sábado, 22 de agosto de 2015

TRAIÇÕES EM TERAPIA >> Cristiana Moura


Ontem mesmo eu conversava com este colega, trocávamos experiências profissionais. Rodolfo é um terapeuta renomado por esta terra. Discutimos alguns casos. O compartir profissional com ele é sempre muito rico e só nos vemos vez em quando — há de se aproveitar. No entanto, mais do que a riqueza de experiências, o colega sempre me surpreende com sua atuação. Falo daquelas surpresas parecidas com aqueles sustos em que a gente para de respirar por alguns curtos, porém longos segundos.

É que Rodolfo, quando foi para o Sul, foi aluno do analista de Bagé. Vocês já devem ter ouvido falar. Trata-se de um amigo do Veríssimo,  terapeuta controverso mais que conhecido por aquelas bandas. Bagé é um sujeito sem papas na língua, um tanto rude e com métodos, vamos dizer, de certa forma diferenciados.

Pois meu colega contou que o que mais tem ouvido no consultório, nos últimos tempos, são histórias de traições. Pacientes que haviam sido traídos, mas principalmente, pacientes que traíram seus companheiros e companheiras.

— Ah, Cris, meu consultório anda parecendo um confessionário!

— É...

— Pois é. Ontem mesmo, o cabra olhou pra mim e se pôs a confessar sua história. Falou do quão irresistível é a mulher com quem ele está saindo. Justificou-se contando do desinteresse sexual da esposa. E eu ali, ouvindo. Até que, olhando-me de baixo para cima como uma criança que destruiu o brinquedo do irmão, ele disse: — Doutor, fala alguma coisa, vai ficar aí me olhando com essa cara de paisagem? O que eu tenho que fazer? E esperou a resposta como quem aguarda uma penitência seguida da absolvição. Pois Cris, sabe o que eu respondi?

— Nem imagino — eu disse. Mas sabia que ouviria, naquele momento, uma intervenção que só um aluno de Bagé poderia fazer.

— Cris, eu disse o seguinte: Meu filho, reze vinte Pai Nossos, dez Ave Marias, cinco Salve Rainhas, pague o dobro do valor da minha consulta e está tudo resolvido.

— Amém — pensei.



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa solução. :)

Carla Dias disse...

Concordo com o Eduardo... Boa solução ;)