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O HOMEM E O MENINO >> Ana Coutinho

Eu estava na manicure, num salão desses bem fuleiros que atendem mulher, homem e quem mais vier.

Já estava na segunda mão, quando eles chegaram, os dois juntos. Era um homem e um menino. O homem, uns 40 anos, foi logo falando pro barbeiro: “A gente vai raspar. Máquina 1”. O menino, uns 15, baixou a cabeça, sem graça, e permaneceu em silêncio. “Os dois?” O barbeiro perguntou, olhando para a vasta cabeleira de ambos. “Os dois”, respondeu o homem, convicto. “Quem primeiro?” Houve um silêncio, antes de o homem dizer para o menino: “Pode ir, vai lá”. O menino sentou na cadeira com uma expressão tão triste e conformada que cheguei a me sentir comovida por ele. O homem batia nos ombros dele, consolando. “Cabelo cresce”, dizia, sem conseguir parecer otimista. Quando começou a passar a máquina, eu jurei que o menino ia chorar. Ele coçava os olhos, calado, nenhuma palavra. Tentava fingir que estava bem, estando absolutamente desolado. O homem, por sua vez, tentava dar um sorrisinho, mudar de assunto e disfarçar o indisfarçável: a dupla estava sofrendo horrores. Eram cúmplices, companheiros, grandes amigos e, juntos, aguentando um sofrimento desconhecido pra mim.

Comecei a me sentir triste pelo menino. Uma espécie de pavor pelo sofrimento alheio me invadiu, e comecei a questionar-me: O que acontecia? Por que aquele menino precisava passar por aquilo? Era uma maldade muito grande! Olhei-o pelo espelho e logo que o olhar dele me encontrou, eu tentei sorrir. “Nossa, está ficando bonito!”, falei a mentira deslavada com uma sinceridade surpreendente, quase acreditei em mim mesma. O menino, coitado, balançou a cabeça negativamente e permaneceu calado, como se qualquer palavra fosse fazê-lo explodir em lágrimas. Era um silêncio ensurdecedor. O homem, já sentado na cadeira ao lado, endossou as minhas palavras, parecendo imensamente agradecido: “Aí, tá vendo?” Ele disse com uma empolgação fascinante. Mas a verdade é que a gente sabia. Todo mundo ali sabia que não estava bom. O menino, gordinho, ficava com a cara ainda mais redonda conforme os cabelos iam caindo, tufos enormes ao chão. Tive vontade de perguntar. Seria alguma aposta? Tentei lembrar do campeonato de futebol, se alguém tinha perdido pra alguém recentemente, se tinha tido qualquer eleição de alguma coisa que fizesse um menino apostar com seus amigos: “Se meu time perder, eu fico careca, raspo meu cabelo com máquina 1!” Ele teria dito firme, observado pelos olhos incrédulos dos amigos. “Feito!”, responderam os outros meninos, sádicos. Será? Será que ele era assim tão comprometido? Não... Aquilo estava me parecendo mais uma obrigação. Como se ele precisasse fazer. Quando o homem já estava com a capa, e o barbeiro começava então a raspar-lhe a cabeça, pensei no pior: “Ai, meu Deus, o menino tá doente, aquela doença que nem o nome a gente fala, tadinho!” Eles se olhavam com tamanha compaixão e cumplicidade que eu deduzi que eram pai e filho assolados por uma grande tragédia. O médico teria dito: “Já raspa o cabelo de uma vez, você é homem, está calor mesmo...” O menino teria relutado até aquela manhã, quando viu o chumaço de cabelo no travesseiro. Mostrou para o pai e foram, ambos de mãos dadas, aceitar — quase que resignadamente — o que a vida lhes oferecera. Eu estava quase perguntando, juro, quase, quando a minha unha acabou.

Saí do salão e entrei no carro. Fiquei lá esperando os dois saírem. Não demorou muito e eu vi as carequinhas ali, andando pela calçada. Decidi segui-los. Se eu descobrisse onde moravam, pra onde iam, se fossem a uma festa ou a um velório, talvez a minha dúvida aquietasse. Acontece que, depois de dois quarteirões dirigindo devagarzinho, encostando na calçada, e até simulando uma ligação no celular pra não ser pega, meus personagens amados entraram — ainda a pé — em uma rua contramão. Ai, meu Deus, meu Deus, onde eu estaciono? Como eu faço pra sair daqui e ir a pé atrás deles? Não tem vaga, nenhuma vaguinha, um estacionamento, nada! Foi em um segundo, e eles tinham sumido da minha vista... O homem e o menino tornaram-se meus heróis mundanos. Ainda tenho esperança de que eles leiam a Crônica do Dia e se manifestem, para acalmar meu coração.

Mas, se nunca o fizerem, ainda assim, guardarei fundo na memória a cumplicidade e a força resignada de dois amigos. Um homem e um menino que talvez trocassem de lugar para tornar o duro fardo da vida um pouco — e só um pouco — mais leve...

Comentários

Ana, o mundo inteiro — inclusive o homem e o menino — ficou mais leve com essa sua crônica. Mais um belo e tocante texto!
Bia disse…
Emocionante, comovente...
Não dá para ir ao salão e descobrir o que aconteceu?
Carla Dias disse…
Perfeita, Ana... Perfeita...
Juliêta Barbosa disse…
Ana, que talento e sensibilidade para descrever fatos que talvez a um olhar menos sensível passasse despercebido.Dou-lhe nota mil, como ser humano.
cArLa disse…
Ana, com o sempre, fiquei de respiração presa, lendo seu texto. você sempre me leva junto com suas palavras.

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