Alma Parte I >> Alfonsina Salomão

 


« Você vai ver com quantos paus se faz uma canoa”!. Ela gritou e saiu correndo. Não era boba nem nada, sabia que se ele decidisse lhe dar uma surra não poderia resistir. 

Nunca gostara de apanhar. Nem do pai, nem do irmão, nem de ninguém. Mas não conseguia guardar a língua dentro da boca, como sua mãe dizia, e vira-e-mexe acabava levando uma sova. Ao menos era rápida, e trepava em árvores como ninguém. Depois ficava lá em cima escutando o coração bater rápido, esperando o fôlego acalmar. Esperava sobretudo o pai, ou o irmão, por vezes um primo ou vizinho, perder a paciência e ir embora. Na maior parte do tempo ficava por isso mesmo. Quando aparecia em casa de noite, cheia de fome e algum remorso, eles já estavam apaziguados, já tinham esquecido suas palavras de fogo. Menos o pai. Esse era teimoso mesmo. Quando a via atravessar a porta da cozinha não dizia nada, apenas apontava com o dedo o cantinho onde o milho esperava. Aí não tinha como fugir. Abaixava a cabeça para ninguém notar as lágrimas que se insinuavam e, humilhada, deixava-se cair de joelhos sobre os grãos pontudos. Doía tudo: o orgulho, as pernas, as costas e a barriga. Ficava ajoelhada de estômago vazio escutando os outros comerem, perguntando-se quando é que o pai a liberaria do sofrimento. Mas talvez o que mais doesse fosse os suspiros da mãe. Não gostava de decepcioná-la, sabia que sua vida era penosa, com aquela penca de filhos, lavando roupa no tanque antes do sol raiar pra dar conta da lida em casa e na roça. Nessas horas se arrependia de verdade, decidia que ia parar com a vadiagem e dar um jeito de ajudar a mãe, virar uma moça direita, daqui a pouco estava na hora de arrumar marido mesmo. Mas não tinha jeito. A culpa não era dela, era do gênio ruim que herdara do pai. 

 

Tudo isso ainda ia levar algumas horas para acontecer. Por enquanto estava muito bem ali, no topo da árvore, satisfeita com a própria agilidade, rindo sozinha da peça que pregara no irmão. Escondera suas roupas num arbusto, de modo que ele teve que sair do açude do jeito que veio ao mundo e correr até a casa tapando suas vergonhas, morto de medo de ser visto por uma rapariga. Agora estava lá embaixo, já vestido, berrando seu nome furioso, doido para botar as mãos nela, que cobria a boca para conter o riso. Que bobo, ele bem que merecia, vivia tratando-a de bicho feio, dizendo que era burra e desajeitada, que ninguém nunca iria querer casar com ela, que ia terminar uma verdadeira bruaca, com verrugas no nariz e tudo o mais. Agora ele vai ver, quem ri por último ri melhor. 

 

Estes pensamentos foram se embaralhando na sua cabeça, se misturando ao canto dos pássaros e outros ruídos do mato, que aos poucos ficaram cada vez mais longe. O céu azul adquiriu uma tonalidade cor-de-rosa-alaranjada, o vento soprou forte chacoalhando as folhas do galho onde estava deitada e o tempo parou. Foi então que o fantasma de Alma plainou majestoso numa corrente de ar, igualzinho urubu.

Comentários

Carla Dias disse…
Esperando pela parte II. :)
Zoraya Cesar disse…
pelamor, Alfonsina! isso nao se faz! se pelo menos encompridasse essa parte um pouquinho, tava tao bom!
Albir disse…
Nádia aliviou esta semana com uma história bonitinha, mas você compensou isso com o fantasma de Alma, né? Pelo jeito, aceitou o convide das duas para esse mundo tenebroso! Vou ficar aqui esperando, que já não tenho as forças nem a destreza de sua personagem para fugir.

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