Pular para o conteúdo principal

VINHO >> Leonardo Marona

"remorso"

às vezes
um pingo
de vinho
esquecido
na mesa
domingo
significa
a tristeza
mais que o suicídio
daquele ex
antigo amigo
proxeneta.


“desculpas de um louco”

o delírio
é quando
dão lira
ao nosso
eu lírico;
ou vinho.


“Solidão FM”

às três e vinte da madrugada
vi que as pontas dos meus dedos arroxeavam
e logo em seguida, derrubei minha garrafa.
no rádio, uma voz aveludada saudava uma ouvinte:
“bom dia, Gislaine... você está ao vivo conosco. em que posso lhe ser útil?”
depois do chiado, vacila uma voz fina e triste de mulher mal-amada, eclipsando:
“boa noite, seu Vadão...”
“sim, Gislaine, boa noite...”
“é Gisleine, seu Vadão...”
“tudo bem, Gisleine, do que você precisa?” – disse o veludo, já meio camurça.
“olha, eu queria dizer que eu adoro o programa e que escuto o senhor todo os dias.”
“muito bem, Gisleine... grato pelo carinho. mas diga o que você quer.”
“eu preciso de um marido, seu Vadão. Um que tenha entre 35 e 55 anos...
pode ser calvo, pode ser barrigudinho, não tem problema, que beba!
mas não pode ter barba – que espeta, a menos que seja comprida, macia
– que eu adoro limpar barba suja de sopa –
de preferência que fale pouco
e seja simpático a troco de nada, mas não um boca-aberta,
e que saiba limpar a mesa e não durma de meias.”
a rádio saiu de sintonia
enquanto eu enxugava o vinho
no carpete com a língua,
quando pensei em telefonar para o Vadão
e me candidatar como marido de Gislaine
– ou Gisleine –
mas tive que desistir da idéia
porque não estava dentro da faixa etária.


http://www.omarona.blogspot.com/

Comentários

Léo, deu vontade de conhecer a Gisleine. :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …