domingo, 19 de outubro de 2008

Encantado >> Eduardo Loureiro Jr.

Detalhe de foto de André Guisard / Flickr.comEncantar as pessoas desencantadas, eis o meu lema.

Quem não está em seu canto, onde está? Desencantou-se para onde? Em que outro lugar alheio a si mesmo se esconde?

As pessoas desencantadas não têm a cara do lugar em que estão. Algumas reclamam: querem que o lugar em questão seja o canto. Outras desistem: não sabem tomar o rumo de volta e deixam-se ficar por cansaço de perdição. Há uma plaquinha em sua testa: ESTE LUGAR NÃO É O MEU CANTO.

Encantar as pessoas desencantadas, eis o meu leme de barco, e navego.

As pessoas desencantadas estão entre pedras sem serem das pedras. Estão dentro d'água sem serem da água. Estão inflamadas sem serem do fogo. Estão avoadas sem serem do vento.

Têm dor de cabeça, as pessoas desencantadas, pelo peso da placa que carregam na testa. Nem lembram como saíram de seus cantos para os cantos de outros. O canto do outro é o desencanto do próprio canto.

Encantar as pessoas desencantadas, eis meu lembrete — de gente — de barco que passa.

Encanto meu não traz ao meu canto. Meu canto não é destino, é viagem até o canto teu.

Desencantado que se alheia no encantador apenas troca o canto que não é seu por outro, que também não.

Encantar as pessoas desencantadas, eis o meu lê-me.

Encanto meu está nas palavras que movem de lugar. Encanto meu vem do meu canto quando me deixo estar. Encanto meu é de pedra para os que são de pedra, de água para os que são de água, de chama para os de fogo, de sopro para os de ar.

Desencantado que me lê assim — sabendo o próprio canto a que é seu chegar — me desencanta, também, do meu não-lugar.

Encantar a pessoa desencantada: eis-me a me remar.

Braços de meu próprio canto levando o resto de mim para o meu lugar. Tempo já e tempo ainda no balanço de navegar.

Braços que roçam outros braços até o destino chegar: um para mim, outro para ti. Fica, que eu me vou. Vai, que eu fico cá. Ou fiquemos juntos. Ou vamos juntos. Quem saberá.

Encantar a pessoa desencantada, eis o que há.

Cada qual no seu canto. Até que se possa levar o próprio canto para qualquer lugar. Então o teu canto será o meu canto sem riscos de desencantar.

Destino final desse navegar é desencantar do próprio canto encantado. Viajar. Depois desencantar do barco, e mergulhar. E, enfim, desencantar do mergulho e encantar-se mar.



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13 comentários:

Águia disse...

Cá do meu desen-canto, te leio e constato: puro en-canto!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Águia, a consciência do desencanto já é meio caminho andado para o encantamento. :)

Águia disse...

"De onde vem essa coisa tão minha
Que me aquece e me faz carinho?
De onde vem essa coisa tão crua
Que me acorda e me põe no meio da rua?

É um lamento, um canto mais puro
Que me ilumina a casa escura
É minha força, é nossa energia
Que vem de longe prá nos fazer companhia.."


Vide o vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=VyGGQ1ahsI8&feature=related

r a c h e l disse...

Ah, bonito isso. Encante-me também. Count me on.

Bjoca,

Anônimo disse...

Encantado... ler vc nos dias de TPM é não conseguir segurar as lágrimas pois tudo fica mais à flor da pele, não lágrimas amargas, mas lágrimas de uma saudade de não sei o quê... encantamento é o que vc proporciona nos textos e isso é muito bonito...

albir disse...

E com que talento vc se desincumbe do ofício de encantar!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Plim, plim, Rachel! Esteja encantada. :)

Anônima, a água das lágrimas dá um tom rosado ao vermelho sangue que está por vir. :)

Brigadim, Albir. A gente faz o que pode pra se encantar encantando. :)

Anônimo disse...

Caro Eduardo.
Gostei muito.
E eu pensei que sabia alguma coisa à respeito de "mistério de palavras"...rsrsrs
Valeu.Um abraço. Elaine

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Elaine, que bom tocar o gosto de quem é versada em mistérios. :)

Anônimo disse...

Eu, às vezes sinto-me desencantada, como essa semana que passou - senti que não estava no meu canto. Isso sempre acontece quando o meu aniversário se aproxima. Será que é o meu Ascendente ( Escorpião ) interagindo com ele mesmo? Hoje, excepcionalmente, eu me sinto encantada depois de navegar na sua crônica. Gosto muito de ler você!
Um beijo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tia, que você continue encantada até o seu aniversário, e depois dele. :) É bom saber que você está lendo aí do outro lado.

Ana disse...

Ai Eduardo,
e eu, sem saber, escrevi uma crônica (pra amanhã) falando um monte, quando queria apenas dizer que sinto-me desencatada porque estou longe do meu canto...
Mas você é quem sabia, sem eu nem saber...
bjs!
Ana

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, às vezes falar um monte é a nossa maneira de mover montanhas. :) Bom encanto pr'ocê!