sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ainda é cedo para continuar >> Leonardo Marona

"os subterrâneos"

estamos nas pequenas dobraduras
os reféns da mobilidade do amor.
você não nos conhece, passa reto,
não entende o nosso riso ambíguo
que nos torna totens apodrecidos.


o mundo urge, não damos conta.
vemos um lugar, estamos noutro.
sem ponderar seguimos vendados,
ponta de pé à beira do cadafalso.


colhemos restos e dormimos bem.
vocês bem tentaram a Gioconda
os embriões de cera e a esmola.


vocês fizeram só o que podiam
nos deram a chance de odiá-los.
mas não podemos, não há força.



Dos pequenos erros, cometidos por vontades que parecem alheias. É disso que se faz o homem. Da porta entreaberta que permaneceu longe do pulo. De cada frase equivocada e sem saber onde acabar. São erros às vezes cometidos por sabedoria. Toda a sabedoria é estúpida, dado que não se sabe o fundamental: por que continuar? Ou, como diria o ajudante de guarda-livros, "por que exprimir?"

Deixei de me perguntar isso todo dia, deixo a barba crescer livre e raspo mensalmente. Os tiros na têmpora já não me incomodam, mas a falta de assunto é o cão. Sei que me levanto e, por algum motivo ainda desconhecido, volto a me deitar para levantar outra vez e, de fato, ninguém nunca nos explicou os motivos dessa prosopopéia.

"As coisas simplesmente acontecem" é o mais longe que chegamos até hoje. Volta e meia aparecem uns homens de bigode, sisudos, com cara de poucos amigos, sentados em montes e derrubando barracas de feira. Os novos profetas, os cidadãos póstumos. Pois estes senhores de mão no queixo e piteira inauguraram a era da autopromoção, falando em si próprios como se fossem uma novela. "A seguir (daqui a séculos) cenas do próximo capítulo". E mesmo assim eles foram ferrenhos, produziram, deram nome a praças e lascas de pedra, deixaram belos textos sobre verdades brutais, morreram de sífilis ou de miolo mole – e as coisas simplesmente continuaram acontecendo.

O trajeto do espinho à murada de gelo. É assim que sentimos a vida constantemente – isso vale para os que ainda conseguem sentir alguma coisa de próprio, por mais descontrolado e impulsivo que seja. Vagamos pelo mundo e de vez em quando nos damos as mãos. Nosso erro é jurar amor de mãos dadas. Todos os dias amamos e atropelamos existências, matamos impunemente, e alguns ainda fazem a sesta e o sinal da cruz. Somos biografias sem fatos. O gatilho do afeto é tão rápido quanto o veneno das horas. Bernardo Soares tinha razão.



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Um comentário:

Anônimo disse...

Leo, que bom te encontrar hoje. Sinto falta de suas palavras que eram tão presentes na minha vida, embora vc nunca vá acreditar nisso, eu sei. parece que faz séculos que não te via. te achei mais bonito, mais corado, como se dizia antigamente. se souber quem eu sou, me manda um e-mail...