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SUJEITOS >> Carla Dias >>


Fosse acostumado ao mundo, colhendo histórias jogadas ao vento. Mesmo se fosse dos que se aprazem a ver tempo passar, com a paciência de quem entende silêncios. Será que se sentiria assim? Tão acuado diante do universo. Solfejando saudade do desconhecido, demorando o olhar no perder de vista.

Fosse capaz de praticar a vida, sem aprisioná-la em tantos segredos, o que seria de suas máscaras? Quantos atos teria sua existência? Como seguiria com seus inéditos desejos?

“Quem sou?” é pergunta que a resposta insiste em ignorar. Há quem floreie seus dramas com muitas versões de quem é, apenas para ocupar o silêncio que se segue, após tal questionamento. Ele não sabe viver de versões, ainda que seu eu, na necessidade de sobreviver aos infortúnios e confusões, disfarce-se recorrentemente, a fim de sobreviver aos delírios do destino.

É sujeito simples, com emprego honesto, carteira assinada, aluguel em dia. Não lhe falta comida, tampouco diversão. Gosta das gargalhadas que, mesmo diante de tragédias, invadem os recintos. Aprecia a maneira como a felicidade se impõe em dias de comiseração, evitando que a tristeza impregne a existência de outros sujeitos como ele, compreende? Os sujeitos que outros sujeitos chamam “aqueles que veem a vida passar”.

É fato que nunca foi de escolhas radicais. Leva uma vida simples, porque é sujeito simples, e não vê nada de ruim nisso. Conhece sujeitos que se reconheceram mais do que realmente eram e deram de amargar não terem alcançado um objetivo que de fato nunca desejaram. Engoliram mandamentos extraídos de livros de autoajuda e se esbaldaram em palestras motivacionais. Abraçaram rótulos e adotaram metas impossíveis de alcançar.

Entristeceram por não terem se tornado quem nem mesmo queriam ser. Não há nada mais perigoso para uma pessoa do que ela não reconhecer que, mesmo que ela faça tudo para chegar lá, se lá não for o seu lugar, nada feito. Se lá é onde ela não deseja realmente estar, danou-se.

Porém, é sujeito que pensa muito a respeito de tudo. Há certa complexidade em sua simplicidade. Agora, por exemplo, enquanto lida com seu trabalho de sujeito simples, pensa a respeito do que vem ruminando há algum tempo.

Fosse capaz de fazer as malas e cair no mundo, aonde iria? Qual seria o gosto que o conduziria? Pela comida, pela bebida, pelas paisagens? Pelo deslumbramento diante do desconhecido – idioma e cultura –, ou pela necessidade dele?

Em tempos de tecnologia de ponta, ele faz anotações, tem agenda de telefones e endereços, liga para as pessoas. Não é relutância em se entregar à facilidade da comunicação ou à conexão instantânea. Trata-se somente do jeito dele de lidar com as ferramentas oferecidas. Ele gosta de escrever à mão, de folhear páginas em busca de informações necessárias, de escutar a voz do outro, assim, de imediato.

Um sujeito que trabalha na mesma empresa, e há mais tempo que ele, vive a interromper seus pensamentos com comentários salutares sobre manter-se vivo. Veja bem, ele é sujeito simples no trato com a vida, mas isso não significa que seu desejo seja levá-la de forma asséptica, evitando problemas e, claro, experiências.

Evitando a vida.

Sujeito simples que é, fosse acostumado ao mundo, deixaria de se deslumbrar com ele. O que o mantém envolvido pela simplicidade é o respeito que tem pelo o que é oferecido. Movimenta-se de acordo com as experiências que o tocam. Não as evita, mesmo quando agridoces. Mesmo quando elas o ferem.  Questiona-se sobre quem é nesse mundo, mas esse é questionamento que dura até a próxima prosa com um vizinho que encontra na rua, porque esse singelo acontecimento o mudará de alguma forma, então, quem ele é terá se tornado outra coisa; outro alguém.

Sorri para o sujeito a declamar lista de antissépticos naturais, enquanto dividem a cozinha a beberem café de horas atrás.

Fosse capaz de fazer as malas, iria. Acontece que, no momento, permanecer onde está faz todo sentido.

Imagem © Emygdio de Barros

carladias.com

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