domingo, 22 de fevereiro de 2009

A FOLHADA BOLACHA DO SER
>> Eduardo Loureiro Jr.


As pessoas mudam. Nem sempre para melhor.

Veja o meu caso, por exemplo. Antigamente era comum eu ouvir de meus poucos e bons amigos: "Eduardo, eu o achava tão antipático quando o conheci!" Pois eu mudei. Embora não seja uma pessoa muito falante, já passo uma primeira impressão mais positiva, simpática. Meus amigos continuam bons, e agora são muitos.

Você sabe o que um boné disse para outro boné?
"-- Bom, né?"

Pois era o que eu me dizia até um dia desses: conhecer mais pessoas, fazer mais amigos... bom, né?

E você sabe o que o boné disse para uma caixa cheia de bonés?
"-- Muito bom, né?"

Ser uma pessoa mais simpática... muito bom, né?

Mas essa história de usar boné às vezes dá um calorão na cabeça. Ao invés de poucos amigos simplesmente comentando uma antipatia que já era passado, e que não havia impedido a amizade, agora ouço muitos amigos reclamando sutilmente: "Eduardo, você era tão simpático quando eu o conheci!" E adianta eu dizer que já melhorei bastante, que eu não era simpático de jeito nenhum e que meus amigos devem se contentar com essa minha pequena simpatia inconstante? Isso é o que dá acostumar mal as pessoas -- acostumá-las ao nosso bem.

Eu poderia ser como Álvaro de Campos, do outro lado da rua, à frente da tabacaria:

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.

E em mim são tantas as máscaras. Sou feito bolacha folhada, camada por camada, desfazendo-se nos dedos e na boca. Caiu-me primeiro a antipatia. E agora é preciso que a simpatia também caia.

Oswaldo Montenegro foi o primeiro a morder a concretude crocante de minha simpatia:

Quantos defeitos sanados com o tempo
eram o melhor que havia em você?

De vez em quando sinto uma saudade esfarelada de meus defeitos: vontade de deitar na rede da preguiça, de isolar-me em meu silêncio por dias seguidos, de perder tempo assistindo a um jogo de futebol, de soltar os cachorros quando alguém tenta espiar pela fresta do muro, de pensar só em mim, em mim, em mim...

Bons tempos aqueles em que eu era tão ruim que qualquer coisa de bom que eu fizesse era celebrada. Agora que estou melhorzinho, qualquer coisa errada que eu faça é logo chamada a atenção.

E no entanto não há volta. A bolacha é varrida do chão ou dissolvida na boca. A vida segue: um mal que vem pro bem, um bem que vem também pro bem, mesmo que por tortuosos olhares que parecem tortuosos caminhos.

No filme Asas do Desejo, pode-se ouvir a voz do narrador:

Quando a criança era criança,
Ela caminhava com os braços balançando,
Ela queria que a ribeira fosse um rio,
O rio, uma torrente
E uma poça d'água, o mar.

E Rilke nos leva além da criança:

Quando eu era criança, falava como criança,
Pensava como criança, raciocinava como criança.
Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.
Hoje vemos como por um espelho, confusamente;
Mas então veremos face a face.
Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente
Como eu sou conhecido (o eu que sou eu, não mais serei...)

Conhecer-se totalmente como se é conhecido. A transparência. O gosto bom da bolacha na boca, antes de escovar os dentes.





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4 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo,

Esse texto estava escrito dentro de mim. Que bom que a sua competência e delicadeza trouxe-o à tona.Obrigada!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Juliêta, foi uma alegria saber que (re)escrevi um texto que já estava escrito dentro de você. :)

C Letti disse...

Hm.
beijo, simpático!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Claudia, você é suspeita. :)