Pular para o conteúdo principal

CARÊNCIA AFETIVA [Maria Rita Lemos]


Chamamos tanta coisa, indevidamente, de "carência ", que fica difícil explicar seu verdadeiro significado, pelo menos do ponto de vista afetivo.

Se alguém se apaixona por uma pessoa, e, nós, estando fora da situação, achamos que não é o momento ou não é a coisa certa, rotulamos logo: "fulana estava carente", e aí, blá blá blá. Podemos achar, também, que estamos carentes quando estamos sozinhas, sem amor, ou quando as pessoas que amamos estão distantes, por diversas razões. Seja como for, vale lembrar a frase do Mestre Jesus: "Amai ao próximo como a ti mesmo".

Pois é, o difícil, muito mais difícil que amar ao outro, é nos amarmos. Aí reside a auto-estima. A regra é clara, como diria o comentarista de futebol: em primeiro lugar, amar ao autor da vida. Em seguida, amar a nós mesmas. Mas não é um amorzinho qualquer: a auto-estima só é para valer quando nos amamos muito. Apaixonadamente, eu diria, sem medo de parecer pedante.

Só dá para saber como amar praticando, e só dá para praticar conosco, para começar. Quando amamos, todas as nossas energias voltam-se para a pessoa amada. Queremos seu bem, em muitos momentos dizemos de nosso amor, agimos com doçura. Procuramos fazer com que a pessoa amada se sinta realmente assim. Amada.

Ser feliz e amar é um binômio, que só conhece quem é feliz porque se ama também e em primeiro plano. Lembro-me de M., uma ex-cliente que citei, há algum tempo, em matéria que escrevi sobre auto-estima. Numa das sessões, descobrimos ambas que ela nem sabia mais qual era seu prato predileto, de tanto tempo que passou comendo "o que os outros pedissem" nos restaurantes. Ela era sempre a última a pegar o cardápio nas mãos, e nem lhe passou pela cabeça que estava fazendo uma bela sabotagem consigo mesma. Quando ela se deu conta, passou a mudar a forma de ser: reservava um tempo diariamente só para si (M. não trabalhava fora), começou a cuidar da pele, a descobrir tudo o que gostava antes. Inclusive sexualmente. M. mudou, é claro, e isso não agradou a todo mundo. Mas agradou, é bom que se diga, a todas as pessoas que a amavam de fato. E quem a amava para valer ficou muito feliz de ver a nova mãe, esposa, mulher enfim, que M. se tornou.

É preciso saber viver, diz Roberto Carlos. E especialistas dizem que é preciso, também, que nos conheçamos bem, antes de tentar conhecer ou amar alguém mais. A auto-estima, o se gostar muito, o achar-se "maravilhinda" nos ajuda a saber como somos, de verdade, com nossos defeitos e qualidades, pontos fracos e fortes. Conhecendo-os, vamos ter a oportunidade de trabalhar esses pontos, e só daí ficará mais fácil conhecer as outras pessoas, principalmente as que amamos - sejam filhos, filhas, familiares, amigos, parceiros, companheiras.

O auto-conhecimento, seguido da auto-estima, nos faz menos algozes nos julgamentos que fazemos das pessoas ao redor. Faz-nos também mais cautelosos em relação a elas, e vamos "sentir" com mais facilidade quando é alguém de quem vale a pena se aproximar ou se vamos apenas sofrer nessa relação.

Resumindo, quem se ama nunca está só. Pode ficar só, eventualmente, quando os amigos e familiares estiverem distantes (ou apenas de corpos presentes). No entanto, é uma solidão que não dói, não machuca tanto como a solidão de quem não se gosta e não se acha uma boa companhia.

O Natal está chegando, e com ele um tempo de reflexão: como sou quando se trata de conviver comigo mesma? O quanto gosto ou não de estar sozinha comigo mesma? Se as respostas forem negativas, se não gostamos de nós mesmas e por isso tentamos viver rodeadas de gente, mesmo que seja de pessoas que não valham a pena, com certeza estamos precisando de ajuda para nos descobrir. E o que vamos ver pode ser uma bela surpresa, embrulhada talvez num presente tão familiar que já não damos valor.

Palavra de Mulher

Imagens: Jo the Beautiful Irish Girl, Gustave Courbet; Mariana in the South, John William Waterhouse

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …