FELIZ DIA DOS NAMORADOS, D. LETÍCIA >> Zoraya Cesar




João Miguel saltava do carro, abraçava as crianças e se despedia. Todos estavam acostumados ao jeito paternal do motorista, e ficavam aliviados em ver que, pelo menos ali, os dois irmãos ganhavam um pouco de afeto. 

Porque o pai, Dr. Gruson, era um déspota às raias do sadismo, que tinha a peculiar habilidade de transformar a vida de todos à sua volta em um tormento infernal infindável. Tinha a habilidade e também o poder – pois muito dinheiro, contatos e maldade deixam uma pessoa quase imbatível. 

Agora, apresento D. Letícia. Casara sem ter noção que assinara a sangue um contrato vitalício com o diabo. Maus tratos, ameaças, agressões verbais (eventualmente, também físicas). Se você se pergunta por que, em pleno séc. XXI ela não denunciava, separava, buscava ajuda, bla bla bla - essas soluções tão fáceis para quem não vivencia o problema -, eu respondo: porque na vida nada é simples. Mesmo hoje é difícil se desfazer de um companheiro abusivo. Ainda mais rico, poderoso e vingativo como o Dr. Gruson, que podia pagar bons advogados, ficar com os filhos, matar a esposa impunemente. Não, quase nunca é simples. Nem fácil. Então, por favor, não julguem D. Letícia, de resto, um ser humano excelente, que não merecia tal destino.

Vivia, pois, D. Letícia, nessa situação, aparentemente sem saída. Mas, esperem! Quase me esqueço, essa é uma história de amor. Sim, acreditem, é uma história de amor!

Voltemos a João Miguel. O motorista da família percebeu, logo ao primeiro dia, as teias secretas que seguravam as aparências e maquiavam as circunstâncias. E, por alguma razão, ou desrazão, vá entender, apaixonou-se por D. Letícia – irremediável e sempiternamente. E também pelas crianças (que, por aquela estranha intuição com a qual nascemos – e perdemos ao longo do caminho -, sentiram, naquele homem ainda jovem, um coração de leão, generoso e bravo). Num acordo tácito jamais revelado, todos sabiam que deveriam esconder, principalmente do Dr. Gruson, o afeto que sentiam uns pelos outros. 

Se essa situação duraria para sempre, não sabemos. Até porque não sabemos de coisa alguma nessa vida. 

Mas sabemos que Dr. Gruson, que trocava de amante a cada dois meses, enrabichou-se por uma sirigaita. E começou a cogitar armar um falso flagrante de adultério em D. Letícia. Deixá-la-ia sem nada, colocaria os filhos num internado na Suíça. Advogado era pra isso. Torturar os mais fracos lhe era um hobby prazeroso.  

Bem diz a Bíblia ser a soberba um pecado capital. Pois tão convencido de seu poder e tanto que desprezava os subalternos, não tinha pejo em comentar seus planos com a amante no banco de trás do carro, ao alcance dos ouvidos do motorista. E por que não? Se o desgraçado desse com a língua nos dentes, tanto melhor. Dr. Gruson já destruíra a vida de um ex-empregado até o limite da loucura e… Opa! Desculpem. Voltemos à nossa história de amor. Pois, repito, essa é uma história de amor!

D. Letícia vivia às raias do desespero. Não podia fugir, não podia se matar, não podia pedir o divórcio. Pior, não podia proteger os filhos. E Dr. Gruson, cada dia mais violento e sarcástico. Ela só podia rezar e pedir por um milagre.

Acreditem em mim, milagres acontecem. Quão seca seria nossa vida sem eles (hmm, pensaram que ia repetir ser essa uma história de amor? Mas isso vocês já sabem!).

O que sustentava D. Letícia nos piores momentos era lembrar de João Miguel. Gostava dele, gostava mesmo. Escondida nos recônditos de sua alma, uma fantasia sublime e diáfana lhe dizia que, mais que feitos um para o outro, eram feitos um do outro. E que, em outra vida, poderiam ter sido felizes. Tão apavorada de que até esse pequenino sonho fosse esmagado, dele não tinha sequer consciência plena. Apenas uma sensação de conforto.

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Tarde da noite. Chuva torrencial. O horrível acidente de carro. 

D. Letícia correu ao hospital. Aguardou o médico com a morte no coração. Não tinha fim seu sofrimento?

O médico chegou, sério e compungido, como sói acontecer numa ocasião dessas:

- D. Letícia, lamento muitíssimo. Seu marido morreu.

Ela o fitou por longos momentos. O médico ficou sem entender. Estaria em choque? Pobre mulher. 

- Doutor, quantas pessoas morreram no acidente?

- Só o seu marido, senhora. O motorista sobreviveu, mas em estado gravíssimo, em coma, devido às diversas fraturas e extensas queimaduras. É um milagre que esteja vivo. E um outro milagre se resistir.

D. Letícia tremia. João Miguel estava vivo! Enquanto há vida, há esperança. Ela cuidaria dele, mesmo que nunca mais saísse de uma cama de hospital, ela cuidaria dele.

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Felizmente, nada tão trágico aconteceu. Vamos acelerar, que está na hora do lanche, vocês devem estar com fome! A polícia concluiu que foi um acidente causado pela chuva, que o motorista teve culpa, mas não dolo. Tudo ficou por isso mesmo.

(Ninguém jamais suspeitou que João Miguel planejara uma missão kamikaze, a fim de acabar com as desditas de D. Letícia, seu grande amor. Ter sobrevivido foi um resultado inesperado. Mas bem-vindo, claro.)

Se tiverem paciência de esperar mais alguns anos, poderão ver João Miguel, D. Letícia e as crianças muito bem, obrigada. Moram em uma casa com quintal e horta, cachorros, um bebê recém-nascido. Os meninos agora têm o melhor pai do mundo. João Miguel termina a faculdade, D. Letícia se dedica a trabalhos beneficentes. Ah, se tiverem curiosidade, passem por lá no dia 12 de junho de qualquer ano, e vejam o casal de mãos dadas, reencenando o diálogo que tiveram no primeiro dia em que João Miguel acordou do coma e viu D. Letícia a seu lado:

- Que dia é hoje?
- 12 de junho.
- Feliz dia dos namorados, D. Letícia.
- Feliz dia dos namorados, João Miguel, meu amor.

Viram? Não foi uma história de amor? E com final feliz? 

Comentários

Ah, que lindinhos, que caminhos tortuosos foram percorridos!
branco disse…
espero que o espírito do doutor assombra esse casal por todo o sempre. sempre achei motoristas mais traicoeiros que mordomos.
Marcio disse…
A sábia Zoraya demonstra que vocação é algo que não deve ser ignorada, nunca: mesmo em um texto fofinho, sobre amor em um dia dos namorados, os coveiros não tiveram descanso.
Erica disse…
A caveira da ilustração está bem explicada, mas o texto não deixou de ser fofis ohmmmmmmmmmmmm
Carla Dias disse…
Gosto tanto de como você pega o mais insano desejo, um irremediável desespero e transforma em uma elegante trama, na qual deixa explícito o que é bom, mas de um jeito... que mesmo mostrando que não é lá muito bacana, escancarando mesmo, o leitor acessa a ironia e a confunde com o mais cândido sentimento. No final das contas, é a sua escrita saltitante sobre a frágil corda das mazelas humanas.
Nadia Coldebella disse…
hehe, Lady killer tbm é amor!!!
Clarisse Pacheco disse…
Adoro os nomes, sempre. "Dr. Gruson" não poderia ser melhor rsrsrs
Zoraya Cesar disse…
Aninha - não é? Ainda seguirão vários caminhos tortuosos, pois assim éa vida, mas de mãos dadas, o q torna tudo mais fácil

branco - lord white - kkkk sem chances disso ocorrer. do inferno a alma do dr. gruson nunca mais escapa

Marcio - hahaha, como sempre, seus comentários ótimos me fazem rir!

Erica - sei q vc é uma romântica, estou aliviada q tenha gostado hehehe

Carla Dias - a Princesa das Palavras disse q minha trama foi elegante e q meu texto é saltitante. O q posso fazer? Silenciar e degustar prazerosamente esse baita elogio.

Nádia - Countess, não é? Lady Killers tb t~em um coração fofinho

Clarisse - kkkkk vc sempre gosta dos nomes, acho o máximo.

A todos, obrigada!
Albir disse…
Você não me engana mais com seus títulos fofinhos! Como em Tarantino, um casamento na roça vira uma chacina. Um namoradinho pra todo mundo é um namoradinho, mas pra você ele tem potencial.

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