almas mais sensíveis e mentes mais sábias...A sua Tia Liginha, que tem o amor nas mãos, se desmanchou em lágrimas e como não se entende bem com 'as máquinas', disse que irá lhe escrever uma carta. Beijos
Renatinha, 09/11/2008.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Renatinha! É uma honra contar com a sua leitura, e com a da Tia Liginha.