quarta-feira, 25 de julho de 2018

NADA A OFERECER >> Carla Dias >>


Tenho nada a oferecer. Não insista. Tenho nem como colaborar. Não me cobre. Sou um nada nesse mundo de tudos maximizados. Não me importa se lhe importa quem não me tornei. Não me interessa se quem eu sou lhe desaponta por não ser o quem você imaginou que eu seria.

Nem pense que desejo lhe ofender sendo. Trata-se apenas de explanação: quem eu sou não cabe nesse rótulo, nessa área dedicada a moldar à forma e semelhança do que o seu imaginário criou. Não vou dizer as palavras que espera que eu diga, ao menos não na ordem que dê na consequência que você espera.

Agora que já sabe que não vim ao mundo para atender aos seus decorosos critérios, preciso dizer o seguinte: o mesmo serve para você. Como seria se todas as suas certezas desaguassem em revolta dúvida? E se o que você tem como garantido naufragasse no inesperado a operar pequenas tragédias cotidianas? É uma questão de tempo e destempero do próprio. Vai acontecer, por mais que você se negue a aceitar e siga com a determinação de um maestro que não conhece música, apenas decorou a coreografia da batuta.

Há beleza no render-se ao desencadear das possibilidades. Catarse é caminho árduo para se conectar a si mesmo, mas depois que acontece, não tem volta. Saber-se é a melhor maneira de aprender o outro. A forma mais eficaz de se aprender com ele. A ciência revigora crenças que se mostram mais eficazes quando descartadas da tabela dos milagres. Há muito o que – e quem – dizemos saber sem termos ideia do que – ou quem – se trata. Só porque seria demodê ficar em silêncio e declarar falta de conhecimento.

Não tenho problemas em declarar a minha falta de conhecimento. Além do mais, acredito que seja assim que nos tornamos estudantes da vida: não sei, mas estou curioso para saber.

Então, tenho nada a oferecer, caso meu ser tenha de ser reduzido para caber. Adapto-me somente ao que não tenha como meta amortizar meu desejo pela vida a ser vivida, escravizando-me com seus preceitos, manuais de comportamento, ideias submissas, manipulações abençoadas. Adapto-me em concordância com o respeito que desejo receber em contrapartida ao que ofereço. E nem pense que esta seja tarefa de quem não se importa com o que acontece ao redor. É tarefa de quem se importa, e, por isso mesmo, escolhe não vestir personagem para lidar com o mundo.

Que fique claro que existo, mas não tenho a intenção de domesticar meus sonhos.

Imagem: Cartwheels © Eric Robertson

carladias.com



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4 comentários:

Zoraya Cesar disse...

Sou um nada nesse mundo de tudos maximizados.
Há beleza no render-se ao desencadear das possibilidades.
Saber-se é a melhor maneira de aprender o outro.
Que fique claro que existo, mas não tenho a intenção de domesticar meus sonhos

Carla Dias, princesa das palavras, rainha do lirismo, e suas frases repletas de significâncias. Mais um texto para ser degustado com uma xícara de chá ao som da chuva batendo na janela

Anônimo disse...

Genial. Cada vez se aprofundando mais.

Abraços,
Enio

Unknown disse...

Amei s2

Carla Dias disse...

Zoraya, só posso dizer <3.
Beijos e obrigada!

Enio, muito obrigada!

Anônimo... Obrigada!