DUAS BRASAS >> André Ferrer

Lavar as roupas nem se comparava. O pior era a entrega. Um calvário de distância. 

Bênção, mesmo, só a vizinha de cerca. Chegava-se ao fundo do quintal e logo se transferia o peso de uma bacia para a outra. Sem ter que palmilhar o bairro. As roupas iam secar na casa da dona. Fácil demais.

Bacia presa no muque, a velha Ritinha se equilibrava no desnível do terreno. Insistia, sugando ar, e pisava nas bordas do arrimo. Quase sem fôlego, chamava. 

─ Já vou. 

A outra mostrava o dinheiro. Mulher nova. Tinha um bebê que o marido embalava sob o telheiro de madrugadinha. Ela, na cozinha, preparando a mamadeira. Toda recomendações ao seu homem, que resmungava e, entre risos abafados, entregava o bebê à mãe. A mochila jogada nos ombros. Antes de sair, a brasa do cigarro no escuro. As últimas recomendações. 

─ Não vacile. Ora, se o botequim é lugar! 

─ Perigo nenhum. Já é no asfalto. Bem na frente do ponto de ônibus. 

─ Nada disso. É muito perto daqui. Se vista no batalhão. 

Era cuidadosa. Por isso, recomendava discrição à lavadeira. Que ninguém, por ali, visse aquelas roupas de trabalho. Um perigo! 

─ Não se preocupe. 

─ A senhora sabe. 

─ Sei. 

─ Eu penduro lá dentro para secar. 

Nem bem o volume escorregava para a outra bacia, a mão levantava as outras roupas e cobria a farda. Marido polícia, naquele bairro, era motivo de preocupação. 

Toda manhã, Ritinha se levantava e ia colocar a chaleira no fogo. A caixinha de fósforos, ela guardava no trilho da janela que olhava para os fundos do terreno. Entre o saleiro e um velho peso de balança, havia um buraco no vidro por onde se podia ver a progressiva substituição de cuidados por queixas. O crescente interesse do menino por pão. A vida dos outros e o seu vagaroso deslocamento. 

Um belo dia, enquanto espiava, tossia e escutava a fervura da água, Ritinha ficou intrigada por causa de duas brasas de cigarro, debaixo do alpendre, em vez de uma. Era intrigante, decerto, porque ninguém mais, além do homem, fumava na casa vizinha. Um pouco depois, à hora de entregar a roupa, descobriu que se tratava da cunhada do policial. Moça sem juízo. Deixara dois filhos na terra deles. Os parentes conversaram e ela conseguiu um trabalho no botequim. Arrumava o lugar e lavava a louça. 

─ Tentei mandar a danada de volta, oh, dona Rita! Mas o meu esposo não quis deixar. 

Foi a última vez que a velha trabalhou para a mulher do soldado. Na vizinhança, dizia-se que ela tinha voltado para o norte mais o bebê depois do flagrante no botequim onde o marido trocava de roupa e a irmã lavava as louças. Pelo buraco do vitrô, um mês inteiro de silêncio. 

Restaram, assim, as freguesas distantes e o sofrimento das entregas ladeira acima. Então, numa tarde calorenta, a velha parou para descansar no meio do caminho e, por acaso, escutou a conversa entre o barbeiro Deolindo, as pretas do Beco da Fonte e dois meninos que sempre estavam ali, um olheiro e um soldado. 

─ Vão morar numa casa mais para cima. 

Desenvergonhada

─ E o sujeito?! Dizem que é mecânico. 

─ Não! Ele é cobrador de ônibus. 

─ Sempre alinhado! Eu já cortei o cabelo dele. 

─ Foi mesmo tio?! ─, disse um dos moleques, o que era olheiro. ─ Então, dê a letra tio: conversou com ele? 

 ─ Sim. Conversei. 

O outro menino riu. Como a bandoleira era longa demais, ele chicoteou o braço do olheiro com a tira. Piscou para o amigo e foi correspondido. Depois, ajeitou o peso do fuzil no ombro e olhou para Deolindo. 

─ Oh, barbeiro! ─, disse a criança. ─ O que acha? Cobrador ou mecânico? 

─ Pouco importa. É boa gente. 

─ Sim. Essas tretas acontece com qualquer um.

Comentários

branco disse…
nunca se perde o jeito. reparando no que não deixou de ser dito, mas nas maravilhas escondidas na rotina.
Zoraya Cesar disse…
um recorte de vida cotidiana feito à maneira Andre Ferrer: excelente! Um monólogo interior sem consciência do personagem principal. Né pra qualquer um nao!!
Albir disse…
Perfeito, André, o equilíbrio entre o que deve ser dito e o que não precisa.

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