quinta-feira, 6 de agosto de 2015

FAZ FALTA UM INTERLOCUTOR >> Mariana Scherma

Morar sozinha tem suas grandes vantagens. A cama de casa que você ocupa do jeito que quiser, pode dormir na diagonal sem receber chutes suaves (ou não) na madrugada. Pode deixar o livro perto, ou vários livros. Sabe que, quando chegar do trabalho, as coisas vão estar do jeito que você deixou. Inclusive seu chocolate importado vai estar lá, intocável e esperando pacientemente por seus dentes ferozes. Tem o espaço do guarda-roupa todo para suas coisas e aí pode se dar ao luxo de comprar uma coisinha ou outra desnecessária. É bom morar sozinha. Mas tem dia que não.

Bem nos momentos em que não é legal viver by yourself é que as coisas mais bizarras, engraçadas e atrapalhadas acontecem. Não sei se com todo mundo é assim, comigo é. Morar sozinha deixa de ser bom quando você desliga o chuveiro e percebe que a toalha está no varal, você grita mãe no pensamento e nada acontece, sai pingando água pelo apartamento, resgata a toalha e percebe que, ops!, estão pintando o prédio por fora, bem perto da janela. Ai, caramba! Não bastasse o pintor ter visto você meio (totalmente?) à vontade, vai ter que pegar o rodinho e secar o caminho da sua vergonha. Óbvio que na hora de sair para o trabalho o pintor vai estar por perto. A esperança é que ele não a reconheça vestida e de cabelo seco.

Para os momentos de fome, eu tenho 300 revistas de receitas com tortas, bolos, arroz de forno e cia. que super poderia preparar. Mas prefiro só folheá-las mesmo. Você pensa: fazer uma torta só pra mim? Putz, nem tenho farinha. Vou ligar pra pizza/lanche/pão de queijo/melhor amigo. Imagino que seja por isso que os amigos do trabalho adoram quando eu cozinho. Eles sabem que no dia seguinte vai sobrar pra eles... Admiração eterna pra quem faz refeições completas pra si mesmo. Seja quem você for, sou sua fã. Sem contar que a logística dos produtos comestíveis pra quem vive sozinho é complicada: o leite dura muito, o pão dura pra sempre, a manteiga Aviação não chega ao fim. Bom, mas o chocolate acaba. O sorvete também.

Dia desses, minha lâmpada queimou. Só porque ela fica dentro de um globo e eu detesto pedir favor, chamei o eletricista. Ele trocou. Tudo certo? Não. Decidi que subiria na escada e deixaria os parafusos do globo mais soltos, porque aí na próxima vez que a lâmpada queimasse eu poderia trocar sozinha a porcaria. Eis aí o tipo de ideia que, se dita em voz alta, alguém a corrigiria com um necessário “isso é ser burra”. Eu mesma reli a frase e me considerei levemente aquém dos genes intelectuais dos meus pais. Mas fiz isso, estava convencida. Durou uma semana o globo daquele jeito capenga. Bem quando eu estava no sofá lendo a parte mais tensa do meu livro de terror, o globo considerou um bom momento para o suicídio. Precisa falar que eu quase pulei até o teto? Passei minhas horas vagas catando cacos  sozinha. Bom pra aprender. Bom pra contar. Quem disse que morar sozinha é só delícia? Às vezes, falta um interlocutor cheio de razão.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É verdade, Mariana.
Mesmo para quem gosta da solidão, às vezes faz falta um interlocutor. :)