Pular para o conteúdo principal

CADA ARTISTA UM HERÓI (OU COMO SE OUSA QUERER VIVER DE ARTE?) [Heloísa Reis]


Inicia-se a jornada no momento em que a decisão é tomada: quero viver de arte .

Este é o ponto inicial de uma viagem repleta de circunstâncias não previstas, de outras bem previsíveis e ainda assim com uma certa dose de inesperadas satisfações.

Conta a História quantas barreiras já se apresentaram para os que ousaram assumir e declarar que “se acham” artistas. Prometeu mesmo, que ousou trazer o fogo aos mortais e por isso teve literalmente seu fígado comido todas as noites, fez dos seus protegidos – os artistas - seguidores fiéis e exemplarmente castigados por terem a presunção de imitarem os deuses, criando obras! Pra quê? O mundo precisa de mais objetos, mais palavras, mais formas? Como pode alguém criar algo diferente? Que possível importância há nesse trabalho? Ah, isso é pura expressão pessoal, e não faz a menor diferença!

Estigma e paradoxo. Enquanto é celebrado como um semideus é, ao mesmo tempo, rejeitado e interpelado quanto à sua competência e à pertinência de seu trabalho. A jornada é então repleta de gigantes a serem derrotados. Começa pela pergunta: “Mas isso vende? Dá $$$$?” Depois vem: “Para que serve? Coloca-se onde?” E por aí vai...

Mas o herói em potencial possui as armas para superar essas perguntas e outras questões menores ou maiores. Precisando para isso primeiro enfrentar o maior gigante de todos - seu próprio ego! Além de ter cuidados especiais com o ego dos que o cercam, claro!

Campbell aponta doze fases da jornada do herói, mas para a jornada do artista acredito que haja muitas mais! Além de recusar-se a viver o seu dia-a-dia como qualquer mortal, ele envereda pelo caminho da aventura em busca de um mentor que o aceite. Passa por poucas e boas, testa-se, é recusado muitas vezes em muitos lugares, encontra aliados e, às vezes, vê-se próximo de seu objetivo... Muitas vezes desiste - por pouco tempo, mas desiste! Chega a questionar-se se não está louco de pedra ao insistir. Mas às vezes tem uma recompensazinha. Alguém gosta de um seu trabalho - a ponto até de desembolsar algum $$$! Ah! Então nem tudo está perdido... Dá para continuar! E assim continuam-se as escolhas, as seleções, os aprendizados, as aceitações, as recusas, os erros e acertos. Tudo é parte da empreitada da eterna manutenção do sentimento e da consciência de si-mesmo.

Mas, evidentemente, sem ego. Sim, porque a proeza do herói está em fazê-la esquecendo-se de si, agindo sempre pelo outro, pelo coletivo, pelo mito. E aí, mais uma vez surge a questão: seguir ou não seguir... Ah! Shakespeare, inspirador...

A jornada de fato pressupõe um caminho e as decisões quanto ao rumo a tomar. A cada encruzilhada ou bifurcação há uma escolha cuja importância reside mais no abandono do que não foi escolhido, porque os caminhos não trilhados deixam dúvidas e sentimentos de perda daquilo não vivido. Uma loucura! Assim como a vida, claro!

Mas essa jornada ferrada de pintores, poetas, escultores, escritores, bailarinos, atores é a jornada de pessoas - heróis e heroínas, arquétipos de todos os mitos – anunciadores de uma só verdade: não queremos, nos recusamos a morrer!

Somos nós - todos os artistas, profissionais ou não - os heróis e heroínas que continuamos historicamente - há milênios - sempre salvando a humanidade da própria morte.

Ufa! Que jornada!


Arte Reflexa

Heloísa Reis é Artista e Arte-educadora

Imagem: Prato Pintado sobre Souplat de Alta Temperatura, Heloisa Reis

Comentários

Boa reflexão sobre a nossa condição. :)

Uma dúvida: em O herói de mil faces, o Joseph Campbell cita 17 fases da jornada do herói. Existe algum outro livro em que ele resume essas fases em 12?
Hebe disse…
Que bom que você continuou a sua jornada até aqui.
Encanto-me pela beleza da arte, às vezes, sem nem mesmo entendê-la, sem ter como pagar por ela, mas só em apreciá-la já me agrada.
Espero que continue ainda por muito tempo nesse caminho, mesmo já sendo imortalizada pelo que já fez.
Hebe

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …