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A TELA BRANCA >> Clara Braga

Esse fim de semana tive um momento muito agradável ao assistir Mário Prata e seu filho Antônio Prata em um bate papo sobre suas crônicas, suas inspirações e os casos pelos quais os dois passaram juntos e separados na Bienal do Livro que está tendo em Brasília.

No momento em que a platéia começou a fazer perguntas, um rapaz questionou os dois sobre o chamado pânico da tela branca, se eles já tinham passado por isso e como resolviam o fato do cronista parecer estar sempre devendo uma crônica, sempre correndo atrás do seu próximo texto.

Muito bem humorados, os dois disseram que não existe no mundo um cronista que não tenha passado por esse pânico, assim como não existe um cronista que não tenha escrito sobre o fato de não saber o que escrever. Isso me deu um alívio e uma angústia ao mesmo tempo, logo pensei: minha vida de cronista ainda é muito curta pra eu já ter tirado essa carta da minha manga, eles usaram esse artifício depois de anos e anos de trabalho, tendo que escrever semanalmente para mais de um jornal, como eu fui me desfazer desse artifício tão cedo? E enquanto eu refletia eles citavam as histórias que conheciam:

Rubem Braga já tinha passado aperto. Luís Fernando Veríssimo com certeza teve no mínimo dois momentos de pânico. Millôr Fernandez já escreveu sobre não saber o que escrever, se você jogar no google deve até encontrar algo. Fernando Sabino parece ter uma história engraçada sobre já ter até pedido emprestado um texto a um outro cronista por não saber o que escrever na sua próxima coluna pro jornal e seu prazo iria expirar em questão de horas. Se todos esses, além dos próprios Mário e Antônio Prata, passaram por isso, podemos concluir que Carlos Drummond, Machado de Assis e Clarice Lispector, por exemplo, também tiveram seus momentos difíceis.

Vai dizer que ler esses nomes todos e poder imaginar uma gotinha de suor descendo pela testa de cada um deles enquanto encaram uma tela ou uma folha em branco não faz você se sentir melhor?

O alívio é fato, o problema é que mesmo não estando mais nervosa, a tela do computador continua branca e eu não conheço nenhum deles bem o suficiente para ligar e pedir uma crônica emprestada!
  

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