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ATÉ BRUTUS >> Albir José Inácio da Silva

Ando com saudade das ameaças. Sei que o leitor pensa que eu deveria estar com saudade da minha sanidade. Mas é que a ameaça apresenta a violência, prepara-nos. E traz uma alternativa. Ou isso ou aquilo, “ou me dá a carteira ou te espeto a barriga”. E nesse caso sempre se pode preferir ficar sem a carteira.

Mas já ninguém ameaça. Atira-se, esfaqueia-se para depois solicitar a vantagem. Felicitávamos as vítimas de assalto: “ainda bem que foi só o dinheiro!”, hoje felicitamos: “ainda bem que não atingiu nenhum órgão vital!”. Está faltando a clássica ameaça: “A bolsa ou a vida!”
  
As facadas têm vindo antes, e atira-se pra depois perguntar.  Quebram-se as regras também nos assaltos. Eu queria de volta os ladrões sorrateiros, que preferiam o dinheiro ao sangue. A cara e a roupa identificavam o assaltante, e a gente podia entregar o dinheiro ou correr e pular o muro da embaixada.

Agora os malfeitores participam do jogo avisando desde logo que vão descumprir as normas quando lhes aprouver. Quem nasceu e cresceu na América latina sabe que o assalto se esconde em cada esquina. Pois que se esconda! Não se pode é desfilar com placa de assaltante. O descaramento incomoda mais que o assalto e a desfaçatez, mais que a violência.

Golpistas têm de ser sorrateiros, discretos antes do assalto. Devem se mover nos subterrâneos, nas vielas, nas casernas, em cochichos e complôs. Esse acinte que ameaça rasgar a carta, desfralda bandeiras e se arroga direito ao assalto, é que é novidade.

De onde vem tanta empáfia se, dessa vez, não contam sequer com apoio externo, pelo contrário, são vistos como caricaturais e ridículos?

Já não se conspira, propõe-se publicamente o golpe nos locais mesmos em que se deveria cultuar a democracia. Pedem-se quarteladas de dentro das instituições que representam a república. Como se médicos pudessem matar e defensores, condenar.

Não se sussurra pelos becos — são legisladores que quebram as tábuas da lei, são tesoureiros que esvaziam os cofres e são vigias que convidam os invasores. Apostam na terra arrasada porque, mesmo que não lhes sobre nada, estarão vingados.

Não se portam como inconfidentes, mas como monarcas que, confrontados com leis ou costumes, disparam seu direito divino “L’état c’est moi”. Malfeitores que não estão nos becos e esquinas, mas dentro de nossa casa.

Os ladrões de antes diziam roubar por necessidade, os de agora afirmam que roubam porque são mais fortes e porque nós precisamos aprender quem manda. São loucos, sim, mas muito violentos. A história e a vida lhes farão justiça. Mas precisamos sobreviver.

Comentários

Albir, eu estava encarando a situação como uma grande palhaçada, mas sua crônica me alertou para a gravidade da situação. Grato. :)
Zoraya disse…
Igualmente, Eduardo. O Albir nos levou pela mão bem onde ele queria. Bom demais

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