PUSILÂNIME >> Carla Dias



Não reconhece o seu onde atual. Como veio parar neste lugar? Faz ideia nenhuma de onde fica essa avenida que parece não ter fim. 

Pergunta-se: ainda estou dormindo? Tenta convencer a si mesmo de que daqui a pouco estará de volta a si. Deve ser cansaço que tira pessoa do ar, mas depois coloca a mente dela no lugar. Deve ser uma dessas breves viagens que o espírito faz, quando não suporta o cansaço do corpo.  

Nada de morrer hoje, diz a si mesmo, sem saber se ainda está vivo ou a caminho de um algum daqueles outros mundos, dos quais nunca acreditou na existência. Melhor pensar assim, porque a outra opção seria indigesta. Seus pais indo contra seu desejo e o enterrando em uma cova que pudessem visitar uma vez ao ano, desta vez, pelo aniversário da morte.

Curva-se, porque lhe falta altar o ar. Leva algum tempo para se recuperar do ataque de pânico.

Observa a todos, quer ter certeza de que, ao solicitar informações, não se envolverá com manobras de desconhecidos. Então, repensa, ou melhor, reflete: como seria se envolver com manobras de desconhecidos?

Haveria mais tombos?

Mais alegrias?

Mais do que mais deseja, mas não se lembra o que é? 

Crianças brincam nas calçadas da avenida, que se estende a sua frente. O olhar dele não alcança seu fim, mas também não é de se entediar. Então, alonga-se até as árvores, esparramando-se pelas sombras que imprimem suas formas distorcidas em largas calçadas. 

Não é que ele não saiba o que acontece. Só não quer saber.

Tenta dar um passo à frente, mas os pés parecem blocos de concreto... ou seriam raízes? Um pensamento insano se agarra à sua mente: e se também eu sou árvore? Então, observa sua provável família enfileirada, direita e esquerda, tantas delas, que sente que nunca saberá quantas, e tudo bem não saber.

Para ele, nunca antes havia sido tudo bem não saber.

Fiquei fora por algum tempo: férias emendadas com suspensão por ter redigido muito mal algumas histórias. Mas me digam, como ser narradora de histórias que se repetem por pura preguiça do autor de desafiar seus personagens? Como não se intrometer? 

Apesar de não conseguir fazer movimento que seja, ele sente como se algo o empurrasse com força. A sensação gera nele uma aflição que nunca sentiu antes, aguda, sadista. Seus pensamentos dançam em torno da possibilidade de essa força irreconhecível tirá-lo do lugar e levá-lo embora, para o tipo de longe que faz par com o nunca mais.

Estremece.

Enternece, mas não entende para qual fim. Questiona-se: e se eu não puder mais voltar?

Por favor!
Voltar para onde, se você nem sabe onde está? Sabe o que seria fantástico? Se você parasse de se perder pelas sombras das árvores e compreendesse o que realmente se passa. Abra os olhos da sua percepção, personagem!

Tenta gritar, mas a voz não sai. Será sonho lúcido? Daqui a pouco tudo voltará ao normal. Ele precisa que a vida volte ao normal. Quanto tempo será que o daqui a pouco irá durar?

Fico em frente a ele e cutuco seu nariz, ele o coça. Com as mãos, desmancho seus cabelos, ele os ajeita, reclamando ao vento pelo inconveniente. Assopro seus olhos, ele pisca tantas vezes e eu conto cada uma delas. Não é o resultado da minha contagem que importa. Quando ele para de piscar, amansando o olhar no adiante, eu me aproximo um pouco mais.

Se pudesse voltar ao ontem, talvez houvesse chance de compreender o que o trouxe até aqui. Pudesse recriar o seu caminho, fazer as mudanças necessárias, prestar atenção ao que importa.

Sempre me impaciento nesta parte, quando consigo prever aonde a trama irá levar o personagem. Houve época em que os colegas de profissão me chamavam de “narradora vidente intrometida”. Mas tem nada a ver com adivinhação... É observação. Nem todos os narradores querem ir além do mínimo e eu não sou obrigada a participar dessa fleuma existencial.

Intrometo-me.

Fecha os olhos, desejando acordar na sua verdade. São tantas perguntas e nenhuma resposta. Tantos caminhos e nenhum...

Não há neste personagem o que autor quer mostrar. Não há no autor o que ele acha que o personagem quer mostrar. Nos dias em que tenho de narrar a autonegação em seu esplendor, tudo me dói... corpo, mente e paciência.

Hoje, eu gostaria de gritar ao personagem que ele se nega a enxergar o óbvio, e que, contrário ao que ele pensa, o óbvio pode ser a chave da porta que o levará à necessária catarse. 

Quando voltar ao lugar ao qual pertence, pretende se tornar uma pessoa capaz de enxergar leveza na vida. Assim, não sentirá a sensação de impotência, de não saber onde existe, de não se reconhecer... 

Atrevo-me, deitando a cabeça nos ombros dele. Isso pode me custar algumas punições severas, mas a quem desejo enganar? Não as temo. E a avenida é deslumbrante, com tantas árvores e suas sombras delineadoras de epílogos dando lugar aos prefácios.

Não quero estragar o pós-the-end, mas eu sei que ele não se tornará uma pessoa melhor. Ao voltar para sua história, esparramar-se nela novamente, esquecerá das promessas que fez a si mesmo. Esquecerá do quão rasa é a sua existência.

É hora de voltar para casa, para si mesmo, para o reconhecível e esquecer este lugar sem nome...

Mas ele se engana. Sabe tão bem o nome deste lugar, pois serve a ele em tudo o que realiza. Rende-se a ele, sem considerar que esta talvez seja uma péssima escolha. Não resisto... giro o corpo, coloco os braços sobre seus ombros, aproximo os lábios do seu ouvido e confidencio:

... fazer as mudanças necessárias para que a sua vida se torne melhor, mais justa. Que ele possa aventurar-se...

Os que ignoram o medo não sabem se aventurar e seguem caminhando pelas belas avenidas que são incapazes de realmente apreciar.

Imagem © 愚木混株 Cdd20 por Pixabay




Comentários

branco disse…
carlinha... Não te comento muito... mas te leio demais. esse "diálogo" merece estar em um local especial... naquele lugar que é diferente, no entanto, não deixa de ser seu.
outra leitura obrigatória... como te disse não te comento muito, mas cumpro (no seu caso, com um enorme sorriso de ser presenteado) minhas obrigações.
André Ferrer disse…
Carla, seu texto é um chamado.
Zoraya Cesar disse…
Volto a dizer: seus textos deveriam trazer uma tarja de aviso: cuidado, abismo à frente. Vc pode cair em si mesmo e nunca mais voltar.

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