segunda-feira, 10 de outubro de 2016

QUEM VIVER, SOFRERÁ >> André Ferrer

Publicidade da Ford (1984)
Outro dia, revelei o desejo de comprar um Escort XR3 conversível. Entre os presentes, que acharam graça naquilo (não, eles riram), estava o meu pai. Seu conselho foi que eu comprasse, também, uma caixa de ferramentas e um bom sortimento de peças (não, ele disse, com todas as letras, que eu ficaria na estrada mais cedo ou mais tarde). Desafiado (sim, eles gargalharam), tomei o exemplo do Fusca e levantei a ideia de que um retorno do XR3 não constituía nenhum disparate. Sim, eu compraria o carro mais cobiçado pelos rapazes da minha geração.

1984 foi o ano das Olimpíadas de Los Angeles e do movimento Diretas Já. Michael Jackson, pela primeira vez, era chamado de Rei do Pop. Airton Senna, garoto propaganda do novo esportivo da Ford (sim, o Escort XR3), estreava nos Grandes Prêmios da Fórmula 1. Em todo o país, as rádios tocavam os enervantes “hits” do grupo Menudo. Eu tinha 11 anos.

Curiosamente, a nostalgia pode ser a grande arma do mercado. Crises econômicas já foram vencidas graças a um tipo de “marketing” preciso e refinado. São estratégias focadas nos indivíduos com maior poder de compra e maior... memória afetiva. Em 2015, por exemplo, nunca se vendeu tantos itens da franquia Star Wars para... cinquentões.

No meu caso, enquanto essa marca não chega, deparo-me cada vez mais com produtos milimetricamente pensados e deliberadamente envoltos naquela aura dos 1980. Referências à época da minha infância pipocam a todo instante. Onipresentes, elas incomodam. Para mim, suas piscadelas têm o mesmo efeito opressivo do “tic-tac” do relógio. Trata-se de um bombardeio e, raramente (como no surto que relatei no primeiro parágrafo), o estímulo é interno e espontâneo. Deste modo, a irritação supera o desejo. Caçoadas ficam minúsculas perto da grande e opressora melancolia.

Fotograma de
Stranger Things (2016)
“Stranger Things”, a famigerada série da Netflix, causou-me isso. Para quem não conhece, trata-se de uma série de terror cheia de referências “oitentistas”. Seus produtores e roteiristas calcularam tais referências de modo a criar um produto atraente para os pais, que viveram os anos de 1980 (e pagam a mensalidade da Netflix), e os filhos, criadores de algo tão geracional quanto o nosso rolê na lanchonete: a maratona de séries.


A nostalgia não é boa coisa para os mais velhos. Pode ser um barato para os mais novos que não viveram e só têm... saudades de coisas lidas e ouvidas. Quanto a nós, o melhor é lembrar com moderação.


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2 comentários:

Zoraya disse...

"Para mim, suas piscadelas têm o mesmo efeito opressivo do “tic-tac” do relógio. " - ótima comparação! a opressão das memórias com o passar do tempo. Que beleza, André! Desenvolve mais uma dessas, vai! Abraços oitentistas

Eduardo Loureiro Jr. disse...

"O melhor é lembrar com moderação."
Boa dica, André. :)