sábado, 1 de dezembro de 2007

CADA ARTISTA UM HERÓI (OU COMO SE OUSA QUERER VIVER DE ARTE?) [Heloísa Reis]


Inicia-se a jornada no momento em que a decisão é tomada: quero viver de arte .

Este é o ponto inicial de uma viagem repleta de circunstâncias não previstas, de outras bem previsíveis e ainda assim com uma certa dose de inesperadas satisfações.

Conta a História quantas barreiras já se apresentaram para os que ousaram assumir e declarar que “se acham” artistas. Prometeu mesmo, que ousou trazer o fogo aos mortais e por isso teve literalmente seu fígado comido todas as noites, fez dos seus protegidos – os artistas - seguidores fiéis e exemplarmente castigados por terem a presunção de imitarem os deuses, criando obras! Pra quê? O mundo precisa de mais objetos, mais palavras, mais formas? Como pode alguém criar algo diferente? Que possível importância há nesse trabalho? Ah, isso é pura expressão pessoal, e não faz a menor diferença!

Estigma e paradoxo. Enquanto é celebrado como um semideus é, ao mesmo tempo, rejeitado e interpelado quanto à sua competência e à pertinência de seu trabalho. A jornada é então repleta de gigantes a serem derrotados. Começa pela pergunta: “Mas isso vende? Dá $$$$?” Depois vem: “Para que serve? Coloca-se onde?” E por aí vai...

Mas o herói em potencial possui as armas para superar essas perguntas e outras questões menores ou maiores. Precisando para isso primeiro enfrentar o maior gigante de todos - seu próprio ego! Além de ter cuidados especiais com o ego dos que o cercam, claro!

Campbell aponta doze fases da jornada do herói, mas para a jornada do artista acredito que haja muitas mais! Além de recusar-se a viver o seu dia-a-dia como qualquer mortal, ele envereda pelo caminho da aventura em busca de um mentor que o aceite. Passa por poucas e boas, testa-se, é recusado muitas vezes em muitos lugares, encontra aliados e, às vezes, vê-se próximo de seu objetivo... Muitas vezes desiste - por pouco tempo, mas desiste! Chega a questionar-se se não está louco de pedra ao insistir. Mas às vezes tem uma recompensazinha. Alguém gosta de um seu trabalho - a ponto até de desembolsar algum $$$! Ah! Então nem tudo está perdido... Dá para continuar! E assim continuam-se as escolhas, as seleções, os aprendizados, as aceitações, as recusas, os erros e acertos. Tudo é parte da empreitada da eterna manutenção do sentimento e da consciência de si-mesmo.

Mas, evidentemente, sem ego. Sim, porque a proeza do herói está em fazê-la esquecendo-se de si, agindo sempre pelo outro, pelo coletivo, pelo mito. E aí, mais uma vez surge a questão: seguir ou não seguir... Ah! Shakespeare, inspirador...

A jornada de fato pressupõe um caminho e as decisões quanto ao rumo a tomar. A cada encruzilhada ou bifurcação há uma escolha cuja importância reside mais no abandono do que não foi escolhido, porque os caminhos não trilhados deixam dúvidas e sentimentos de perda daquilo não vivido. Uma loucura! Assim como a vida, claro!

Mas essa jornada ferrada de pintores, poetas, escultores, escritores, bailarinos, atores é a jornada de pessoas - heróis e heroínas, arquétipos de todos os mitos – anunciadores de uma só verdade: não queremos, nos recusamos a morrer!

Somos nós - todos os artistas, profissionais ou não - os heróis e heroínas que continuamos historicamente - há milênios - sempre salvando a humanidade da própria morte.

Ufa! Que jornada!


Arte Reflexa

Heloísa Reis é Artista e Arte-educadora

Imagem: Prato Pintado sobre Souplat de Alta Temperatura, Heloisa Reis

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa reflexão sobre a nossa condição. :)

Uma dúvida: em O herói de mil faces, o Joseph Campbell cita 17 fases da jornada do herói. Existe algum outro livro em que ele resume essas fases em 12?

Hebe disse...

Que bom que você continuou a sua jornada até aqui.
Encanto-me pela beleza da arte, às vezes, sem nem mesmo entendê-la, sem ter como pagar por ela, mas só em apreciá-la já me agrada.
Espero que continue ainda por muito tempo nesse caminho, mesmo já sendo imortalizada pelo que já fez.
Hebe