domingo, 1 de fevereiro de 2009

POR UMA VIDA EXTRAORDINÁRIA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Recorte de cartaz de A Rosa Púrpura do Cairo - de Woody AllenQual o seu filme preferido?

Vamos lá, escolha um.

Isso mesmo, o primeiro que lhe passou pela cabeça.

O meu é "Tempos Modernos", do Charlie Chaplin. O seu filme, provavelmente, é outro. Mas isso não importa. O que importa é que há algo de comum entre o meu filme, "Tempos Modernos", e o seu, seja ele "A Noviça Rebelde", "Sociedade dos Poetas Mortos", "Cinema Paradiso", "Sonhos" (do Kurosawa), Matrix"...

Em todos eles, o personagem, ou mesmo vários personagens, vivem vidas extraordinárias, com fatos extraordinários. Carlitos patinando de olhos fechados à beira de um precipício, entre outras cenas do meu filme. A noviça rebelde fazendo roupas com cortinas. "Oh, captain, my captain" fazendo alunos subirem em carteiras. Um filme-paraíso feito só de beijos. Um funeral coloridíssimo. Neo parando balas.

Tudo bem, os personagens sofrem horrores, fogem de perseguições, quase morrem, mas quanta aventura recebem em troca. Quanta animação. Quanta transformação. Quanta maturidade. E tudo isso em duas horinhas de filme. Realmente extraordinário.

Quando termina o filme, nós retomamos nossas vidas, o mais das vezes ordinárias, normais, comuns.

"Ah", você vai me dizer, "mas também existe beleza na vida comum". Claro que existe. Mas em que medida essa constatação não é só medo de deparar-se com o extraordinário que está também no dia-a-dia?

Nós temos uma tendência incrível, poderia até mesmo dizer extraordinária, para nos protegermos. Tudo tem que estar dentro da nossa zona de conforto. Tudo bem, podemos chegar às vezes ao limite, mas nunca ultrapassar a fronteira da zona. Quantas vezes, na vida, realizamos coisas extraordinárias capazes de virar um filme que se torne o favorito de alguém?

Parece que demos procuração aos personagens de filmes e livros para viverem os extremos da vida por nós, enquanto nós nos contentamos em viver o miolo confortável.

Qual foi a derradeira coisa extraordinária que você fez? Ou que eu fiz? Lembre aí que eu lembro cá...

Eu comprei uma passagem para o Rio de Janeiro e, de surpresa, pedi a minha própria mulher em casamento, ajoelhado no calçadão de Copacabana, com uma rosa numa mão e uma aliança na outra. Depois que minha mulher recusou o pedido, eu ainda escrevi na areia da praia, defronte ao hotel dela, em letras gigantes: "DÉA, EU TE AMO." Os banhistas passavam, admirados. Alguns até aplaudiram. Sim, algo realmente extraordinário, mas isso foi há quase cinco anos.

Meu Deus, mais de quatro anos sem nada de muito extraordinário. Viajei para Machu Picchu. Apareci na televisão algumas vezes. Mudei de cidade duas vezes. Publiquei dois livros. Namorei algumas mulheres lindas. Pedi demissão de alguns empregos. Mas nada de realmente extraordinário. Por quê?

Por não querer correr o risco. Por preferir ver, no cinema, o mocinho se arriscar, e se arranhar, e passar vergonha, e perder tudo... antes do beijo, da recompensa, da felicidade. Mas sou eu mesmo, se quero o resultado, que tenho que dar a cara a tapa — inclusive literalmente.

Há algo realmente sábio nos personagens: eles não questionam o roteirista e o diretor. Já imaginou o Neo parando o filme, virando-se para a câmera e dizendo: "Gente, essa idéia da Matrix é genial, mas tem mesmo que enfiar um tubo na base da nuca?"? Ou então o professor de Sociedade dos Poetas Mortos fazendo uma pequena exigência: "Tudo bem, a gente vira a cabeça desses alunos ao avesso, mas você tem que me garantir estabilidade no emprego, afinal, eu também tenho contas pra pagar."? Pois é justamente o que a gente faz o tempo todo: interrompe o fluxo da vida e fica pedindo garantias, exigindo dublês. Francamente, que papelão!

A vida, assim como os filmes, tem propostas indecentes, conselhos aparentemente impossíveis de serem colocados em prática, mudanças drásticas, correntes irresistíveis, ajustes inevitáveis, confrontos mortais, fugas espetaculares, insights geniais, e abandonos mais do que necessários. É isso o que nos faz amar os filmes. E é isso o que nos faria amar as nossas próprias vidas se representássemos bem o nosso papel, se trouxéssemos continuamente ao presente nossa atenção, se assumíssemos o papel principal ao invés de ficarmos fazendo figuração que nem aparece nos créditos, ou aparece assim: "Homem de barba 3", "Mulher do balcão 2".

Você e eu temos 24 horas por dia, 12 filmes a cada dia. Nem todos precisam se parecer com filmes europeus profundos, mas que dão sono. Vamos fazer musicais. Filmes de ação. Comédias Românticas. E dizer, como o Walt Disney, "é divertido fazer o impossível".

Cinema é imagem em movimento. A vida pode ser a imaginação em movimento.

Vamos aproveitar a luz do Sol. Preparem as câmeras. 1, 2, 3, meia e...

AÇÃO!





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11 comentários:

Tia Monca disse...

"...Viajei para Machu Picchu. Apareci na televisão algumas vezes. Mudei de cidade duas vezes. Publiquei dois livros. Namorei algumas mulheres lindas. Pedi demissão de alguns empregos. Mas nada de realmente extraordinário."

Tem certeza que nada de extraordinário nisso? Tadinha de mim :o)
Como sempre, amei o texto!
Bjs, Tia Monca

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo,
Extraordinária é a vida de quem abandona certezas para viver as possibilidades dos “se (s)”.
E, são tantos os “se(s)” e tantas as maneiras de se viver, quando deixamos o conforto da janela onde vemos a vida passar para abrirmos a porta ao inesperado, que somente aqueles que se arriscam são capazes de vivenciar.
Por vezes, tememos que essa e não aquela atitude, que esse e não aquele caminho seja o melhor. Mas, esquecemos que escancarar a porta dá uma visão do todo, possibilita a entrada do ar que nos dá a vida. Que da janela, o que temos é, apenas, parte da paisagem e da porta, a liberdade do primeiro passo. As asas para voar! Livre, leve, solto e ainda correndo o risco de ser feliz.
Pagar pra ver, eis o preço dessa tal felicidade! Esse é o filme da minha vida... O outro é o “ Encantador de Cavalos”.

Carla Dias disse...

Eduardo... Sua crônica caiu direitinho nesse meu começo de dia. Acostumada a pilhar possibilidades de realizações extraordinárias lá no canto, andava sem saber direito o que fazer com elas. Agora sei: descartou tá descartado. O jeito agora é não perder a próxima oportunidade de realizar algo extraordinário e saborear - com gosto - um bom momento nesse filme de título curioso: vida.
Obrigada!

leonardo marona disse...

boa crônica-enquete, Edu. meu favorito é "nós que nos amávamos tanto", do Ettore Scola.

aquele abraço e até a próxima!

leo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tadinha?! Deixa eu me lembrar aqui quem foi à Finlândia ano passado... Quem foi mesmo, Tia? :) Finlândia é o cúmulo do extraordinário!

Juliêta, gostei da transição janela-porta.

De nada, Carla. Boa sorte! Novas oportunidades chegam rápido para quem está esperando por elas. :)

Eita, Léo, faz um tempão que vi esse filme. Ah, aqueles bons tempos de "cinema de arte". :)

cArLa disse...

Pois é... eu sempre me pego imaginando que sou a mocinha do filme ou do livro... Extraordinário... dar a luz (2 vezes, e de parto "normal")foi extraordinário.
Mas o que foge mesmo do ordinário é esta vontade louca de não desistir e de continuar este filme, sem saber se o final vai ser feliz ou não.

Ana disse...

Adorei! Adorei a reflexão e, eu que sempre achei a vida comum muito boa, me peguei questionando se é mesmo?
Não sei se tem como escapar da vida ordinária. Não acho nem que nossos heróis dos filmes escaparam... Talvez, por alguns momentos, mas são momentos né? A gente também tem os nossos.
Não?
Ai, tõ confusa....

Ana disse...

Não, não.
Pensando bem, acho que isso é uma invenção nossa: De que temos de ter novidades, sermos extraordinários, etc, etc.
Um médico me disse isso uma vez, complementando que, o corpo humano adora uma rotina, uma calmaria, uma "normalidade" enfim...
Os filmes é que estão errados. Não nós.
Acho...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

cArLa, com certeza o final será feliz. Ainda mais para a mocinha do filme/livro que é você. :)

Ana, a rotina também pode ser extraordinária, como provam os poemas de Adélia Prado. :) Mas que bom que a crônica mexeu com você. :)

Anônimo disse...

Um dos meus filmes preferidos é Dr. Jivago, a cena em que ele fica contemplando as flores (girassóis?) é pura emoção... aliás o filme todo é lindo! Obrigada pela cronica!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônima, você acredita que nunca assisti a "Dr. Jivago"? Certamente um buraco no meu caminho cinematográfico. Vou ver se tapo ele qualquer dia desses. Grato pela indicação. :)