sexta-feira, 3 de março de 2017

EROS NÃO É AMOR! >> Paulo Meireles Barguil


Amalgamado é o ser Humano: alma e corpo.
 
Compreender cada aspecto e as intricadas relações é enigma milenar.
 
Não será, portanto, este tosco escriba quem o resolverá, mas me permitirei esfarelar  meus devaneios, pois é possível que eles sejam úteis a mais alguém além de mim...
 
As palavras surgiram na nossa História para expressar o que sentíamos, nomear o que (não) víamos e, talvez, melhorar a qualidade do existir.
 
Considerando que os vocábulos são manifestações culturais, é facilmente compreensível que alguns deles não tenham correspondente em outras línguas.
 
Em relação ao amor, é frequente ouvir que ele se manifesta de três formas: Eros, Filia e Ágape.
 
Entendo ser necessário e pertinente compreender a especificidade e a fonte de cada uma delas, tendo em vista a natureza humana.
 
Eros é a declaração mais pulsante do corpo: desejo, por vezes, incontrolável, de possuir o outro, que é visto como objeto, cuja finalidade é suprir a minha fome intensa.
 
Quero o outro para mim, daí o controle.
 
A ética de Eros é a satisfação de si: eu quero receber!

É bastante provável que se estabeleça uma situação de dependência, na qual alguém acredita precisar do outro para (sobre)viver, sendo a posse a garantia desse intento.
 
Em virtude da origem de Eros estar centrada nas entranhas, intensas (e violentas) costumam ser as reações de quem, contrário à sua vontade, tem interrompida tal fruição.
 
A carência que sinto exprime-se em insatisfação, reclamação, crítica, intolerância...
 
Ágape, por sua vez, é a expressão cristalina de Deus: amor incondicional.
 
Filia é a possibilidade que o Homem tem de vivenciar, em escala microscópica, o Ágape, e, assim, cuidar do outro, que é percebido como sujeito, cabendo a mim ajudá-lo a enfrentar os seus desafios do cotidiano.
 
Quero o bem-estar do outro, daí a liberdade.
 
A ética de Filia é a alegria do outro: eu quero dar!

É imprescindível esclarecer que a doação, expressão da Filia, é bem distinta de submissão, de anulação, pois aquela decorre da expansão, enquanto essa deriva da retração.
 
Considerando a gênese de Filia, a compaixão guia minha alma em todas as situações, principalmente naquelas em que avalio como inadequado o comportamento do outro e, de modo especial, quando ele me agride.
 
A abundância que sinto revela-se em gratidão, benção, elogio, aceitação...
 
Não postulo o antagonismo entre Eros e Filia, mas que se compreenda que ambos estão vinculados a aspectos distintos do Homem: corpo e alma.

Paixão é a crença, a fantasia de que o outro é a solução para o meu desequilíbrio.
 
A escassez do corpo é diferente da privação da alma, embora estejam relacionadas, tendo em vista as experiências na infância.
 
Acredito que restaurar a conexão corpo-alma, seja a nossa, seja a das outras pessoas, é a peripécia genuína de cada indivíduo.
 
Feridos na alma, quantas vezes, buscamos, inadvertidamente, com o corpo niná-la, sedá-la, curá-la?

Vivenciar Eros costuma ser delicioso enquanto dura, mas pode ter consequências amargas quando ignoramos tantas peculiaridades, tais como sentimentos de repulsa, culpa, vergonha, insensibilidade, que costumam ser ainda maiores se o fazemos sem o mínimo de Filia.
 
É tão simples: Eros não é Amor!
 
Antes de voar com Eros, se quiser evitar efeitos colaterais desagradáveis, de modo especial a frustração, consulte a sua alma...
 
E cuide dela: ninguém pode fazê-lo por você!
 
Eros com Filia é um manjar que, infelizmente, poucos desfrutamos, não por falta de Eros...
 
Para incrementar sua Filia, conecte-se com Ágape, que tudo cura e transmute o "Eu não tenho" para o "Eu sou".


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