quarta-feira, 19 de outubro de 2016

UMA HISTÓRIA QUALQUER >> Carla Dias >>


Norma chegou ao mundo há muitas décadas. Não é das que têm problemas com a idade, mas isso não significa que distribui a informação a troco de nada. Já não bastam as várias vezes em que a burocracia a faz praticamente gritar sua data de nascimento?

- O que disse senhora?
- ... de mil e novecentos e...
- Entendi nada, minha senhora. Pode repetir, de preferência mais alto?
- 2 de julho de 1935.

O que realmente a aflige não é ter oitenta e um anos de idade. É quando isso é declamado em público, em um ambiente com uma quantidade considerável de desconhecidos. Há sempre entre eles alguém que vai desejar se achegar:

- Nossa, mas a senhora está ótima pra idade que tem.
- Quanta sabedoria deve ter acumulado, hein?
- Tenho certeza de que já viu muita coisa nessa vida.
- Seus filhos devem estar orgulhosos de a senhora sair sozinha.

O tempo lhe ofereceu, além de momentos inesquecíveis, para o bem e para o mal, uma artrose de teimosia sem fim. Andar se tornou desconfortável, o que nunca foi motivo para ela abandonar as caminhadas pelo jardim de sua casa, aquele lugar que sempre a faz se sentir mais feliz.

Quanto à autonomia para andar por aí sozinha, essa ela ganhou da solidão mesmo. Nasceu filha única, de família minguada. Não se casou, não teve filhos. Amigos ela tem, mas não é das pessoas mais sociáveis. Assim, vive a dar o cano nas colegas de Chá de Domingo. Essa distância que mantém das pessoas é exatamente o que a mantém desacompanhada em salas de espera. Até aqui, tem se saído bem.

Gosta de piano, desde criança. Os pais não a deixaram estudar música, mas isso não atrapalhou sua paixão e a tornou uma boa ouvinte. Que o digam seus companheiros, Jobim, Mozart e Evans. Aliás, eles detestam televisão. Às vezes, ela quer distrair a cabeça com alguma novela, mas os gatos pulam em seu colo, reclamam o tempo todo, até que, sem condições de acompanhar a trama, ela desliga a tevê e se rende ao desejo deles. Coloca um disco para tocar e senta-se em sua cadeira de balanço, um livro para adoçar o tempo.

Pronto... Jobim, Mozart e Evans se acalmam aos seus pés.

Sua casa está em um ponto muito interessante para o mercado imobiliário. É a casa onde nasceu, cresceu e sabe que irá morrer. Já recusou ofertas tentadoras para vender o lugar. Tentadoras para as colegas de yoga. Ela nunca pensou em aceitar proposta que fosse. Sua história vive com ela nessa casa. Dela sairá somente quando o que lhe restar for o silêncio absoluto. O corpo inerte.

Essa relutância lhe rendeu um grande problema. Um dos interessados alegou que ela estava com problemas sérios de saúde, que sua cabeça estava bagunçada, assim não podia cuidar de si. Por causa dessa conversa fiada no interesse dele pelo terreno, casada à alegação de que ela está velha, Norma tem de fazer acompanhamento com uma psicóloga, a pessoa que se tornou responsável por - uma vez por semana - confirmar se ela é capaz de continuar a levar a vida nos seus termos.

- Como foi a semana, Norma?
- ...
- Você sabe que tem de falar comigo, né?
- ...
- E a saúde?

Norma a deixa falar por ela. Juliana gosta da companhia dela, apesar de seu silêncio. Aos poucos, ficou comum a psicóloga contar mais sobre si. Não tardou até que Norma lhe desse alguns conselhos, porque se há algo que a vida oferece ao atento contemplador é sabedoria. Ela sempre foi atenta à vida.

Norma teve de trocar de psicóloga. Juliana foi definitiva em sua afirmação: se você não conversar e mostrar que está bem, você pode perder sua liberdade. Assim, Norma conta uns causos ao novo psicólogo, um senhor muito simpático, que usa um perfume agradável. Claro que ela conta causos inventados, porque não quer sua intimidade exposta a quem não escolheu se revelar. Causos que a mostrem sã e capaz de fazer suas escolhas. Às vezes, pega alguns emprestados de livros que já leu.

Juliana a visita toda semana. Elas conversam, tomam chá e algo mais forte, no final da tarde. Elas escutam música, enquanto Jobim, Mozart e Evans se revezam aos seus pés. Eles gostam de Juliana. Norma gosta de Juliana.

Sua vida tem sido um emaranhado de acontecimentos contrastantes. Foi feliz por muitas vezes, o que gerou uma série exemplar de boas lembranças que ela adora revisitar. Às vezes, pega-se gargalhando baixinho, como se alguém pudesse escutar esse som sair dela. A tristeza a acometeu com mais frequência do que a felicidade, mas isso ela entende. Ser feliz é trabalhoso. Às vezes, desiste-se de sê-lo no meio da jornada.

Ela contabiliza muitas desistências.

Amou, claro. Mas não teve a sorte de ser amada de volta, o que provavelmente geraria uma história interessante de se contar, até mesmo uma família. Não foi amor da brevidade. Foram décadas sentindo o coração despedaçar-se diariamente. Também não foi amor da distância, que o moço se casou com sua vizinha. Norma passou muito tempo presenciando a felicidade deles, mas nunca desejou que ela acabasse. O amor dela por ele era tanto, que ela preferia vê-lo feliz a ele correr o risco de ser infeliz ao lado dela.

Juliana diz um não choroso, mas depois diz sim, porque sabe que é importante para Norma, que, aliás, está feliz por não ter sido a falta de lucidez o seu algoz. A clareza de sua mente foi resultado de um espírito capaz de perceber as nuances da sua existência, de perseverar nas gentilezas, de esbaldar-se na constatação de que as imperfeições também definem caráter de forma positiva. Não se arrepende da vida que teve, pois viveu cada momento, ele sendo ou não o que ela desejava.

Norma assina o documento e assim Juliana se torna sua herdeira de história: casa, discos e gatos. Nessa noite, ela se sente tranquila como nunca se sentira.

Deita-se em sua cama, pensando que não há o que lhe aflija no momento. A sensação é tão boa, invoca lembranças tão antigas. Há essa saudade imensa de um abraço que se reconhece, como aquele que seus pais lhe davam, várias vezes durante o dia e, muito mais demorado, antes de dormir.

Adormece. Então, silêncio absoluto. Corpo inerte.

Imagem © Albert von Keller

carladias.com



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2 comentários:

Zoraya disse...

Só você mesmo pra escrever uma história linda, comovente e triste ao mesmo tempo. Só você.

Carla Dias disse...

Ah, Zoraya! Nem sei mais como agradecê-la. Beijos!