quinta-feira, 5 de julho de 2018

VÔ GERÂNIO>>Analu Faria

Gê quase lambeu a vitrine. Só de olhar podia sentir o cheio de borracha queimada num dia quente, num meio de estrada qualquer. Deserta. Acima dele, só Deus e a roda da frente. Pedro deu um tapa no ombro do primo. 

"Não dá pra empinar uma moto dessas não, ô animal!". O que é que o primo sabia? Só havia pegado  DT200, XR200, CBX200... E ainda que na real não desse mesmo para empinar uma Fat Boy, nos sonhos de Gê ela seria leve como uma daquelas lambretinhas nacionais fajutas e se encaixaria direitinho nas mãos e nas pernas dele, era só fazer um pouquinho de força com o abdomên e pá... empinadinha. Errado era o Pedro com aquele mania de travar as coisas na mente.

- Tu pensa pequeno demais, Pedrão!

Chegou em casa ainda com a Harley nos olhos. Visita no sofá, como sempre: hoje eram a tia, um outro primo, o vizinho. A mãe contava pela milésima vez a história de vô Gerânio, que tinha nome de flor e era mesmo conhecido por ser educado e culto como uma rosa.

_ Gê tem o mesmo nome do avô, né não, Gezinho?

_ Rosa e gerânio são flores diferentes, mãe! Que saco!

Trancou-se no quarto. Harley era nome de gente, não era? Ou será que era Davidson? Ou os dois eram nome de uma pessoa só? Será que os filhos desse Harley Davidson tinham o mesmo nome do pai?E os netos, do avô? ...  Não sabia. Mas tinha certeza disto: gerânio era uma flor, pequena e delicada.


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