sexta-feira, 13 de julho de 2018

RISCOS E RECOMPENSAS >> Zoraya Cesar

O clube era pequeno, escondido por uma porta sem letreiros em uma rua de pouco movimento. Só algumas dezenas de pessoas sabiam onde ficava e seus frequentadores não faziam parte da sociedade comum.   

Piso e mobiliário de madeira, estofamento de couro, luminárias vintage. Tudo caro e de boa qualidade, mas, ainda assim, o ambiente era sóbrio e discreto. Um sofá ocupava todo um lado da parede, deixando espaço, no salão, para a circulação do único garçom e para um ou outro raro casal que se arriscasse a um cheek to cheek ao som que saía dos alto-falantes embutidos. A música era alta o suficiente para evitar que se ouvisse a conversa alheia, mas não tanto que impedisse o colóquio entre os ocupantes de uma mesma mesa. 

Os móveis estavam dispostos de modo a não comportar mais que duas pessoas em cada mesa, seu diâmetro pequeno sugerindo que ali não era lugar para lautas refeições ou pratos elaborados; no máximo, um drinque, uma taça de vinho, uma flûte de champagne e, apenas para matar a fome ou ocupar a boca nos momentos de silêncio, um pequeno prato de massas.

A mulher parecia acuada entre os dois homens,
indefesa e acabrunhada.
As aparências enganam, dizem.
A exceção a essa disposição era a última mesa, onde cabiam três pessoas. Essa mesa, especificamente, era a única ocupada naquela noite. Se o clube acabara de abrir e os outros clientes ainda não haviam chegado, ou se estava prestes a fechar, e aqueles eram os últimos a ficar, não saberia dizer. Mas o fato é que apenas três pessoas ali estavam, ocupadas em seus afazeres e pensamentos.

Perto de um dos homens, uma garrafa de vinho já pela metade e uma taça, apenas para ele. Careca, barrigudo, seu bigode farto e escuro fazia-o assemelhar-se, longinquamente, a uma versão piorada do detetive belga Hercule Poirot. Uma de suas mãos estava sobre a mesa; a outra, aproximava-se, lentamente, do braço da mulher sentada ao seu lado. 

O outro homem falava ao celular, uma das mãos encobrindo a boca, ou para que seu ouvinte o escutasse melhor, ou para abafar a voz, ou, quem sabe, para evitar uma leitura labial, caso estivesse sendo filmado (o que era uma tolice. Ele não sabia, mas, naquele clube, pessoas entravam e saíam sem que nada fosse registrado ou que, depois, pudesse redundar em provas ou testemunhos). Os dois homens se olhavam, num entendimento tácito de que estavam ali por um mesmo interesse. Usavam ternos e gravatas, mas não eram elegantes. Pareciam subalternos, não chefes. O que faziam, então, ali, naquele clube privé? Quem os teria deixado entrar?

Talvez a moça sentada entre eles tivesse alguma explicação. Pois fora ela quem os convencera a entrar ali.

Muito branca, quase leitosa, os braços bem torneados e a curva dos seios à mostra no vestido preto de alças finas e decotado. Bonita. Sensual. Trazia o semblante levemente fechado, no rosto semi-escondido pela grossa franja de cabelos negros. 

Estava ali como profissional da noite. E a noite de cão já começara com aqueles dois, uma noite que ainda não terminara e estava, possivelmente, longe de acabar. 

Ela sabia que o sujeito ao telefone estava combinando entregá-la ao prazer de outro homem, como brinde. Era importante que fossem vistos em companhia de uma escort girl como ela, de luxo, um sinal de status. Oferecê-la e tratá-la como objeto fazia parte do jogo, pensavam eles.

Ela bem sabia o que esperar. Primeiro, teria que aguentar as carícias incômodas e repulsivas daqueles homens até que o convidado chegasse. Teria, então, provavelmente, de aceitar seus beijos e amassos (e, talvez, alguns tapas, conhecia os tipos, gostavam de bater). Tudo bem. O importante era lhes distrair a atenção, não deixar que passassem as mãos frenéticas por entre as pernas dela. O importante mesmo era esperar o convidado chegar, ver o garçom trancar a porta e sair, deixando os quatro a sós. 

A mulher continuava a pensar, tentando abstrair da mão do careca encostando em seu braço e da perna do outro homem roçando na sua. Absorta, calculava. Teria que aguentar tudo calada, representando seu papel, até ter certeza de que o convidado trazia, consigo, o pen drive, ou o cartão de memória contendo as provas que seu empregador precisava, e que garantiria a ela muito dinheiro. Por mais que trabalhasse por prazer, ela gostava de dinheiro. 

Se desconfiassem de algo, iriam matá-la. Já haviam feito isso, matar uma prostituta (ao menos eles
A pequena e valente Sig Sauer P-938.
Perfeita para esconder.
Perfeita para mulheres
que saibam matar. 
pensavam que era essa a profissão dela) a mais não seria problema. Se tudo corresse bem, no entanto, antes do final da noite seriam eles os mortos, e ninguém jamais descobriria os corpos ou a autoria do crime. 

Sem riscos, concluiu, não há recompensas. E, ao ver a porta abrir, apertou mais forte as coxas, confortando-se com a pressão da Sig Sauer P938 escondida entre elas.




Pintura: Risc and Reward, Ben Aronson
Arma: Pinterest Edward New 


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8 comentários:

Carla Dias disse...

Zoraya, Zoraya... Suas histórias são muito bacanas!
Beijo.

Marcio disse...

Não posso evitar o óbvio elogio de suas óbvias qualidades descritivas.
De um jeito ou de outro, esse texto vai continuar: ou você publica a parte dois, ou cada um daqueles que tiverem o privilégio de lê-lo vai criar seu próprio final.
Parabéns.

Unknown disse...

Isso é que é gostar de viver a vida perigosamente... Sem comentários. rsrsr

Ana Luzia disse...

Divino! Vc sempre surpreende, até senti uma pressao aqui tb! Quem será que vem lá?

Anônimo disse...

Tomara q seja o Felipe Espada quem ela espera!

sergio geia disse...

Ah, Zoraya, estou aqui no centro cultural esperando a oficina começar e lendo o seu conto. Que delícia, você é hábil com seus personagens, e como o Márcio, ressalto suas qualidades descritivas. Quando sai um livro de contos, hein? Seria um deleite. Parabéns! Você é craque. Bjs

José Antonio Advogado disse...

Zô, não faz continuação, não. O texto está perfeito assim. A imaginação de cada um cuida de preencher as conclusões. Às vezes, insinuar é melhor que expor... bjs

Zoraya Cesar disse...

Carla Dias - obrigada demais, Princesa das Palavras!

Márcio - gentil como sempre!. Não pretendia publicar uma segunda parte, deixei mesmo para a imaginação de cada um, mas, quem sabe?

Unknown (Erica) - hahah, vc só gosta mesmo das histórias românticas e fofinhas. Fico devendo, para breve.

Ana Luzia - seu entusiasmo me anima!

Anônimo - não, definitivamente não é o Felipe Espada. Ela espera um bandido, não o mocinho!

Sergio Geia - ownnn, obrigada! Tô preparando! Se Deus quiser, sai no final do ano!

José Antonio Advogad0 (Clarisse) - kkk, valeu! O pessoal fica me espicaçando, acaba q me convence kkkk. Depois me diz como vc achou q termina!

Obrigada a todos pela leitura e comentários!