quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ÓCULOS >> Ana Coutinho

Desde criança eu usei óculos. Desde muito, muito pequena. Na minha lembrança mais antiga, há sempre um par de óculos em meu rosto. Ora um pequeninho, ora de gatinho, ora colorido, ora um quase invisível como dizia a minha mãe, tentando amenizar o peso de uma miopia altíssima no rosto de uma menina de 7, 8 anos.

Os óculos eram como uma extensão de mim. Eu tomava banho com eles e cheguei mesmo a dormir e acordar com os vidros diante de meus olhos. No banheiro, um dia, lembro-me que resolvi tomar banho sem óculos e, quando saí do chuveiro, não distinguia o que era uma calça jeans pendurada no toalheiro da toalha, logo ao lado. Eu devia ter uns 6 graus na época, não lembro. Não havia tecnologia que tirasse o aspecto de fundo de garrafa dos meus óculos e, quando eu fiz 12 anos, ganhei, enfim, minhas lentes de contato.

Ainda tentei resistir a elas. As pessoas me incentivavam a usar, mas eu não me incomodava de viver com aquele trambolho sobre o nariz. Era comum os amigos de meus pais dizerem: “Quando ela ficar mocinha, vai querer... Deixa ela ficar mais vaidosa pra você ver”. Dito e feito. Um belo dia, resolvi aderir a elas com empolgação e não as soltava mais. Não ia sequer à portaria de óculos. Tirava as lentes para dormir, mas as esquecia em meus olhos algumas noites, era uma maravilha... Foi só quando eu fiz 20 anos que a cirurgia começou a ser popular. Eu já tinha passado dos 7 graus exigidos por lei para que o convênio cobrisse o procedimento e, portanto, depois de uma maratona de perícias, foi-me concedido esse direito.

Ainda posso sentir o cheiro do hospital quando entrei na sala de cirurgia. Eu ia fazer uma vista e, depois de alguns dias, voltaria para fazer a outra. Minha mãe esperava-me ansiosa do lado de fora, quando eu tentei convencer meu médico: “Faz as duas hoje, vai?”. “As duas?” ele me respondeu, surpreso. “É, de uma vez, acaba rápido” – eu estava quase implorando quando ele topou. Disse para eu me apressar antes que mudasse de idéia e lá fomos nós. Foi tão rápido, e eu me sentia tão imensamente feliz que não consegui notar qualquer incômodo.

Não preciso fechar os olhos para me lembrar da expressão de minha mãe quando saí andando da sala de cirurgia, toda serelepe, com dois tampões transparentes de acrílico, um em cada olho, anunciando: “Ele fez as duas, ele fez as duas!”. Sua expressão era de terror: “Meu Deus, as duas!?!?!”. Ela estava assustada e eu, eufórica, era impossível conter o meu riso de alegria e exaltação...

A imagem que mais profundamente cravou-se em minha memória daquele dia foi quando saíamos do hospital, juntas. Ela tentava segurar a minha mão para me auxiliar a atravessar a rua e eu respondi, com uma emoção absolutamente nova: “Não precisa, mãe. Eu enxergo, eu estou vendo, estou vendo!”

Passaram-se semanas, talvez meses para que eu me adaptasse a viver sem nada sobre o meu rosto. Foram inúmeras as noites em que acordei no meio da madrugada e, notando que enxergava as horas no relógio ao lado, corria para o banheiro pensando: “Meu Deus, dormi de lente, de novo!”. A alegria de me perceber sem lente, já diante do espelho da pia, para mim era um susto tão bom, como se fosse um novo presente a cada noite, a cada piscada, a cada milésimo de segundo enxergando.

Foi preciso 20 anos da minha vida para que eu enxergasse o valor de ver, simplesmente ver, ainda que embaçado, ainda que fosco, ainda que desfocado, foi ali que eu percebi como era bom abrir os olhos. Decidi nunca mais fechá-los.

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5 comentários:

C Letti disse...

Ana, esse assunto está me perseguindo, juro! Minha crônica, já escrita e que seve ser publicada nos próximos dias, fala justamente de... óculos. :)))
Que seus olhos continuem assim, bem abertos e enxergando as coisas boas da vida.
beijo grande,

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Ana, faltou só uma foto sua com óculos fundo-de-garrafa para ilustrar a crônica. :)

Juliêta Barbosa disse...

Ana,

É uma pena que tantas pessoas embora vivam com eles, abertos, não enxerguem nada... Palmas para o seu discernimento.

Debora Bottcher disse...

Ana, querida,
Quando a gente abre os olhos, nunca mais os fecha mesmo. O que se vê a partir daí, nunca mais poderá ser esquecido, mas sempre se precisará de força extra pra entender - e às vezes, pra acreditar - no que se vê...

Ah! Falando concretamente, eu ainda espero pelas próximas tecnologias, pois como vc, desde criança uso óculos, mas com a córnea rasa o que se descobriu até agora não me serve. Valha-me... :)))

Super beijo.

cArLa disse...

Ana, o que você vê, vai além daquelas que a cirurgia lhe permite. Você vê e descreve o que vê como ninguém.