sábado, 15 de dezembro de 2007

CARÊNCIA AFETIVA [Maria Rita Lemos]


Chamamos tanta coisa, indevidamente, de "carência ", que fica difícil explicar seu verdadeiro significado, pelo menos do ponto de vista afetivo.

Se alguém se apaixona por uma pessoa, e, nós, estando fora da situação, achamos que não é o momento ou não é a coisa certa, rotulamos logo: "fulana estava carente", e aí, blá blá blá. Podemos achar, também, que estamos carentes quando estamos sozinhas, sem amor, ou quando as pessoas que amamos estão distantes, por diversas razões. Seja como for, vale lembrar a frase do Mestre Jesus: "Amai ao próximo como a ti mesmo".

Pois é, o difícil, muito mais difícil que amar ao outro, é nos amarmos. Aí reside a auto-estima. A regra é clara, como diria o comentarista de futebol: em primeiro lugar, amar ao autor da vida. Em seguida, amar a nós mesmas. Mas não é um amorzinho qualquer: a auto-estima só é para valer quando nos amamos muito. Apaixonadamente, eu diria, sem medo de parecer pedante.

Só dá para saber como amar praticando, e só dá para praticar conosco, para começar. Quando amamos, todas as nossas energias voltam-se para a pessoa amada. Queremos seu bem, em muitos momentos dizemos de nosso amor, agimos com doçura. Procuramos fazer com que a pessoa amada se sinta realmente assim. Amada.

Ser feliz e amar é um binômio, que só conhece quem é feliz porque se ama também e em primeiro plano. Lembro-me de M., uma ex-cliente que citei, há algum tempo, em matéria que escrevi sobre auto-estima. Numa das sessões, descobrimos ambas que ela nem sabia mais qual era seu prato predileto, de tanto tempo que passou comendo "o que os outros pedissem" nos restaurantes. Ela era sempre a última a pegar o cardápio nas mãos, e nem lhe passou pela cabeça que estava fazendo uma bela sabotagem consigo mesma. Quando ela se deu conta, passou a mudar a forma de ser: reservava um tempo diariamente só para si (M. não trabalhava fora), começou a cuidar da pele, a descobrir tudo o que gostava antes. Inclusive sexualmente. M. mudou, é claro, e isso não agradou a todo mundo. Mas agradou, é bom que se diga, a todas as pessoas que a amavam de fato. E quem a amava para valer ficou muito feliz de ver a nova mãe, esposa, mulher enfim, que M. se tornou.

É preciso saber viver, diz Roberto Carlos. E especialistas dizem que é preciso, também, que nos conheçamos bem, antes de tentar conhecer ou amar alguém mais. A auto-estima, o se gostar muito, o achar-se "maravilhinda" nos ajuda a saber como somos, de verdade, com nossos defeitos e qualidades, pontos fracos e fortes. Conhecendo-os, vamos ter a oportunidade de trabalhar esses pontos, e só daí ficará mais fácil conhecer as outras pessoas, principalmente as que amamos - sejam filhos, filhas, familiares, amigos, parceiros, companheiras.

O auto-conhecimento, seguido da auto-estima, nos faz menos algozes nos julgamentos que fazemos das pessoas ao redor. Faz-nos também mais cautelosos em relação a elas, e vamos "sentir" com mais facilidade quando é alguém de quem vale a pena se aproximar ou se vamos apenas sofrer nessa relação.

Resumindo, quem se ama nunca está só. Pode ficar só, eventualmente, quando os amigos e familiares estiverem distantes (ou apenas de corpos presentes). No entanto, é uma solidão que não dói, não machuca tanto como a solidão de quem não se gosta e não se acha uma boa companhia.

O Natal está chegando, e com ele um tempo de reflexão: como sou quando se trata de conviver comigo mesma? O quanto gosto ou não de estar sozinha comigo mesma? Se as respostas forem negativas, se não gostamos de nós mesmas e por isso tentamos viver rodeadas de gente, mesmo que seja de pessoas que não valham a pena, com certeza estamos precisando de ajuda para nos descobrir. E o que vamos ver pode ser uma bela surpresa, embrulhada talvez num presente tão familiar que já não damos valor.

Palavra de Mulher

Imagens: Jo the Beautiful Irish Girl, Gustave Courbet; Mariana in the South, John William Waterhouse

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