quarta-feira, 12 de outubro de 2016

BILHÕES >> Carla Dias >>


É assim o mundo. Bilhões de pessoas. Raramente, a maioria está na mesma página do livro da vida. Assim, nascem guerras e grandes ideias. Despertam os menestréis, os sábios, os artistas, os cientistas, os revolucionários... E os genocidas. Ganha espaço o que há de pior, mas também o que se baseia no amor, mas não naquele amor para emplacar comercial de televisão. Amor.

Aprendemos muito, quando nos dispomos a isso. Nós, parte dos bilhões. Há quem coloque bilhões de dinheiros no bolso por conta de uma grande ideia, ou uma ótima lábia. Ainda assim, e amém a isso, não existe quem coloque os bilhões que somos, de uma só vez, no bolso, e a troco do que seja. Isso não significa que não tentem. Diariamente, encontra-se uma forma – fórmula? – de nos manter em um mesmo plano, como se fôssemos bibelôs de colecionador austero. Somos mantidos o mais silentes e ignorantes possível – não se iluda, que seus gritos não estão sendo ouvidos, e as palavras escritas em CAIXA ALTA espantam leitores. Somos úteis quando servis, dóceis, ainda que – e principalmente por – nossa humanidade seja castrada no processo.

Quando nos rebelamos, somos reduzidos às estatísticas, definidos pelo o que não tivemos oportunidade de conquistar, celebrados como estorvo, reunidos em um barracão de termos técnicos – de acordo com o tema recorrente – para o abate. Então, nomeiam-nos “efeito colateral”, ou em termos ditos – erroneamente – poéticos: sacrífico em nome de um bem maior.

Que bem pode ser maior do que a consciência de que somos bilhões, e de que convivermos no mesmo planeta, apesar das nossas diferenças, é uma das coisas mais difíceis e belas dessa vida?

Nós sabemos disso. Nós vivemos isso, e ainda assim, alguns tentam se tornar o dono do mundo. O dono de nós, os bilhões.  

Porém, é assim o mundo. Somos bilhões. Somos parte dessa roda que gira lá com seus mistérios. Não devemos nos esquecer disso, porque acontece. Às vezes nos fechamos em nossos próprios universos e temos a sensação de que somente essa parte do mundo é ele todo. Melhor manter o diálogo para equilibrar as diferenças de pensamento, mesmo cientes de que nem sempre isso será fácil.

A grande sacada está em aceitar que somos bilhões no planeta. Somos mais de duzentos milhões, somente no nosso país. Não há como ser adepto do absolutismo em um mundo onde somos um em bilhões. Lembre-se disso a cada vez que esbravejar “tenho absoluta certeza de que...” ao precisar defender seu ponto de vista. Fazê-lo é de direito e necessário, mas não daquele jeito que não dá espaço ao outro para dizer “acho que não é bem assim...”, e até mesmo mostrar que muitas certezas são bem maleáveis, e que nem sempre é assim.

Então, olhando para o mundo, pensando nessa condição, eu me sinto extasiada com a diversidade de quem divide espaço com bilhões. Diversidade de ideias, de crenças, de culturas, de percepções. Não importa se estou na sala de casa, sozinha. Jamais deixarei de ser uma entre bilhões. Você será sempre um entre bilhões.

Bilhões.

Lembre-se disso sempre que se sentir compelido a se comportar como dono do mundo. Como senhor absoluto da verdade. É que pessoas gritando suas verdades, construídas para unificar o que nasceu para ser plural, não dizem muito, apenas conseguem que suas palavras ecoem em espaços vazios. Precisamos valorizar o fato de que podemos defender as nossas ideologias, conquistamos esse direito, então, devemos respeitá-lo. Porque há entre nós, bilhões de nós, aqueles que ainda não podem fazê-lo.

Imagem © Jozz. Ilustração para capa do livro Estopim, de Carla Dias.



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4 comentários:

Zoraya disse...

Queria saber como vc consegue escrever esses libelos sem panfletarismos, D. Carla Dias. Poucos de nós, entre esses bilhões, conseguem fazê-lo. Bilhôes de beijos.

Carla Dias disse...

Ah, Zoraya, acredito que seja apenas porque me parece óbvio e benéfico a todos nós. Todos. Espero que possamos exercitar certa tranquilidade no trato a respeito do outro. Nem tudo tem de ser no berro, certo? Beijos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

"Somos parte dessa roda que gira lá com seus mistérios."
Bom rodar nas suas palavras, Carla. :)

Carla Dias disse...

Obrigada, Eduardo! Beijos.