domingo, 23 de agosto de 2015

INIMIGO PÚBLICO Nº 1 >> Eduardo Loureiro Jr.

Sei que o leitor não aguenta mais escândalo, que vem até o Crônica do Dia desejando um refresco das notícias estarrecedoras que circulam pela grande mídia. Mas é meu dever noticiar um absurdo...

O Mar. O Mar continua lá. Entra governo, sai governo. Entra esperança, sai esperança. E o Mar continua lá, absoluto, intocável. Dele ninguém fala. Ninguém atenta para seu líquido latifúndio. Ninguém se indigna com a sua desfaçatez: faz de conta que está tudo azul, mas logo se percebe a fortuna que guarda em verdes esmeraldas.

O Mar vadia o dia inteiro e a noite inteira. É um vaivém sem fim. Puxa o que quer puxar, força o que quer forçar e ninguém fala nada. Fazemos de conta que ele não existe. Diante de nossa indiferença, ele atrai para si os mais ociosos e odiosos tipos: surfistas, pescadores (de vara e de rede), andarilhos que tramam ardilosas e crônicas ironias.

Enquanto se discute esse ou aquele projeto de lei, enquanto se emenda a constituição aqui e ali, enquanto se bate panela, enquanto se delira em impeachments, o Mar continua na sua onda, se locupletando de plataformas de petróleo e tesouros de piratas, vivendo na maior zona do pré-sal, se espumando, ressacando. Ninguém se lembra que seu principal assessor usa um tridente. A bancada evangélica mete o pau nos homossexuais e faz vista grossa para a devassidão marinha.

E o Mar só lá... se refestelando. Nem aí pra jogar o lixo no cesto. Se um arqueólogo ou um historiador de migalhas se desse ao trabalho de investigar uma beira de mar qualquer, ulularia diante do óbvio: o mar bebe muito (água, leite, refrigerante, vinho, uísque), vê muita TV (de última geração, já que os tubos pesadões ele joga todos na praia), toma banho de lua (quantos frascos de água oxigenada!) e, como se não bastasse, ainda engole gente e cospe só as sandálias havaianas. Sem fiscalização, sem denúncia, sem que nenhum apresentador de programa policial se esgoele e encha os bolsos de anunciantes.

Então estão avisado. Deixem a arraia miúda em paz. O alvo a ser visado, o inimigo número um do estado, não é outro, não é pequeno nem é de hoje. Canalizemos todo nosso ódio para quem de fato o merece: o megalomaníaco, o escandaloso, o exorbitante Mar.

Partilhar

4 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Até parece o Eclesiastes!

Lilu disse...

a fortuna que guarda em verdes esmeraldas
.
andarilhos que tramam ardilosas e crônicas ironias
.
se locupletando de plataformas de petróleo e tesouros de piratas
.
enredada de proa a popa no balanço das tuas palavras

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, André e Lilu. :)

Carla Dias disse...

Que bonito, Eduardo...