quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

OLHA QUE OLHAR ESTRANHO TEM O ESTRANHO QUE ATRAVESSA A RUA DO MUNDO DA LUA >> Carla Dias >>


Olha que olhar estranho tem o estranho que atravessa a rua do mundo da lua. Ele que sabe de cor o verso e o esconde do mundo por medo de o tempo lhe roubar a clareza do sentimento.  Que estranho esse estranho de olhar estranho atravessando a rua dos sentidos e dos ressentidos. Suas largas passadas tão lentas, maratona em slow motion.

O infinito lhe angustia de um jeito, que só lhe resta apertar o passo para alcançar quem lhe queira, ainda que estranho de olhar estranho e ainda mais estranho destino. Quem me quer? ele berrou no meio da rua do mundo da lua, em tom esganiçado, em dia de desespero descarrilado. O silêncio ecoou fascinado por ele, o estranho de olhar estranho, de andar estranho, de mãos enveredando pelos cabelos do vento, pensamento tentando catar explicação para essa solidão de homem de olhar estranho, que almeja afeto que lhe ofereça beijo.

Mas veja que o olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua, busca palavra no muro que lhe salve da solidão, que ele nunca foi bom em lidar com ecos, ou cômodos vazios, mesa posta para um. Nunca foi bom nessa matemática da solidão, que permite que ele fale sobre si somente a si mesmo, que faça visitas recorrentes apenas às próprias lembranças, que são muito leves de tanta falta de vida experimentada, feito o figo que, ainda outro dia, viu a moça morder, lá na feira da rua da lua, onde passou às largas passadas, um estranho em slow motion em meio a rotina de outros.

O estranho deu de conversar com si mesmo, por falta do escambo de palavras. Quem passa, por mais que tente lhe recusar atenção, acaba dizendo: olha que olhar estranho tem o estranho que atravessa a rua do mundo da lua, esbarrando na vida da gente! Não sabe o quem que esse olhar nem tem par, que o estranho perdeu uma das vistas em um horizonte proibido, quando aprendeu a enxergar o inteiro nas metades. E como não é surdo, anima-se todo o estranho quando escuta o quem lhe notar a presença, mas a conversa nunca progride.

O olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua se distrai, e acaba por se atracar ao olhar forasteiro. O olhar do estranho, acostumado ao desvio - que nunca o queriam contemplando com tal estranheza, tampouco o estranho desejava que seu olhar causasse indisposição emocional em quem fosse -, crava-se no olhar outro de um jeito doce, que não há critério, apego ao equivocadamente perfeito que provoque no olhar outro a vontade de ignorá-lo. O estranho, por dentro, naquele silêncio robusto que só aceitara, até então, ser quebrado por pensamentos sobre si mesmo, enche-se do que jamais sentira antes. Visita-lhe o peito o aperto, a cabeça, a zonzeira. As mãos suam mares e as pernas bambeiam como se ele estivesse caminhando em corda fina, o abismo à espera de sua queda, e ainda assim, ele se sentisse corajoso em sua jornada.

Outros passam por eles e não se contêm: olha que olhares estranhos têm esses estranhos que estão feito gente plantada na rua do mundo da lua. O olhar do estranho não dessintoniza do olhar outro. Nesse encontro, o estranho reconhece no olhar outro a metade que lhe falta. Agora tem as duas vistas, e ainda enxerga inteiro em metades, mas também horizontes.

Que o olhar outro chegou barulhento, arrancando do estranho o estranhamento, comendo-lhe o medo, devorando-lhe a solidão. Enxergando no olhar do estranho a sua outra vista, beijando-lhe a alma, fazendo-se presente, fazendo com que o olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua se tornasse inteiro.

Imagem: sxc.hu

carladias.com

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