domingo, 15 de fevereiro de 2009

CADA UM TEM O MILAGRE QUE MERECE
>> Eduardo Loureiro Jr.

É a primeira vez que conto um milagre. Na verdade, é a primeira vez que um milagre me acontece. Como sou novato em presenciar e contar milagres, peço a você, leitor, a paciência de me acompanhar, sabendo que podem soar desajeitadas as palavras que se seguem a um milagre.

"Estou doida para escrever, mas completamente sem assunto", me disse a Paula Pimenta pouco antes de fazer e publicar sua crônica de terça-feira passada. Custa-me crer que falte assunto a algum escritor, então prefiro pensar que a mensagem da Paula foi só pra fazer um charminho.

Imitando a Ana Coutinho, que há dez dias escreveu uma crônica dividindo as pessoas em powerpoint e excel, arrisco afirmar que há dois tipos de escritor: o óvulo e o espermatozoide. O escritor espermatozoide diz que a atividade de escrever é mais transpiração do que inspiração, que dá muito trabalho e pouco prazer e que, muitas vezes, não chega a um resultado satisfatório. Já o escritor óvulo acredita em inpiração, nunca sofre por escassez de ideias, escreve fácil, fácil, e sempre concebe alguma coisa nova. O escritor espermatozoide está, no fundo, se queixando de que há muito espermatozoide para pouco óvulo. Enquanto o escritor óvulo agradece a Deus por poder ficar quietinho, em casa, esperando que milhões de espermatozoides disputem o privilégio de se juntar a ele.

Eu, definitivamente, sou um escritor óvulo. Nunca tive problema de falta de inspiração. Escrevo como quem bebe água. Cada vez que sento para escrever, várias ideias disputam entre si o privilégio de serem transformadas em texto.

Falo disso justamente hoje porque esta semana foi particularmente espermatozoica: pensei até em fazer uma crônica gêmea ou trigêmea. Normalmente, escolho um assunto, uma ideia, sem sentir muito pesar por abandonar todas as restantes, mesmo sabendo que muitas daquelas ideias descartadas jamais serão aproveitadas novamente. Mas essa semana está difícil, quer dizer, está excessivamente fácil...

Recebi e-mails de um casal de primos queridos. Ela declarando ser minha fã nº 1: "Que audácia a minha!". Ele dizendo: "Aqui nessa casa de pai ateu e mãe doutoranda sem disposição de ir a missa, suas palavras são nosso alimento espiritual dos domingos." Ah, que bela crônica essas declarações de amor dariam...

Mas recebi também um telefonema de minha irmã mais nova, contando-me algo que muito me emocionou. O que me emocionou? Não posso contar, pois minha irmã mais nova pediu segredo. Ah, que vontade de escrever uma crônica cheia de emoção e segredo...

Não foi tudo. Esses dias, estive viajando, e só cheguei há pouco — por isso a crônica não saiu na hora do almoço, só está saindo na hora da janta. Eu estava no interior de Goiás, participando da I FLIPIRI, Feira de Literatura de Pirenópolis. Fui com amigos escritores da Casa de Autores. Presenciei momentos maravilhosos — a peça que teve troca de público durante sua apresentação, a escritora que domou meninos levados contando uma história de cavalo — momentos que renderiam não apenas uma crônica, mas uma série delas...

Ainda em Pirenópolis, recebi o telefonema de minha irmã do meio. Ela anunciou que está grávida de meu segundo sobrinho. O primeiro sobrinho, o Luís, quando soube que havia um irmãozinho ou irmãzinha crescendo dentro da barriga de sua mãe, perguntou, com a sabedoria de seu um ano e onze meses de idade: "Também tem um irmãozinho crescendo dentro da barriga do papai?" Ah, essas genialidades das crianças rendem sempre crônicas tão boas...

Mas essas crônicas ficarão todas para depois, ou para nunca, pois é impossível não escolher o milagre. E o milagre foi o seguinte.

Na pousada em Pirenópolis, de nome Casa Grande, deram-me o chalé de número 22, o mais distante da recepção, já no limite da propriedade. Com o pensamento firme em Pollyanna, eu caminhava os cem metros que separavam o recebimento da chave na recepção até a entrada em meu chalé repetindo para mim mesmo: "Que maravilha caminhar por toda esta estrada de pedras em zigue-zague! Que sorte poder passear por toda a pousada, tão cheia de plantas e flores e árvores coloridas, brilhantes e aromáticas! Que bom caminhar um pouco já que esses dias não terei tempo de fazer minha caminhada vespertina!"

E foi logo depois de girar a chave na fechadura, na sexta-feira, após voltar do café, que o céu desabou: chuva das grossas. Eu tinha dez minutos para escovar os dentes e arrumar meu material para as primeiras atividades da Feira Literária. Na recepção, eu esperaria um transporte da organização do evento, que me levaria até o cinema local: seria bom ver a chuva de dentro do carro assim como era bom ver a chuva de dentro do chalé. Mas e do chalé até a recepção? Para não aumentar o volume da bagagem, eu havia deixado meu guarda-chuva em Brasília. E nos chalés não havia um telefone para eu me comunicar com a recepção e solicitar auxílio. Eu teria que caminhar os agradáveis cem metros sob a chuva, chegando encharcado à recepção.

Foi então que resolvi rezar, pedir auxílio a Deus. Eu não gosto de aborrecer Deus pedindo coisas, sejam elas grandes ou pequenas. Mas naquela sexta-feira, não sei exatamente por que, resolvi dar uma de filho de Deus e fazer um pedido.

Estão vendo? Já estou desajeitando as palavras. Não é que eu não goste de aborrecer Deus. É outra coisa menos confessável, mas que confessarei, como retribuição por ter recebido o milagre de que vocês saberão daqui a pouco.

Eu sou filho de uma mãe extremamente religiosa com um pai absolutamente ateu. Minha mãe é capaz de mover montanhas com a sua fé e, se nunca o fez, é apenas porque não quer atrapalhar a vida dos geógrafos, dos editores de livros didáticos e dos professores de Geografia. Meu pai é um ateu tão convicto que, por não acreditar em nada, converteu-se, ele mesmo, numa criatura inacreditável. Dessa combinação ancestral, resultei eu, um ser dual, quase mitológico, à moda de centauros e minotauros, metade pai, metade mãe, meio deus, meio materialista. A melhor maneira de expressar como me sinto é dizendo que tenho uma fé do tamanho de uma montanha, mas sou incapaz de mover um grão de mostarda, simplesmente porque não acredito que montanhas e grãos de mostarda tenham qualquer coisa a ver umas com os outros.

Então foi esse crente descrente que, num descuido de ateísmo, pediu a Deus: "Por favor, faça com que eu chegue sequinho até a recepção da pousada". Nem bem ouviu isso, o descrente em mim fez uma cara de "deixe de ser besta" e começou a pensar numa alternativa: improvisar uma capa de chuva com os sacos plásticos que envolviam as toalhas da pousada. Mas bastou eu rasgar o primeiro saco para o crente em mim sussurrar: "Simplesmente confie". E foi o que fiz: larguei o saco sobre a cama e me dirigi para a porta. "Você está louco?!", gritou o descrente. "Assim vai se molhar todo. Você já passou da idade de acreditar nessas coisas. Volte aqui e prepare essa capa. Não seja irresponsável. Não existe deus nenhum cuidando para que você não se molhe. Não seja criança. Cresça, homem!" Mas talvez porque o descrente falasse muito e o crente falasse pouco, talvez por eu preferir o silêncio ao falatório, me encaminhei para a porta sem nenhuma proteção contra a chuva. Quando coloquei a mão sobre a chave que estava na fechadura da porta, à direita do chalé, olhei distraidamente para o lado esquerdo, e lá estava um guarda-chuva grande, daqueles não dobráveis, de pé no canto da ante-sala, atrás da pequena mesa redonda. Aquele guarda-chuva já estava ali antes e eu não tinha reparado? Eu não saberia responder. Tudo que sei é que o descrente resmungou alguma coisa incompreensível e o crente simplesmente agradeceu. Um milagre — o meu primeiro — havia acontecido, e eu estava muito feliz.

Foram, aliás, os cem metros mais felizes da minha vida. Eu atravessei a pousada, do chalé até a recepção, como se pisasse em nuvens, e o som da gotas de água sobre o guarda-chuva era a melodia mais linda que eu ouvia em muito tempo. Cheguei até o recepcionista e, junto com a chave do chalé 22, dei-lhe o melhor bom-dia que ele já recebeu de qualquer um dos hóspedes daquela pousada. Contei-lhe rapidamente o meu milagre: "Você não sabe o que me aconteceu agorinha mesmo? Começou a chover e..." O recepcionista, um sujeito realmente simpático, ficou um pouco constrangido ao me dizer: "Nós colocamos um guarda-chuva em todos os quartos. Chove muito aqui em Pirenópolis nessa época do ano." Então era isso. O meu milagre, o meu primeiro milagre, havia durado cem metros, aproximadamente dois minutos.

No caminho para o cinema, não conversei com o motorista. Fiquei aguentando a ironia insistente do meu descrente interior: "Só você mesmo para cair numa dessas. Isso é pra você largar de ser besta. Se Deus existisse, se pelo menos ligasse pra você, faria um milagre de respeito: interromperia a chuva apenas durante aqueles cem metros ou faria chover apenas ao seu redor, eliminando a chuva do exato lugar onde você estivesse pisando." Vendo meu desânimo, o descrente se calou, dando-se por satisfeito.

O crente, que fala pouco, achou que a situação merecia um pouco mais de palavras — três ou quatro a mais. Disse-me ele, com voz pausada e suave: "O milagre foi você ter visto o que já estava lá." Sim — eu disse. Sim — repeti. E tapei a boca do descrente que já queria retomar seu falatório. Sim, sim, sim! O milagre é ver o que já está. O milagre é uma venda que cai do olho.

E foi para isso que eu lhe escrevi hoje, meu caro leitor. Só para lhe contar — com desajeitadas palavras — da minha milagrosa alegria de enxergar.

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14 comentários:

Paula Pimenta disse...

Eduardo, acho que tenho fases de óvulo e fases de espermatozóide... você sabe em qual me encontro!

Adorei seu milagre! E acho que você está certo, os milagres só não acontecem mais porque ninguém sabe enxergá-los!

Anônimo disse...

"Simplesmente confie".

Simplesmente perfeito.

Anônimo disse...

Por isso que a fé exige o crer, (é o querer ver)! Suas crônicas são um deleite na minha segunda-feira!Bjs!
UMA DE CRIANÇA(meu filho Pedro de 5 anos):
CENA: SKANK-Samuel Rosa cantando BEATLES.
COMENTÁRIO: Ô Mãe? Como é que pode?Cantar em inglês e nascer em português?

Anônimo disse...

Lindo texto... você é mesmo muito lindo e eu sigo me apaixonando por suas palavras escritas e por você... o milagre está em querer e em poder ver, ser merecedor de ver!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Paula e Anônimo(a)s, muito grato pelo carinho e pelas revelações. Que vocês presenciem muitos milagres. :)

Ana disse...

Nossa Eduardo... De longe a minha crônica preferida... Não só porque você fala de mim :)) mas porque é absolutamente real... são muitos milagres diários, os quais deixamos de notar. Que bom que alguém me lembrou disso...
beijos

Anônimo disse...

Esse foi um parto "anormal".
Que lindo texto!!!
Milagre é vc existir.

Klaudya

Carla Dias disse...

Sempre acreditei que os milagres mais eficientes são aqueles que acontecem no nosso cotidiano. É bom quando enxergamos, antes de surtamos a falta de saída, de aconchego, de alegria.
E quando você enxerga um pouco mais, Eduardo, o que você escreve também são milagres travestidos de crônica.

Hebinha disse...

Eduardo Júnior, que desculpem os outros assuntos de possíveis crônicas, mas achei ótimo você optar pelo milagre. Eu que frequentemente incomodo Deus com meus pedidos e sempre acredito que serei atendida da melhor forma, adorei o milagre. Ainda mais me diverti, rindo sozinha na frente do meu computador, com o diálogo entre o crente e o descrente. Maravilha de milagre e de crônica. Continue acreditando e vendo. Abraço, Hebinha.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, que felicidade a minha por ter escrito uma crônica tão ao seu gosto. Isso é milagre para guarda-chuva nenhum botar defeito. :)

Grato, Klaudya. Eu existir foi mesmo um milagre "anormal", extraído a fórceps de minha mãe. :)

Carla, eu não esperava por essa revelação do meu milagre de palavras. Grato por isso. :)

Hebinha, pra mim a melhor reação que um escritor pode provocar num leitor é o riso. Saber do seu riso foi um presente. :)

cArLa disse...

Semi-deus é assim mesmo: é sempre testado mas recebe uma ajudinha-milagre e sai incólume no final!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

cArLa, senti-me o próprio semideus. :)

Anônimo disse...

Ana González:

Li esta crônica e parei na dicotomia possível óvulo e espermatozóide. Nem por milagre eu a encontraria procurando por título que não fosse o próprio. Ou seja, descobri de novo a delícia de viver milagres, verdadeiros ou não. E, acredito que sou óvulo. Nossa, como tenho assunto para tão pouco tempo de escrita... Ana Gon

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, todo leitor tem o direito de ler e entender um texto pela metade. :) Às vezes é melhor um pedacinho de texto do que um texto inteiro. :)