sexta-feira, 24 de outubro de 2008

“amor é bicho sem teto e dor é única morada, não cabe no coração” >> Leonardo Marona

Talvez que o poeta seja um pedaço em sangue de cada lugar, sempre à deriva a constante separação após o encantamento, o ato que desmembra e que prejulga o cadafalso, e cobre a cabeça com o capuz de prata.

Talvez que ao poeta sejam deixados os restos da carne utilizada, poeira na estrada de quem foi abismo, uma sutil abnegação dos termos como são dados, pela incrível vontade de permanecer em busca do cálice hipotético.

Talvez que ao poeta reste apenas um tanto de pele sob os pés atados, uma delicadeza do rosto retorcido em chamas, algo nos olhos que brilha feio como a última aurora de um condenado à morte, a testa protuberante.

Talvez seja preciso reconhecer sua condição de humilhado da cabeça baixa, anjo libertador pela moral adquirida do não saber julgar, apenas se deixar absorver como plâncton, guelra sem fôlego na fusão do espaço.

Talvez que justamente na improbabilidade de seus atos, na constante mudança de estação, esteja o toque frágil de uma alma fugidia, que nega o amor e pede perdão, porque é preciso ir – a boca falsa treme hesitante.

Talvez haja algo de gato no seu virar de cabeça, algo de um azul muito escuro no fundo de seus olhos, um azul que prenuncia uma falência meticulosa e um mergulho na vida, as mãos nos bolsos das calças, pronto para receber o som.

Talvez o vulto precioso que dobra aquela esquina, fabricante de momentos em pequenas caixas de música, talvez eu por um dia, por um minuto, talvez o sanguinolento tirano com mãos boas para o piano, a sutil contradição entre viver e deixar-se consumir.

Talvez o poeta seja a casa de máquinas vazia, pistão que arranca pedaços atribuídos a experiências vergonhosas, porque ao poeta não é dado o direito de escolher, o que parar terá atenção, o que brigar terá briga, e ao amor o adeus.

Talvez o poeta seja o que pergunta: "quem deixou esse buraco?", o que dança mal qualquer música, separado do corpo, mas dança sempre, se lhe arrancarem os pés, se lhe fizerem uma tiara de espinhos, ele dançará sorrindo, ele é amor.

Talvez ele se vire numa estação de trem e lhe diga: "não consigo mais ver", porque a opção do poeta é estar cego do mundo para em si concebê-lo, não alienar a carne falsa, dar adeus ao amor porque, sendo o amor, não carece de si mesmo.

Talvez não seja raro que as Escolas o abominem, o acusem de escandaloso, de parasita social, ele que não passa de um enfermeiro recém contaminado, esconjurado devido ao peso da pedra bruta, criminoso de cenho ereto.

Talvez não, é melhor dar como certo, que a condição primordial do poeta não é propriamente escrever poemas, apresentar mil facetas ao corpo prejudicado, muito mais é a febre da criança que não teve, e nunca terá.

http://www.omarona.blogspot.com/

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, eu dou por certo: suas certas palavras. :)