quarta-feira, 22 de março de 2017

TEMPOLÁBIL >> Carla Dias >>


Ele é do tempo das cartas escritas à mão. É do tempo de lá, mas não nasceu há muitas décadas. É jovem para a alma que veste. Seu corpo é casa de um daqueles casos de alma antiga em corpo jovem. Talvez por isso os desejos se esbarrem, nem sempre estejam em sintonia. Nem sempre a alma guia e o corpo aceita, e vice-versa. Há essa rusga entre seu dentro e seu fora. Porém, ele gosta de pensar que, apesar de parecer afronta, é na verdade equilíbrio.

Batia cartão no bar para virar copos, travar conversas langorosas e tentar esquecer suas esquisitices. O irmão passou a vida a alertá-lo que melhor era se aprumar, que ele ainda comeria muito capim sendo do jeito que era.

Peculiar.

Eventualmente, perdeu o interesse pelo bar, e até o uísque já não lhe caía tão bem, fosse de onde fosse. Viciou-se em chá oolong, bolo de aipim e analgésicos. Às vezes, sentia-se solitário, de solidão que nem mesmo as cartas que escrevia à mão ajudavam a estancar.

Sua alma antiga que só o deixou de cama, adoecido de desespero. O corpo melindrava as dores do dentro, transformando saudade sabe Deus do que em...  como disse o médico? Virose. Sem forças para o que fosse, entregou-se. Pensou mesmo que não duraria o fim de semana.

Não aconteceu.

O irmão foi visitá-lo. Sentou-se na outra beirada do sofá e lá ficaram a assistir televisão. Ele não via nada, apenas permitia o tempo passar, distraia-se com o barulho. O irmão se divertia com o programa, alegando que a vida era simples assim, feito um programa ruim de auditório.

Foi para seu quarto e deixou o irmão se divertindo. Até gostava de escutar as gargalhadas dele, elas muito mais atraentes do que o programa. Deitou-se em sua cama, fechou os olhos, tentou fisgar o sono que fugia dele há dias.

Sua alma antiga, em contraste com sua juventude, tornou-o essa pessoa que não cabe aqui ou ali. Não se enquadrar não o assusta, mas não o poupa de se sentir abatido, de vez em quando. Pode parecer, para os observadores, que ele é ser triste, mas é apenas silente. Sente urgências sem cometer melindres.

Mas a história dele pode não importar tanto assim. Há tantos tão peculiares quanto ele. Daria em mundo. Pessoas que se sentem aprisionadas em seus corpos, em convenções, em tradição.

Ele é do tempo que não é o dele, mas nem por isso o que sente e como se enxerga é motivo de indignação. Ele tem alma antiga assoprada em corpo jovem. Aguarda para descobrir como será quando seu corpo for tão antigo quanto sua alma, mesmo sabendo que sempre haverá esse espaço no meio. Partindo-lhe em dois.

Caminha silente pela cidade em ponto de fervura. Passa despercebido na multidão. Pode até não notar, mas ele se transforma, gradativamente. É o que vê, o que sente, o que o toca, tudo isso fazendo seu trabalho de moldá-lo com o tempo.

Provavelmente, será esquecido pela maioria das pessoas que encontrar pela vida. Porém, pelos poucos que dele se lembrarem, ele agradece de antemão.

Imagem: On The Edge © Paul Lee

carladias.com



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4 comentários:

Zoraya disse...

"Sua alma antiga, em contraste com sua juventude, tornou-o essa pessoa que não cabe aqui ou ali. " parece até você, Princesa do Lirismo!

Carla Dias disse...

Zoraya... Talvez seja, Rainha do Suspense. ;)

albir silva disse...

"Mas a história dele pode não importar tanto assim". Tem razão, Carla, seus personagens têm tanto brilho que podem prescindir de enredos.

Carla Dias disse...

Ah, Albir... Que bom que você gosta deles a ponto de enxergá-los dessa forma. Obrigada por isso.