Pular para o conteúdo principal

IMAGINAÇÃO SITIADA >> Carla Dias >>


Até ontem se imaginou de um jeito, num determinado canto, fazendo uma possível coisa. Imaginou-se com toda a liberdade que a imaginação oferece. Imaginar é de graça, é em segredo, fica no dentro.

Tem gente que joga ao mundo o seu imaginado. E ele se transforma em arte, em catarse, às vezes, em desentendimento, que imaginar é lida de indivíduo, cabe ao autor a cadência da trama. Porém, quando jogado ao mundo, às vezes toma conta de biografia de muitos.

Imaginou-se em outro planeta, certa vez. Mas desconfiado que é, descartou logo a possibilidade, que acha por demais de complexa a ideia de que há seres outros vivendo em planetas outros. Tem medo de não saber entendê-los.

Não à toa, imaginou seu futuro com detalhes explícitos. Onde caberiam seus talentos, os naturais e os adquiridos com estudo e dedicação. Qual frase usaria para agradecer ao agrado, sobre qual regra discursaria para defender o óbvio.

O que não raramente acontece aos que se rendem à imaginação, é que eles acabam à deriva. É difícil alcançá-los. Resgatá-los de seus devaneios requer substâncias requintadas, oferecidas por cientistas tarimbados. Às vezes, mas bem de vez em quando, basta uma boa dose de realidade.

Que ainda ontem, ele sabia do seu como e quando. Tudo fora perfeitamente imaginado e incluído em plano traçado, que ele veio desenvolvendo ao longo da vida. Orgulhava-se do roteiro que escrevera. Dedicava-se a interpretar o personagem principal com maestria. Sabia lidar com os obstáculos, feito super-herói de quadrinhos.

A avó dizia ao neto que ele não entendia que imaginação é coisa que não se deixa prender. Ela tem vida própria, não é sua só porque vive em você. Ele a escutou, todas as vezes, mas não deu importância. Foi imaginando tudo que coubesse nas suas expectativas e colaborasse com seus desejos. Era como se treinasse para a vida.

Outra coisa que a avó dizia: a vida é doida. Não adianta tentar prendê-la aos pés da felicidade. Ela vai urrar, espernear, e então, render-se à tristeza. Ela precisa de ambas para sentir-se legítima.

Então, que a imaginação se cansou de servi-lo. Em uma mesma semana, a maior parte do que imaginou, estrategicamente, foi desafiado por imprevistos. Isso lhe rendeu dor de cabeça, desentendimentos, o fim de relacionamentos que ele tinha certeza de que eram para a vida. As mudanças o enlouqueceram, e depois delas, nada mais estava no seu devido lugar.

O que mais o surpreendeu, é que depois de ele mesmo urrar, espernear, e então, render-se à tristeza, sentiu-se legítimo. A imaginação condicionada, parte importante de um planejamento de vida, já não lhe faz falta. Rendeu-se ao que será. Aproveitou toda sua expertise para improvisar.

Finalmente entendeu o que a avó queria dizer. Há entendimento que levamos uma vida para abraçar. Outra coisa que ela costumava dizer em severo tom: adaptar-se é uma necessidade. Quem se entrega a esse conhecimento, é mais livre do que aquele que lida com a imaginação feito esboço único do que se busca conquistar.

Imagem: Man in pub © John Brack


carladias.com

Comentários

albir silva disse…
Muito bom, Carla. A imaginação aprisiona ou liberta. Só não sei se é opcional.
Analu Faria disse…
Nossa, que texto foda!!!
Adorei, Carla!
Carla Dias disse…
Albir... Acho que a escolha não é opcional, mas definitivamente depende das nossas escolhas. É evolutivo. Beijo!

Analu! Fico feliz que tenha gostado. :) Beijo!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …