sábado, 14 de fevereiro de 2009

BENJAMIN BUTTON E A PRESENÇA DE SATURNO [Ana González]

Você pode acreditar que uma personagem nasce com mais de oitenta anos e morre bebê? Não dá para acreditar, a menos que saibamos que se trata de arte literária ou da mágica do cinema.

A verossimilhança da obra de ficção bem realizada faz milagres. E nossa mente deixa-se conduzir com prazer e admiração perante a obra que nos rouba a atenção.

Benjamin Button me roubou de mim mesma. A imagem de um relógio inicia o filme, com os ponteiros andando para trás. Ele representa a dor de uma perda e a fantasia do tempo que volta e recupera tudo o que não se quer perder. É uma tentativa desesperada para negar a dor do inexorável, para refazer o caminho do desejo humano. Inexorável caminho do tempo, marcha da vida. Esse relógio indica que o caminho será esse: bonito e difícil.

São muitas as personagens de toda uma vida que se movem dentro da história. Encontros e separações, figuras poderosas e humildes, todas grandiosas carregando a seu modo o drama de suas vidas. Cada pessoa sendo o que é nas circunstâncias aceitas. Assim fala a narrativa. Assim fala a vida.

Rompe-se o paradigma do tempo tal como o conhecemos, representado no personagem principal. Rejuvenescer pode ser tão perturbador quanto envelhecer. Não se trata de uma simples história de amor. O tempo saturnino é dono de toda a narrativa. É a história do tempo, de como vivemos a marcha do tempo, que por meio de ranhuras e de estranhamento nos acorda para nossa finitude e fragilidade. Não escapamos de dores e de angústia, tão humanas.

A presença do amor e da sutileza pode ser solução ou alívio para essa constatação terrível. Essa presença de várias maneiras aparece e salva as personagens. Seja na visão de um nascer do sol, em silêncio ou no encontro para ouvir a descrição do movimento das asas de um beija-flor. No sacrifício do cumprimento do dever, na brincadeira entre crianças ou no momento do amor. Por essa presença e seus significados, a vida deve valer a pena. Puros momentos de poesia.

Saturno, em toda a sua grandeza de mestre que fala a verdade da vida, vem representado na dureza e na doçura, nos vários aspectos da vida em suas dores e amores. Ao pai que rejeita seu filho é dada a possibilidade de resgate no gesto que recupera a hierarquia. À vocação da mãe que não questiona os fatos, o gesto sempre generoso. Ao artista, a glória da realização. Ao aparente desencontro na vida, a possibilidade do amor que se constrói ao longo dos anos. Às verdades que são reveladas, sentimentos paradoxais e perplexidade.

Saturno mostra-se mestre na linguagem do amor, do silêncio e do equilíbrio mesmo que por dentro de muitas dores. Para os astrólogos, ele está em seu trono no terreno do relacionamento. Pode parecer estranho, mas é a maneira como o símbolo astrológico nos fala da austeridade se complementando no amor e na delicadeza. Assim, no signo de Libra, Saturno impera e marca importância. E o filme nos fala disso tudo com poesia e beleza.

A mansidão de Benjamin, que permeia seus comportamentos, nos diz de sua capacidade imensa de não se rebelar perante a marcha dos fatos. Ele é especial, sua 'mãe' sempre soube. Esta talvez seja sua marca diferencial: o gesto amoroso perante tudo: sejam perdas, sejam alegrias. De forma saturnina, ele presentifica o símbolo do tempo e da revelação salvadora para a natureza humana.

No final do filme, o relógio do início, depois de algumas décadas de funcionamento, encontra-se desativado. Foi substituído por outro moderno, digital, que funciona de acordo com o que se espera dele. O velho relógio então é tomado pelas águas de uma inundação, o que serve para de novo marcar a fragilidade de nosso desejo e de nossos recursos contra a maioridade da vida. São águas que destroem definitivamente o desejo e a onipotência humana. A intenção do início não se sustenta. Mas houve uma revelação salvadora, aquela do amor e da poesia possível. A cada um, a sua escolha.

No meio da narrativa, à pergunta de Benjamin a respeito dos motivos de sua diferença, sua mãe adotiva simplesmente responde: “Um dia, Deus vai nos dizer”. Deus não diz explicitamente, ela sabe que Ele não dirá. Os fatos dirão, o amor e a sutileza dirão. Ela viveu essa experiência e sabe que Benjamin também viverá, pois ele escolheu o caminho do amor.


Imagens: Benjamin Button, Pôster de Divulgação; Saturno, Roger Ressmeyer (NASA)



Partilhar

3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, bela reflexão sobre um belo filme.

Debora Bottcher disse...

Uma bela reflexão sobre a vida com base num filme belíssimo. Somos aprendizes do tempo, mas parece que nunca aprendemos, nunca chegamos a tempo onde queremos... :)
Super beijo, querida.

Anônimo disse...

Anuska

O senhor do tempo tem um segredo: como decodificar a vida, não em termos humanos, mas em termos universais. Decifra-me ou devoro-te, ele diz a cada um de nós. E nem sempre a resposta dada é a correta.
O senhor Button tem a dele e que, no fundo, é a nossa: aceitar a própria vida como ela é, única, pessoal e intransferível.
Lindo texto.
Beijoca