sexta-feira, 31 de março de 2017

AUTÔNOMO OU AUTÔMATO? >> Paulo Meireles Barguil


— Eu quero tudo pronto! — falou-me uma professora, num tom que demonstrava súplica e irritação.

Olhando para ela, respirei lentamente, e expliquei-lhe, pacientemente, que seu pedido contrariava meus princípios pedagógicos, os quais expressam minhas concepções de Homem, de Cosmos.
 
Conforme o dicionário Houaiss, autônomo é um indivíduo "[...] dotado da faculdade de determinar as próprias normas de conduta, sem imposições de outrem.".
 
O autômato, por sua vez, é um "[...] indivíduo de comportamento maquinal, executando tarefas ou seguindo ordens como se destituído de consciência, raciocínio, vontade ou espontaneidade.".

Conforme Paulo Freire, a Educação Tradicional, batizada por ele de Educação Bancária, contribui para a heteronomia, ou seja, a constituição de sujeitos passivos, que se limitam a repetir, a reproduzir, a obedecer sem qualquer questionamento, motivo pelo qual ele propõe a Educação Problematizadora, que visa à humanização, à autonomia e à modificação da realidade, pois favorece e instaura o diálogo entre os agentes pedagógicos.

Jean Piaget, por sua vez, defende que a Educação favoreça o desenvolvimento da autonomia em detrimento da heteronomia.
 
Na natureza, a vida é construída lentamente, com dedicação, cuidado, fé e perseverança.

Vivemos, todavia, numa época em que a aceleração é a característica central do mundo, a qual profana a nossa sutil condição humana, que demanda sensibilidade e, portanto, olhos e ouvidos atentos: frutos de um coração acolhedor.

Essa velocidade empreendida tem nefastas consequências para o nosso equilíbrio pessoal e social, que se manifestam de várias formas, dentre as quais destaco a falta de conexão, consigo e com os outros.

A pressa, ao contrário de nos possibilitar o encontro, que é o bálsamo da vida, quase sempre, nos distancia dessa oferenda divina.

Frustrados com os resultados obtidos, ao invés de mudarmos a estratégia, optamos, insanamente, não somente por mantê-la, mas aumentá-la!

É-me desalentador ver o discurso em vários documentos educacionais, nacionais e internacionais, em prol da constituição de sujeitos críticos e capazes de transformar a sociedade aliado à práticas que possibilitam o contrário: indivíduos alienados, que ignoram a complexidade da vida e a percebem de modo fragmentado, em partes isoladas.

Em virtude do meu desejo de colaborar por uma Educação que seja, efetivamente, transformadora, que possibilite o desenvolvimento de cada pessoa, nego-me a empreender práticas milenares que, ao sufocarem tristezas, medos, inseguranças, vergonhas e culpas, perpetuam e aprofundam momentos de muito sofrimento individual e coletivo.

As nossas maiores feridas são oriundas da falta de aconchego da alma, motivo pelo qual entendo ser essa a maior, senão a única, lição a ser aprendida por cada um de nós na convivência com os outros.
 
Acredito que as pessoas são capazes de aceitar que a vida as convida, sem cessar, para ampliarem a sua consciência, transmutando sentimentos, requisito indispensável para ser alguém mais hospitaleiro, empático e harmônico.

A todo momento, dedico-me para ser coerente com as minhas crenças, mas reconheço, com humildade, o quanto meus sentimentos e meus agimentos precisam, além daquelas, de muita luz!

Agradeço a todos que, com amorosidade ou não, me ajuda(ra)m a ser uma pessoa melhor.

Aceito os ônus referentes às minhas escolhas: conforta-me, parcialmente, saber que eles são bem menores se eu decidisse me negar a cada dia.

Compreendo e aceito que os outros queiram algo diferente e, às vezes, antagônico do que eu, motivo pelo qual, por vezes, opto por me calar e sair de cena, quando percebo que o outro está apegado às suas ideias, manifestação cristalina de quem não quer mudar.

A vida é uma mestra muito melhor do que eu, tosco aprendiz!


[Pintura de Jean-Marc Côté, intitulada Na escola (At School), que faz parte da coletânea Visões do ano 2000, produzida por vários artistas na virada do século XIX para o século XX]


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