sábado, 8 de dezembro de 2007

A FELICIDADE DOS TONTOS [Ana Coutinho]


Dizem que de tempos em tempos todas as nossas células são renovadas e não sobra nada, nadinha de nada das células anteriores. Não me lembro o tempo, talvez de 30 em 30 anos, algo assim. Se for isso, eu, agora, estou deixando pra trás alguém que fui um dia...

Mas, mesmo se não for isso, mesmo se essa é uma história inventada por alguém inventado também, mesmo assim, sinto-me tantas vezes - todos os dias talvez - deixando pra trás alguém que eu fui um dia. Uma menina leve, magra, cheia de sardas, dá lugar a uma mulher. Uma mulher já com corpo cheio e manchas na pele... Uma mulher que, vez ou outra, sente saudades da menina.

Ah!, a menina. A menina conversava com todo mundo, ria de tudo, era tão tonta, mas tão tonta que só podia ser feliz. E eu não estou falando aqui, de qualquer felicidade mais ou menos não. Nem dessas que a gente força sentir e daí, depois de fazer muita força, respirar bem fundo, ver que o dia está lindo que eu tenho saúde e que estou, sei lá, em Cancun, daí sim, a gente se sente feliz. Não... Estou falando da felicidade que não se sabe que tem. Dessas que a gente nem pensa se tem ou deixa de ter, o que falta, o que e bom, o que é ruim... Não, nesse tipo de felicidade nem cabe esse tipo de pensamento. Porque a vida anda boa assim, por nada, e a gente então é feliz sem precisar pensar a respeito.

Depois, muito depois, é que vemos a vida que ficou pra trás e, como num filme, assistimos nossos momentos do tempo passado. E, ali, paralisados diante das imagens antigas, vemos que a vida era boa. Era genuinamente boa. Era boa e não tínhamos nada. Vivíamos com um salário de fome, roupas breguíssimas, ninguém te conhecia no seu trabalho, ninguém reconhecia seu trabalho suado, mas você nem notava. Porque nem você reconhecia. Fazia, simplesmente, o que sabia fazer. Vivia, simplesmente como sabia viver. E não sabia que tinham outras formas de viver, outros mundos a desbravar, outras posições a galgar... No trabalho, na vida pessoal, com a família, até na religião.

Há sempre novas posições a galgar. E quando as notamos, normalmente num dia entre os seus 15 e 25 anos, é aí que a vida começa a mudar. E aí que a felicidade, essa boa, essa genuína, essa felicidade que só os tontos têm, essa felicidade passa a escapar da gente. Sem que a gente perceba, claro.

Aí, de repente, quando se vê estamos precisando de um sapato, ou de um aumento, ou de um presente ou de um carinho a mais, sempre há mais do que temos para ser ainda conseguido. Os olhos passam a estar sempre um passo a frente do dia de hoje, sempre ali, no que é preciso, no que é objetivo, sem que notemos que, o objetivo, esse aí, é o que há de fútil e tolo. O que precisamos mesmo, está bem ao lado... Mas a vida ainda pode ser boa, claro. Talvez seja até melhor mesmo. Quem sabe? Só que é diferente.

A consciência é que é o inferno. Saber que há mais da vida é que complica... Aí começa negócio de dinheiro, negócio de família, negócio de regime, negócio de casamento, negócio de trabalho, negócio de inveja, negócio de competição, negócio de comparação... ihhh, daí ferrou.

Daí você vai deixando de lado os cafés com os amigos, as bobagens divertidas, as fofocas deliciosas, vai deixando de lado o cachorro quente da barraquinha, o picolé, a "25 de Março", a piscina, o biquini, a cambalhota, vai deixando de lado o que era bom, porque precisa conseguir as coisas - aí, conseguir as coisas, conseguir as coisas, conseguir as coisas se torna um mantra, sem você nem notar.

Se essa coisa das células desaparecerem for verdade, logo faço 30 e deixo de vez alguém que fui um dia. A consciência, essa danada, é quem passa o filme do passado aqui, dentro de mim. É ela quem nos tira a felicidade genuína dos tontos. Mas é ela, agora, quem me faz segurar com força as últimas células desse corpo molengo que virou meu.

E dessa tontice que eu tinha, quero que fique pelo menos o cachorro quente, a 25 de Março e as abobrinhas. Ah!, as abobrinhas, como eu pude viver sem elas? Por isso, por isso que tenho sido tão ranzinza no trânsito, só pode ser. As abobrinhas ficam.

O resto, o que couber nos bolsos levo comigo também. Levo a leveza dos tolos, uma breve memória de como é ser boba, ridícula e magra. Uma memória de como é chorar de rir, por horas seguidas. Que a memória, essa eu tenho certeza, não desaparece aos 30. Talvez desapareça aos 90. Ou aos poucos, em algum lugar entre os 70 e os 100.

Por via das dúvidas, desde já vou montar uma gaveta grande, enchê-la das preocupações atuais, das minhas mais idiotas ambições e deixar ali, pronta. Nela, grudo uma etiqueta escrita com letras garrafais : “A esquecer”. E a vida, essa danada, em algum lugar entre meus 30 e 120, há de dar cabo disso também...

Doce Rotina

Imagens: Tempo, Autor Desconhecido; Gaveta de Lembranças, Neli Neto

Partilhar

Um comentário:

Mariana disse...

É querida...o corpo molengo e ao memso tempo duro como um robô nem se arrisca a resgatar a cambalhota...acho que pára no meio dela e nunca mais...vai ter que trocar mta célula pra sair do tatubola. Agora, a menina, tonta, cheia de abobrinha, magra e felzi, que deixava o caderno sozinho no banco do campus da facul pra avisar as amigas que ja havia chegado...quero ver todos os dias, entre meus 18 e 120. Pode ser? saudades tuas!