sábado, 15 de agosto de 2015

SEBASTIÃO, O SACRISTÃO >> Sergio Geia





O Bastião daquela cidadela tinha um metro e meio de altura, cabelos raspados nas laterais com um tufo acinzentado no meio — no melhor estilo milico —, a simplicidade valiosa de um camponês. Quando a bagunça atingia níveis estratosféricos no salão paroquial, ele aparecia, mas não dizia nada. Sua presença impunha respeito, apesar do tamanho, talvez um pouco pelo medo que sentíamos daquele baixinho e do que ele seria capaz, tudo num começo de andança pra muitos. Depois nos tornamos amigos.

O medo vinha mais de suas rugas. Bastião já devia ter passado muito aperto nessa vida, pois tinha nos olhos, escondidos atrás de lentes garrafais encaixadas numa armação antiquada, a expressão cascuda de quem já desbravara densas matas, uma espécie de Villas Boas suburbano. Ficávamos a imaginar, sentados nos jardins da Santa Teresinha, como deveria ter sido a vida daquele sujeitinho de pouca fala, de olhar sério e de raros amigos.

Lembro-me de uma vez em que os coroinhas foram denunciados por um jornalista na rádio AM local, por estarem destruindo a praça, quando na verdade apenas brincavam de esconde-esconde. Bastião me encarou todo sério e sem pestanejar me surpreendeu com seu sorriso lacônico: “Ô Nersinho! (ele tentava encontrar meu nome, mas nunca acertava; na verdade queria dizer Serginho, mas saía Nersinho) Isso é coisa de desocupado”.

Quando ia bater o sino, do altar nós o víamos subir a pequena escada que nascia no coro e terminava na torre. Pensávamos: “Lá vai o Bastião repicar o sino na hora da consagração”. Subia devagar, quase parando. De vez em quando, parava mesmo. Parava para ouvir o padre falar, tudo muito no seu jeito tartaruga de ser, na velocidade que a vida deveria seguir, mas não segue.

As intenções da missa eram marcadas num papel tosco e escritas à mão. Hoje não, tudo é digitado. Mas naquele tempo, antes da chegada da máquina de escrever, os garranchos do Bastião tomavam lugar de honra na mesa do altar. Sinceramente? Não sei como o padre conseguia ler aquilo tudo sem errar o nome de alguém.

Outra mania do Bastião que não me sai da memória era pendurar uma caneta Bic atrás da orelha. Um jeito fácil e prático de tê-la sempre à mão. Era um costume de muita gente. Hoje não. As canetas não vivem mais atrás das orelhas.

Sebastião devia ter uns setenta quando o conheci. Vivia mastigando sei lá o quê, parecia chiclete. Na verdade, não tinha um de nós que não apostava na hipótese de Bastião estar comendo hóstia às escondidas. Não as consagradas, é claro, mas aquelas que eram apenas pão em formato de hóstia, e que ficavam no armário da sacristia aguardando o momento da consagração. Mas haja hóstia, porque ele mastigava sem parar. Até que padre Leite, outro brincalhão, falou um dia que Bastião mastigava a própria língua.

Pois me lembrei de Bastião outro dia e de todas as suas manias, isso às quatro da manhã. Eis que, sonhando que tinha nas mãos um poderoso X-Tudo lá do Toninho, quase arranquei um pedaço da língua no melhor jeito Sebastião de ser.


Ilustração: Santuário de Santa Teresinha, Taubaté-SP, Ricardo Montenegro, Ateliê Montenegro.




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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sérgio, essa pode entrar em qualquer antologia cujo assunto seja SONHOS. :)
Muito boa!

Zoraya disse...

Que delicado, Sergio! Senti uma pontinha de tristeza, foi bonito.

sergio geia disse...

No início Sebastião dava medo. Depois, não. A gente conhece a pessoa e vê que ela não é nada daquilo. Era uma pessoa muito simples. Nós éramos crianças naquela época, e aprontávamos pra valer... Coitado do Bastião rsrs. Abraços, amigos!

Darci Antonio Siqueira disse...

Deu saudades, nossa que legal, viajei no tempo agora, tudo assim mesmo não deixando esquecido o molho de chaves pendurado na cinta, kkkkkk Boa!!!!!!!