quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O QUE NOS CABE? >> Carla Dias >>


- E se for hoje?
- Então, viveremos o dia com o desespero em êxtase.
- Será hoje...
- Pode ser...
- Será que será?
- Vai saber...
- O tempo tem dentes... Vai nos mascar feito chiclete.
- E de qual velocidade seríamos partidários?
- Nesse dia? Do desejo desmedido; daquele quê oferecendo prazer insustentável.
- Comeríamos?
- Frutas desmascaradas de estação. E engoliríamos o ócio... Só haveria espaço sem tempo para ações... Desmascararíamos teorias.
- Teorias podem ser construtivas, fortalecer realizações...
- Ações dão na poesia que me ganha e disso não consigo me desfazer, e nem quero. Afinal, as teorias que ficam na teoria acabam por desbotar sonhos.
- Arrepios provocados por beijo na nuca...
- O quê?
- Pedirei uma porção deles... Se for hoje...
- Pra quem?
- Sei lá!
- Sabe lá?
- “O que é morrer de sede em frente ao mar?”
- “Sabe lá?”
- Sei... E você?
- Talvez...
- E?
- Surrupiarei trocados de amigos tacanhos para comprar balas de hortelã.
- Por que balas?
- Balas de hortelã me lembram a infância com meu avô. A língua refrescada, atiçando gargalhadas. Era troco do pão, da pinga, da lata de molho de tomate. Bala de hortelã era o tipo de troco que se dava ao menino apaixonado pela infância, pelas suas brincadeiras e suas seriedades, como era o amor que eu tinha pelo meu avô... De uma seriedade imensamente feliz.
- E se não for hoje?
- Pode ser amanhã, né?
- Pode...
- Pode ser nesse presente que, de um fôlego se torna passado. Pensa bem... Eu te conheço no raso. Se não for hoje, poderei me identificar com descobertas sobre você. Aprofundar-me a respeito da sua humanidade, qualidades e defeitos.
- Mistérios particulares à espera da companhia das traduções. Por que esperamos tanto para mergulhar um na alma do outro? Por que tanto receio em nos entregarmos a tal jornada?
- Talvez temamos nos identificar com quem não poderemos compartilhar a vida.
- Mas no receio, nessa proteção exacerbada, não há também o risco de não lapidar a capacidade de reconhecer a intimidade? Essa distância me endoidece, sabe? Todos nós merecemos ser desvendados, ainda que jamais alguém chegue a nos traduzir as entrelinhas.
- Eu já sei que você gosta de horizonte... Por que seu olhar se perde nele desse jeito? O que há de tão especial no além de?
- É meu jeito de alimentar a alma. Na verdade, o horizonte me permite outro tipo de olhar, aquele despido de alvos. Não há precedentes, esquetes, conjecturas. É um olhar honesto, que não julga, não manipula emoções. Abraça o que alcança.
- Crueza...
- A beleza que pode haver nela...
- Matará a tal sede com? Sendo hoje?
- Sutilezas... A chuva caindo no rosto, os pés dançando músicas que não escutei antes desse dia. A dança da novidade num momento de partida. E colarei lembretes pela casa, pelas ruas, pelo mundo, para que jamais nos esqueçamos de quem fomos e quem nos tornamos. As importâncias... Você?
- Farei de conta que será somente amanhã, não hoje. Retardarei o inevitável, ao menos dentro de mim. Porque não quero deixar de existir, justo agora que começo a compreender inquietudes. Gostaria de desfiá-las, criar futuro com essas compreensões.
- Mas e se for hoje?
- ...
- Não há resposta certa, não é mesmo? De um jeito ou de outro...
- Morreremos de sede...
- Em frente ao mar...
- Ironia sermos ceifados pela solidão justo agora que sabemos um pouco mais um sobre o outro.
- Mas há o medo que nos afasta da proximidade.
- Ele sempre estará presente entre nós.


- Sempre é quando?
- Logo mais... Hoje ou amanhã... Sendo hoje, daqui a pouco.
- Daqui a pouco nos distrairemos um do outro, das nossas reflexões. Apagaremos as descobertas, colocaremos a culpa de não conseguirmos ficar um pouco mais na nossa humanidade, e seguiremos com a vida.
- Sós...
- Olha, foi bom te conhecer.
- Pois é... Uma pena que me desconhecerá daqui a pouco... Hoje ou amanhã não é tempo suficiente para nós.
- Ainda haverá o seu olhar...
- Despido de alvos...
- Desnaturado com os rótulos.
- Melancólico, porque ele sempre buscará por esse momento e, sem encontrá-lo, sofrerá de desabrigo.
- Antes fosse daqui a um ano...
- Aprenderíamos a ficar, nesse tempo?
- Não sei... Acho que não... Começo a me dar conta de que não se trata de tempo.
- Bastaria um segundo, se realmente estivéssemos prontos para mergulhar um na alma do outro.
- E o medo?
- O medo... Quantos fins de mundo ele nos oferece durante a vida, não?
- E temos de aceitá-los?
- Cabe a nós transformá-lo em começos, não em fins.

Imagens: "Descending Angel"/ "Ascending Angel" >> John Wimberley

www.carladias.com


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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, deixa ver como é que eu coloco meu peito em palavras...

É que eu tenho estado com tanta fome desse "hoje" de que você fala. E ler esse desejo do hoje num formato que eu tenho praticado bastante - o do diálogo sem narração - me deu a sensação de que era eu mesmo que estava escrevendo. Só que eu jamais escreveria essas coisas que você escreve. Então é como se houvesse algo dentro de mim escrevendo: vozes de seres que talvez estejam justamente adiando o saciar da minha fome.

Doido, né?

Grato por essas doideiras lindas que você escreve,

Carla Dias disse...

Eduardo... Eu te entendo por demais. Já aconteceu comigo de ler tuas palavras e me sentir dentro delas e de um jeito tão próximo; o assunto assoprado como se eu mesma o tivesse feito. Mas ao mesmo tempo, tão outro.

Que nossas doidices se completem... Sempre!

Carlos Vilarinho disse...

Muito bom, Carla!
Sempre ontem e mais hoje, talvez amanhã.

Carla Dias disse...

Obrigada pela visita e pelas palavras, Carlos.

Águia disse...

PUTAQUEPARIU!!!

Que seja agora:
AGNeS DAY!

AMÉM.

Angela (prima) disse...

Querida Carla
Adorei as imagens que voce escolheu, porque dá uma sensação de leveza, assim como as palavras usadas para descrever essa vontade de viver o hoje.
Espero ter essa mesma suavidade quando o mundo disser não.
Beijos