terça-feira, 4 de outubro de 2016

ELA DISSE QUE ELE ME DISSE >> Clara Braga

Elas acordaram que seria assim.

Ele não questionou, só discordou.

A outra, então, achou coerente a discordância e autorizou a mudança.

Ela disse que não foi bem assim.

Já aquela outra reclamou por não ter sido comunicada ou questionada de nada.

Ele afirmou para a primeira que perguntou para a segunda.

Aquela disse que a outra falou que a primeira não tinha explicado que seria assim desde o início.

Ninguém entendeu, ninguém perguntou.

Não tinha um culpado, mas ela assumiu a culpa mesmo assim, não queria confusão.

A outra sabia que a primeira tinha dito que a culpa não era dela e que a segunda estava apenas assumindo algo que o outro disse que era culpa da outra.

Melhor não se meter, a outra já disse que a primeira falou que aquela outra estava com raiva do outro.

Ninguém conversou.

Brigaram sobre o que disseram deles para a outra pessoa, que comentou com a segunda, que comentou com a primeira, que falou pra eles.

O que realmente disseram ficou no tempo, nunca saberemos.

E o que restou disso tudo? Por falarem demais falando de menos, todos ali nunca mais se falaram.


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Um comentário:

Rafael Vespasiano disse...

Parabéns, clara! Esse tema da incomunicabilidade e ruído na comunicação vem desde os anos 1960, com mais força na era pós-moderna, mas na crônica literária, é a primeira vez que vejo ser tratada de forma corriqueira como pede o gênero. parabéns, ficou ótima e agradável, reflexiva. abç Rafael