Pular para o conteúdo principal

A MULHER NO SOFÁ >> Carla Dias >>


Fecha a porta, atrás de si. O silêncio da casa é acolhedor e a faz respirar fundo. Joga-se, contida, porém eficazmente, aos afazeres do lar, às distrações pessoais, aos devaneios sobre finais preferidos para séries preferidas. Nunca acerta desfecho.

A comida de ontem, sobre a mesa de hoje, parece tão fresca que ela não consegue evitar o pensamento: seria pecado não ter fome? Peca, então, que seu estômago se nega a se render ao desejo do paladar. Quer ficar só, com suas incômodas dores que doem miúdo, mas com constância irritante.

Um banho de no máximo cinco minutos, presteza que desde a infância a faz sentir culpada quando se demora mais que isso, debaixo no chuveiro. Economizar água, antes, porque a conta era quase impossível de se pagar. Hoje, porque a conta continua pesada, mas ainda há a culpa: banhos longos podem acabar com a água do planeta.

Desde sempre, a culpa a conduz. Sabe que isso não é bom, mas o que fazer com o que foi colocado dentro dela, antes mesmo que ela soubesse do que se tratava ou pudesse escolher se queria aquilo? Todos os dias, ela luta um tanto para se desfazer de uma culpa ou outra. Ontem mesmo, conseguiu verbalizar um ressentimento e não se sentiu culpada por isso. Foi uma vitória que ela celebrou, chorando em silêncio no banheiro da empresa. Chorando de alívio raro. Sabe que é um desaprender doloroso e demorado esse. Que pode ser que jamais se livre completamente delas. Mas ainda assim, ainda que entregue à morosidade de sua incapacidade de jogar culpas ao vento, segue tentando.

Cabelos molhados, ralos, um corpo coberto por panos quaisquer e desinteressado por adornos. Sentada à mesa, e desrespeitando o volátil estômago, serve-se de uma taça de vinho barato, enquanto confere extrato bancário e bulas de remédio. Pergunta-se, observada pela sua incapacidade de enfrentar a questão com clareza, por que tudo tem de ser tão só e pesado.

Por que tão silencioso?

Prepara-se para dormir, certa de que não cairá no sonho. Pensará no hoje, olhos fechados. Contará a si algumas mentiras.

A roupa de cama, assim como a roupa que veste, recendem a amaciante concentrado em exagero. Exageros lhe seduzem, não gosta de assumir isso a quem seja, mas é fato. Ela se deleita com alguns deles. Deita-se sob seus cobertores amaciados por amaciante concentrado que recende no recinto. Seu estômago vazio reclama da solidão. Ela se incomoda com a bipolaridade dele.

Antes de fechar os olhos, observa a lâmpada no teto, apagada feito ela. Faz uma oração resumida, para um Deus no qual ela não sabe se acredita ou se o reverencia apenas para preencher agenda existencial e ter assunto para algumas conversas. Declama a oração, que decorou com certa lascívia, enquanto assistia ao filme com aquele ator que sempre faz sua respiração descompassar. Quando pensamentos de opulento descaramento a arrebataram, como se ela fosse dedicada às paixões.

Fecha os olhos e se mantém assim, imóvel. Acredita que isso a ajudará cair no sono. Não é dada aos sonhos, mas aprecia os devaneios que antecedem o sono profundo... que nem sempre é assim tão profundo, porque ela desperta mil vezes em uma noite, em uma inquietude que não sabe decifrar.

Abre os olhos, mais desperta do que estava no horário comercial. Quanto tempo? Pouco.

Então, tudo nela estremece: pensamento, corpo e alma. Desperta, bem na hora em que mundo está profundamente quieto. Levanta-se em ritmo comedido, tentando se enganar com a ideia de que ainda sente sono, vontade de ficar na cama. Ignorando a energia que lhe toma, em horário inadequado.

Dá umas voltas pela casa, ajeitando objetos como se eles tivessem mudado de lugar, naquelas poucas horas em que ela dormia.

Senta-se no sofá da sala. Espalha-se sobre ele. Duas horas e cinco minutos. Falta pouco, apenas duas vezes o que já passou do hoje. Então, poderá recomeçar, espaço e tempo conhecidos, trabalho, casa, extrato bancário, bulas de remédio.

Durante a espera pelo conhecido, identificável, preenchedor de rotina, o coração dela se rebela ao reverberar perguntas indecorosas. Ela faz de conta que não escuta o que tal diz, enquanto se delicia com essas aventuras interiores. Pecados secretos e prazeres teóricos.

Pode parecer que não, mas entre amaciante concentrado, culpas, extrato bancário e bulas de remédio, ela cultiva a esperança de dia desses escutar o que seu coração diz, assim, assumidamente. E, quem sabe, então ela seja capaz de realizar os desejos dele.


Imagem: Woman on a Sofa © Kees Van Dongen

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Gosto desses enredos que leva a gente para algum lugar e, de repente, dá uma guinada à esquerda

Delícia!

Abraços,
Enio
Carla Dias disse…
Mais uma vez, obrigada pela leitura. Fico mesmo feliz que você acompanhe meus escritos. Abraço, Enio!
Zoraya Cesar disse…
Carla Dias, seu lirismo é um caso de amor a ser estudado!
Carla Dias disse…
Zoraya, já nem sei mais como agradecê-la... :)
Beijos!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …