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"ESTRUPÍCIOS, FILHOTES DE CRUZ–CREDO: MANGALÔ TRÊS VEZES!" [Sandra Paes]

E de repente solto essa ao telefone conversando com uma amiga.

Me referia ao cansaço de ter que conversar e explicar isso e aquilo aos “atendimentos de serviço telefônico...” Vixe!

Sim, essa semana, pifou tudo aqui em casa. De repente, nada de internet. Vou pegar o telefone pra saber o que é, e nada de telefone também. Eu, hein?

Outro dia, enquanto fazia algo pela casa, pus um CD pra tocar... De repente, parou. Fui lá olhar e estava escrito no visor do aparelho de som: "NO CD"! Mudei pra outro e deu a mesma coisa. O aparelho não podia tocar o que não havia dentro. Desliguei tudo e deixei passar. Estava muito ocupada pra “escarafunchar” o que houve — o que normalmente faço.

Agora, em plena segunda-feira, ficar sem comunicação eletrônica geral, estava demais pra minha cabeça. Ai é que entram os estrupícios todos. Parece dia de mercúrio retrógrado e tudo mais andando pra trás.

Fora de brincadeira: eu falei com uns cinco carinhas destes que atendem o telefone e lhe pedem um minutinho, que voltam já, e nada. Sabia claramente que se não passasse pela via crucis de explicar tintim por tintim, nada seria feito. Eles são todos treinados pra fazer o mesmo percurso. E você tem que fazer o que eles pedem pra no final ouvir a frase fatal: “Vou precisar mandar um técnico aí pessoalmente e preciso falar com o supervisor pra isso. Volto já, já.” E volta coisa nenhuma e a ligação cai e você começa tudo de novo.

Pois bem, depois de tentar um dia inteiro, consegui afinal — já quase perdendo a voz, ao anoitecer —, que um candidato a carreira de santo conseguisse marcar a visita do tal técnico: “— Pronto, dia 26 você tem um horário agendado." Contei nos dedos e teria que esperar 20 dias pra ter o serviço de comunicação restabelecido. Respira-se fundo, e emana-se a pergunta que não quer calar: “Mas tem que ser 20 dias depois?” E ele vai responder fatalmente: “Foi o que consegui, mas depois a gente vê se pode ser pra antes. Melhor pegar assim. Eu ligo pra confirmar.” E lá vou eu ter que explicar que o telefone de casa não está funcionando também e que vão ter que chamar noutro número, etc., e ponho o moço pra repetir tudo pra ficar bem claro que entendeu direitinho.

Ufa! É ou não é sinal pra se bater na madeira, tipo reflexo automático mesmo?

Dois dias depois, ligam cedo para o celular e eu mergulho pra atender ao telefone, pra não perder a ligação, já prevendo que poderia ser da companhia de atendimentos, e bingo! Conseguiram! Marcam um técnico pra amanhã! Oba! Qualquer hora está ótimo! Desligo quase aliviada porque me lembro que tenho que avisar na portaria pra mandarem o técnico subir sem me avisar por telefone por que o dito cujo não está funcionando. Mas, antes, tenho que fazer outra via crucis: saber quem vai ser o porteiro de plantão na hora da chegada do tal técnico.

Sim, porque mercúrio, quando resolve atacar, pega todo e qualquer tipo de atendentes, dos porteiros aos balconistas, passando pelos serviços de atendimento ao consumidor, aos caixas de supermercado e todo e qualquer “soldado” de plantão em qualquer porta. Até as eletrônicas. Precisa de senha ou de autorização, barghhhhh, vai ter que esperar.

Com isso, silêncio por cinco dias. Vamos aproveitar pra meditar, ler mais e refazer os hábitos e ver de perto, o quanto me tornei dependente ou prisioneira dos devices de comunicação.

Hoje em dia, sem correio eletrônico e sem telefone, não se comunica com ninguém. Me bateu uma saudade das cartas escritas à caneta tinteiro... E pensar que as relações ficaram todas em ritmo de Bill Gates, como digo: se não responder à instant message, já tá classificado disso e daquilo. E se não atender ao celular? Já foi pra cruz e não sabe. Agora, se não responder aos e-mails, aos recados da secretaria eletrônica, às instant messages, no mínimo vai perder o crédito.

Agora ficou tudo em ritmo-velocidade-banda-larga. Ou é assim ou você está lento e já tem a jugular ameaçada. Já notou o quanto nos cobram se não respondemos ao chamado celular ou não respondemos a um e-mail? E aos recados deixados na secretária eletrônica então?! Parece que a gente tem que ter um horário reservado nesse escasso dia de 24 horas só pra responder, e de preferência rapidinho, às demandas da moderna tecnologia. Isso sem falar que fatalmente pode ouvir do outro lado: “— Não era nada de importante, não, eu chamei ontem e você não ligou de volta e eu queria falar que..." Blablablá!! Regra geral, tudo totalmente dispensável.

Cultivar afetos, amizades, contatos profissionais ou outras coisas, passou a ser algo que requer até um resumée. Sim, porque as pessoas passaram a cobrar frequencia de falas, de encontros, de saídas e tal. Eu acho tudo muito esquisito, porque o padrão de avaliação passa também pela velocidade das mensagens digitais, dos chats, etc.

Não faz tanto tempo assim que os amores sabiam esperar. Porque lá dentro havia embutido o tempo que o carteiro levaria — a cavalo — pra entregar sua carta, o tempo para se degustar o chá, o tempo para se esperar a entrega das flores, o tempo de ouvir as canções românticas pela madrugada. Ainda no tempo de minha avó, quando a comunicação era mais lenta porque as distancias eram muito longas, a espera era uma arte. A gente podia restar no clima do suspiro por 20 dias. Agora, esperar um técnico por 20 dias é sinal de desespero mesmo. Sangue ferve, pressão sobe, vísceras ardem. Resposta do amado para qualquer programa tem que ser instantânea. Pra isso existe text message. E olhe lá! Se não atender ou cair na caixa postal, pronto: desastre total!

Não há nervos de aço pra isso. Eu então, que não os tenho, é um horror. Pois bem... Relaxa, menina, falo pra mim mesma. O que não tem remédio, remediado está. Outra das frases que havia aposentado. Afinal, veio o técnico, mexe daqui e dali, me olha com cara de jacaré em rio sem presas e diz: “— Vou ali buscar uma coisa e volto já.”

Eu, que já dera o comando pra relaxar, deixei passar, claro. Levou um tempão e voltou com umas ferramentas. Na hora pensei logo — por que ele não subiu com as ferramentas antes? Provavelmente pensou que eu era uma daquelas pessoas que tiram o plugue da tomada e não sabem pôr de volta, e tal.

Abanei a cabeça pra sacudir o pensamento horroroso e o deixei trabalhar. A coisa parecia feia. Vi-o tirando tomadas da parede, puxando cabos daqui e de acolá, e pedi ajuda Divina, literalmente. Depois de algum tempo, veio pedir que eu testasse tudo. Pronto, tudo funcionando! E me explicou que teve que trocar o cabo de sinais, alguma coisa aconteceu que não passava nada. E me lembrei do dia em que o som informava que não tinha sinal de CD.

Ha umas correntes que dizem que os fantasmas habitam as tomadas nas paredes e de vez em quando aprontam coisas. Será? Minha felicidade durou um dia. Pois na manhã seguinte nada funcionava de novo. Ligo outra vez pra reclamar já afirmando que o técnico tinha vindo e feito um bom trabalho e me informaram: "— Não estamos conseguindo saber o que está acontecendo, mas parece que no seu edificio caíram varios sinais." A frase foi literalmente essa. Me senti num daqueles castelos de ponte levadiça cercado de um fosso cheio de jacarés, todos famintos, e a ponte enguiça e não sobe nem desce. Fazer o quê? Esperar...

E aí vou ligar a televisão e percebo que ela também saiu do ar. Hahaha! Sem contato com o mundo externo geral! Se Deus está querendo mandar algum recado, tá muito bem mandado: silêncio! Fica na sua! Não podia ser mais evidente.

É claro que se presta atenção a isso: no mundo de hoje, sem eletricidade e seus derivados, a vida se paralisa. Mentira! Talvez seja a hora em que ela começa. Cinco dias de jejum de tudo, então vamos mudar também a dieta alimentar. E que tal fazer novos hábitos, até os mentais? Que beleza! Dias sem saber o que se passa na TV, sem ler um e-mail, sem falar com ninguém ao telefone. Entrei na sonífera ilha.

Depois, quando pelo menos a internet e o telefone voltaram a funcionar, fui logo procurar registrar algo no blog que não mexia há meses. E aí, surpresa! O provedor também está fora do ar. Tenho mesmo que bater na madeira e repetir: cruz-credo-pé-de-pato-mangalô- três-vezes!

Já não é mais perda de sinal — é muita coisa junta. Tem algo mais do que estranho por aí. Até porque descobri que o que mais gosto de fazer é escrever e conversar. Será que sou descendente de Jó? Nahn! Não vou vibrar esse pensamento, não. Há outras formas de viver a vida com mais calma e paciência, e é isso que vou procurar descobrir. Até mais ver!

Comentários

Juliêta Barbosa disse…
“Me bateu uma saudade das cartas escritas à caneta tinteiro...”

Eu também sofro dessa saudade.
Sou da geração que provou o gostinho de ficar horas a fio no portão, muitas vezes ao sol a pino, só para receber do carteiro a missiva tão esperada.
Agora, os carteiros perderam a serventia como emissários de cartas de amor, foram substituídos por máquinas, pelo avanço tecnológico, pelo tal progresso. Progresso de que, diga lá, Sandra? A linguagem ficou mais pobre, você virou vc, não virou naum, também virou tb e as cartas agora, chamam-se e-mails. E o amor também mudou de cara e de endereço! Tem as feições do anonimato e o seu endereço agora é eletrônico: beija-flor@dizescomquemficas.com.
É, pelo visto estamos todos fora do ar!
Simone disse…
Minha querida! Ri sim, muito, mas por dentro me deu um saudosismo enorme. O romantismo bateu forte no meu coração. Incrível, que não abri o computado em casa essa semana e fiquei pensando em mandar cartas (digitadas para que possam entender meus códigos, escrevendo-as ao final do expediente mesmo e vc me vem com mais um adorável e real crônica. Te quero muito bem viu. Bjkas. Sissi
Anônimo disse…
Sandra, nao tem como nao concordar com vce, querida.
ficamos capengas sem toda essa parafernalia eletronica que nos cerca hje e sentimos sim, uma saudade imensa do tempo em que tudo tinha mais emocao, mais sabor, mais gosto de humano.
Como sempre, adorei te ler.
PS - tudo funcionando direitinho ai em tua casa?
Beijos, Haydee
Que sufoco, Sandra! Devo confessar que foi divertido acompanhar a via crucis. :)
Carla Dias disse…
Olha que tem dia que parece que tudo para pra gente analisar a dependência... rs. Ah, Sandra,confesso que concordo com o Eduardo... Foi divertido ler sua crônica, apesar de saber, de fato, que em momentos feito esses, não há diversão que apazigue a ansiedade de ver tudo funcionando.

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