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VIDA E MORTE DE D. VIDINHA >> Zoraya Cesar

Vidrianácia era seu nome. E muito lhe agradava ter sido batizada a partir do nome do pai Vidriano e da mãe Engrácia. No interior, interiorzão mesmo, de onde viera, isso era motivo de orgulho e honra. 

No entanto, não teve jeito. Por ser muito miúda e franzina, à medida que a idade foi avançando, com seus tentáculos cobiçosos e insaciáveis, “D. Vidrianácia” parecia pomposo demais, e, aos poucos, passaram a chamá-la de D. Vidinha. Por mais que ela fizesse cara feia, o apelido fixou-se de maneira irrecorrível. 

Disse ‘cara feia’? Disse e repito. D. Vidinha, forçoso dizer, não fora exatamente abençoada por Hator ou nenhuma outra deusa da beleza – antes, parecia ter sido amaldiçoada por todas elas. E se, como dizem, a beleza está nos olhos de quem vê, ninguém viu em D. Vidinha que não uma carola de maus bofes e amarga feito carqueja - um arbusto que, na época da seca, desfolha totalmente, aparentando estar morto, e somente no período das chuvas volta a florescer. D. Vidinha era um pé de carqueja plantado em terra árida.  

Jamais lançara mão dos modernos artifícios de embelezamento disponíveis hoje para fazer um arremedo que fosse em sua aparência. Vivia no antigamente, enraizada nas crenças de uma família tradicional para a qual mulher vaidosa era mulher perdida. E Deus livrasse D. Vidinha de ser mulher perdida! Manteve-se fiel à incolumidade de suas partes vulgares, como ela chamava. (A ida ao ginecologista era precedida de calmantes; na volta, passava o dia em jejum penitencial). 

Recusou-se a casar. Temia que um marido dilapidasse sua herança. Vai que o safado só se aproximasse dela por interesse? E ter homem fora do casamento, nem pensar. Envelheceu solteirona e empedernida na proteção às suas “partes vulgares”. 

Até que, um dia, o ginecologista recomendou o uso do chuveirinho higiênico. Ela chamou o bombeiro, mandou instalar. E usou. 

Seu corpo intocado e nunca vasculhado demorou a perceber que eram cócegas o que sentia, uma cosquinha que vinha lá do fundo e... D. Vidinha largou o chuveirinho, assustada, molhando o chão do banheiro. Levantou-se, um pouco atordoada e bastante sobressaltada. Nunca sentira nada parecido. Estaria seu corpo com defeito? Limpou e secou tudo. Foi para a sala, com uma leve taquicardia.

Quando seus batimentos voltaram ao normal, ligou para o ginecologista, relatando que sentira-se mal ao usar o tal chuveirinho. Do outro lado da linha, o médico tossiu discretamente e, contido, deu o recado: “A senhora faça o favor de seguir o prescrito. É para sua saúde. E não se fala mais nisso.”

Sempre mandona, refratária a conselhos alheios, dessa vez D. Vidinha não refutou. Acatou as ordens médicas com docilidade e diligência. Voltou ao chuveirinho. 

Usou o jato com mais força, canhestramente. Aliviada, sentiu não cócegas, mas incômodo. Melhor assim, não precisava temer as sensações estranhas que prometiam acometer seu corpo durante o uso daquela coisa dos infernos. 

Ah, mas o germe do prazer despertara de seu sono profundo, e preparava-se para tomar seu lugar de direito, punindo, de passagem, quem quase o matara de inanição. Sutilmente, foi se espalhando por D. Vidinha, como uma erva trepadeira ansiosa por vingar.

No dia seguinte, voltou a usar o chuveirinho. “Ordens médicas”. Regulou-o para não sentir incômodo. As cócegas vieram, e dessa vez ela deixou que se aproximassem um pouco mais da superfície de seu corpo. Ela arfou e riu ao mesmo tempo, remexendo-se no vaso, espadanando água pelo chão. 

E assim, foi seguindo. Observava a cosquinha começar a aparecer, vir subindo, subindo e, sempre que estava quase aflorando algo que D. Vidinha não sabia bem explicar o que era, mas que lhe dava medo, largava o chuveirinho. 

Da primeira vez que ficou um pouco mais de tempo, seu corpo tremeu, em espasmos que sacudiram, violentamente, suas banhas, como bandeiras ao vento. O coração, quase saindo pela boca, empurrou a dentadura para fora.

Ressabiada, decidiu que não iria mais usar o maldito apetrecho. 

Como sabemos, porém, o germe do prazer despertara, faminto, curioso, vingativo. A resolução de D. Vitinha não durou nem um dia, e lá estava ela, forçando-se a acreditar que era uma questão de higiene e ordens médicas. Remexia-se, extasiada e febril, ora se perguntando se não era pecado, ora por que o médico não lhe tinha receitado aquilo antes. 

Forçou-se, então, a ir até o fim, saber o que a esperava quando as cócegas subissem inteiramente à tona, explodindo em borbulhas de Moët & Chandon. 

O germe do prazer, que, durante aquele tempo, exercitara-se, testando seus limites, tateando aqui e ali, sentiu que chegara a hora. Enquanto D. Vidinha aumentava o jato, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve, o prazer veio, rugindo, selvagem, incontrolável  como as águas de uma represa há muito contida. 

D. Vidinha não soube o que fazer. Seu próprio corpo se negava a parar o jato, mas seu coração batia forte demais. Tinha de acabar com aquilo, mas não teve como. Num ápice de agonia e êxtase, sentiu, pela primeira e última vez, a glória do sangue correndo nas veias, a chamada 'pequena morte' vindo em forma de morte verdadeira. O coração não aguentou, demonstrando que "morrer de prazer" é mais que uma expressão meramente ilustrativa. 

Quem adivinharia o grau de letalidade
de um mero chuveirinho higiênico?
Foi encontrada pela faxineira, sentada ao vaso sanitário, com um semblante feliz como nunca, jamais, alguém vira durante todas as mais de 80 décadas de sua existência. 

Mas, dirão vocês, logo agora que ela descobrira o prazer? É, respondo, logo agora. A vida é assim. Aproveitem enquanto é tempo. E, vejam, esse é um final feliz! D. Vidinha passou suas últimas semanas sorrindo mais do que em toda sua longa mas minúscula vida; morreu em estado de gozo absoluto; e ainda deixou dinheiro para o inocente bombeiro que instalou  o chuveirinho e está, até hoje, sem saber o que fez para merecer tamanha benesse.


Esse conto foi inspirado a partir da história Desintimidando-se, elaborada pela minha colega  Renata Del Vecchio Gessullo, ótima contista, durante um exercício feito na oficina de escrita criativa Terapia da Palavra. Valeu, Renata!

Informações sobre a carqueja: http://elielgoi.blogspot.com/2012/10/vegetacao.html

Foto: shower 150273 ID 955169 in Pixabay

Comentários

Anônimo disse…
audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve foi uma tirada simplesmente genial!
Claudia D disse…
Ao menos, morreu feliz!
Clarisse Amador disse…
Adorei, amiga, nunca é tarde demais rsrsrs
Anônimo disse…
Só os trekmaníacos sacaram d. Vidinha indo aonde nenhum homem jamis esteve hehe
Marcio disse…
Esse texto vai aumentar as vendas daqueles aparelhos de lavagem com água pressurizada da Karcher, que infestam os canais de televendas na TV paga.
Zoraya Cesar disse…
Anônimo 1 - Obrigada! Só para iniciados, kkk

Claudia D - pois é. Pouca gente tem essa oportunidade

Clarisse Amador - com certeza!!!

Anônimo 2 - Sim. Não resisti.

Márcio - se isso acontecer, vou querer participação nas vendas.
Unknown disse…
"quando as cócegas subissem inteiramente à tona, explodindo em borbulhas de Moët & Chandon. " Adorei a metáfora e amei o texto!!!

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