quarta-feira, 1 de março de 2017

IMAGINAÇÃO SITIADA >> Carla Dias >>


Até ontem se imaginou de um jeito, num determinado canto, fazendo uma possível coisa. Imaginou-se com toda a liberdade que a imaginação oferece. Imaginar é de graça, é em segredo, fica no dentro.

Tem gente que joga ao mundo o seu imaginado. E ele se transforma em arte, em catarse, às vezes, em desentendimento, que imaginar é lida de indivíduo, cabe ao autor a cadência da trama. Porém, quando jogado ao mundo, às vezes toma conta de biografia de muitos.

Imaginou-se em outro planeta, certa vez. Mas desconfiado que é, descartou logo a possibilidade, que acha por demais de complexa a ideia de que há seres outros vivendo em planetas outros. Tem medo de não saber entendê-los.

Não à toa, imaginou seu futuro com detalhes explícitos. Onde caberiam seus talentos, os naturais e os adquiridos com estudo e dedicação. Qual frase usaria para agradecer ao agrado, sobre qual regra discursaria para defender o óbvio.

O que não raramente acontece aos que se rendem à imaginação, é que eles acabam à deriva. É difícil alcançá-los. Resgatá-los de seus devaneios requer substâncias requintadas, oferecidas por cientistas tarimbados. Às vezes, mas bem de vez em quando, basta uma boa dose de realidade.

Que ainda ontem, ele sabia do seu como e quando. Tudo fora perfeitamente imaginado e incluído em plano traçado, que ele veio desenvolvendo ao longo da vida. Orgulhava-se do roteiro que escrevera. Dedicava-se a interpretar o personagem principal com maestria. Sabia lidar com os obstáculos, feito super-herói de quadrinhos.

A avó dizia ao neto que ele não entendia que imaginação é coisa que não se deixa prender. Ela tem vida própria, não é sua só porque vive em você. Ele a escutou, todas as vezes, mas não deu importância. Foi imaginando tudo que coubesse nas suas expectativas e colaborasse com seus desejos. Era como se treinasse para a vida.

Outra coisa que a avó dizia: a vida é doida. Não adianta tentar prendê-la aos pés da felicidade. Ela vai urrar, espernear, e então, render-se à tristeza. Ela precisa de ambas para sentir-se legítima.

Então, que a imaginação se cansou de servi-lo. Em uma mesma semana, a maior parte do que imaginou, estrategicamente, foi desafiado por imprevistos. Isso lhe rendeu dor de cabeça, desentendimentos, o fim de relacionamentos que ele tinha certeza de que eram para a vida. As mudanças o enlouqueceram, e depois delas, nada mais estava no seu devido lugar.

O que mais o surpreendeu, é que depois de ele mesmo urrar, espernear, e então, render-se à tristeza, sentiu-se legítimo. A imaginação condicionada, parte importante de um planejamento de vida, já não lhe faz falta. Rendeu-se ao que será. Aproveitou toda sua expertise para improvisar.

Finalmente entendeu o que a avó queria dizer. Há entendimento que levamos uma vida para abraçar. Outra coisa que ela costumava dizer em severo tom: adaptar-se é uma necessidade. Quem se entrega a esse conhecimento, é mais livre do que aquele que lida com a imaginação feito esboço único do que se busca conquistar.

Imagem: Man in pub © John Brack


carladias.com

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3 comentários:

albir silva disse...

Muito bom, Carla. A imaginação aprisiona ou liberta. Só não sei se é opcional.

Analu Faria disse...

Nossa, que texto foda!!!
Adorei, Carla!

Carla Dias disse...

Albir... Acho que a escolha não é opcional, mas definitivamente depende das nossas escolhas. É evolutivo. Beijo!

Analu! Fico feliz que tenha gostado. :) Beijo!