quinta-feira, 16 de março de 2017

EM ALERTA >> Mariana Scherma

1. Se você não tem nada de bom pra falar sobre alguém, melhor nem falar. 2. As pessoas perdem ótimas oportunidades de ficarem com a boca fechada. Essas duas frases meio que me cercaram a vida toda. Meu pai ama essa segunda. Quantas entrevistas a gente não viu juntos e, quando o entrevistado dizia besteira, meu pai já sentenciava que perder uma chance de falar, às vezes é ouro.

Dia desses, uma vizinha me disse umas coisas que me deixaram com medo. Coisas pequenas, mas que tinham a ver com meu apartamento, um processo e a atual síndica. Coisas que me tiraram o sono, mas, que segundo essa vizinha, era bom eu saber pra ir me precavendo, pensando no que eu ia dizer. Como se fosse normal viver em um estado de alerta. Depois de uns dias e depois de ter digerido o que ela disse, cheguei à conclusão de que ela poderia ter passado sem falar isso. Nada aconteceu. A síndica não me disse nada além de oi-tudo-bom. Ou seja, rugas a mais por nada.

Algumas semanas depois, a mesma vizinha voltou com o mesmo tema e aí eu me vi na obrigação de falar que ela não tinha o direito de vir na minha casa, tomar meu café e me deixar com medo de uma coisa que nem poderia acontecer. Vamos esclarecer que essa vizinha tem mais de 80 anos e pessoas mais velhas se acham no direito de dizer o que vem à mente. Pra mim, a vida acontece e, quando os problemas surgem, você vai contornando. Viver esperando o problema é loucura. Falei numa boa, sem levantar a voz, com a razão do meu lado. Desde então a vizinha me deu um gelo.


A impressão que eu tenho é que seu falasse alto ou com grosseria não a incomodaria tanto. Mas falar tranquilamente é que pegou. Quando as pessoas falam alto, elas têm a desculpa de que estavam com a cabeça quente. Eu poderia ter jogado a culpa no estresse do trabalho. Pode falar verdades com a cabeça quente. Mas não se pode dizer verdades com calma e tranquilidade. Ela, por ser idosa, tem o direito de me dizer coisas nada a ver, coisas que ela bem entender e cabe a mim aceitar. Mas, se eu retruco (sem falar alto, com toda a educação herdada dos meus pais), ela se magoa. O fato de a gente não ser uma ilha é bom, mas nem sempre, viu. 


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