sábado, 15 de dezembro de 2007

DE VOLTA PRA CASA [Claudia Gonçalves]


Outro dia, minha mãe, questionadora como sempre, veio perguntar por que razão as mulheres da minha geração estão querendo voltar à vida doméstica. É como se houvesse um retrocesso: tantos anos de luta para sair de casa, estudar, buscar a qualificação e a ascensão profissional para depois voltar para o fogão e a vassoura. Vai entender?!

Diante daqueles olhos cheios de pontos de interrogação, respirei fundo, refleti um pouco, e dei início a uma longa explicação que misturava minhas próprias impressões e vivências, mais tudo aquilo que leio nas listas de discussão da Internet, escuto das amigas e das clientes de tarot.

Temos um fato histórico que deu o pontapé inicial à saída das mulheres do restrito mundo doméstico, que foi a II Guerra Mundial. Com os homens lutando na guerra, em um período onde as indústrias não poderiam parar, as mulheres foram convocadas a participar senão por razões profissionais, ao menos por razões patrióticas. Assim, a década de 1940 entrou para a história através do bem cortado tailler e da mulher que trabalha fora de casa. Normalmente, a imagem vem integrada: mulher forte, sem fru-fru, vestindo um terno em versão feminina e pronta para assumir seu espaço na sociedade.

A partir da década de 1960, com o movimento feminista e toda a influência cultural da época, trabalhar deixou de ser necessidade e passou a ser opção pela liberdade, independência e realização profissional. Uma mulher considerada moderna não poderia restringir sua vida ao serviço doméstico e à educação dos filhos. As tarefas domésticas passaram a ser vistas como algo menor, opção da mulher inútil, que não tem inteligência para ser outra coisa, ou daquelas que “não são muito chegadas ao trabalho” – como se arrumar uma casa não desse um trabalho danado!

Nas décadas de 1980 e 1990 as mulheres invadiram a praia do mercado de trabalho. Disputavam vagas com homens de uma forma aparentemente natural, olhavam com desprezo para os afazeres tipicamente atribuídos às mulheres e aos poucos foram também eliminando do seu comportamento as reações que poderiam ser confundidas com fragilidade e insegurança e que antes eram chamadas de delicadas e femininas. Quando entrei para a faculdade de Comunicação Social, em 1985, tive a decepção de quem sempre estudou em colégio de freiras e esperava encontrar no curso superior, não somente conhecimento, mas um número maior de representantes do sexo masculino. Decepção mesmo! Mais adiante, como jornalista especializada na área de economia (isso não era “coisa de homem”?) tanto nas redações quanto nas entrevistas coletivas e eventos para cobertura, tudo que se via era: mulher, mulher, mulher. Deus meu! Onde estarão os homens? Cozinhando? Incrivelmente, muitos deles, sim...

A explicação foi muito educativa, com referências históricas e culturais, mas minha mãe continuava com aqueles olhos de interrogação: por quê? Por que as mulheres parecem estar largando o trabalho fora de casa e, de repente, rotinas como cozinhar, arrumar as flores no jarro, e mesmo branquear uma toalhinha de renda ou escolher as frutas na feira, ganharam status estético, charme e graça de uma forma somente comparada aos valores de um século atrás?

Como sou especialista em criar teorias, aí vai mais uma...

Quando a mulher resolveu sair de casa para trabalhar fora, seu objetivo era adquirir status de homem, ou seja, ter liberdade, respeito intelectual e social, independência financeira e a possibilidade de vivenciar situações exóticas, distantes do marasmo do lar. Em resumo, a mulher – claro que de uma forma inconsciente – queria tornar-se socialmente um homem e alçar vôo por conta própria, livrando-se das obrigações e responsabilidades que envolviam a casa, o marido e os filhos.

Na prática, hoje vemos isso de forma bem clara, o tiro saiu pela culatra. A mulher assumiu todos os deveres de um homem, mas nem todos os direitos. Fora isso, continuou acumulando as responsabilidades de dona-de-casa, mãe e mulher. Quando não acumulava integralmente, não era com o marido que ela partilhava as tarefas, mas sim com a empregada, a babá e algumas vezes a amante do marido. O que chamam de dupla jornada, na verdade, pode ser chamada de tripla ou quádrupla jornada.

Em paralelo com esse processo, o homem que achava a vida da mulher muito boa (sempre achamos que trabalhamos muito e o outro é que tem vida mansa), viu aí uma chance de tirar um pouco do excesso de peso dos seus ombros: não precisaria mais trabalhar feito louco para pagar as contas e dar conforto a sua família, já que a mulher também trabalhava e ganhava dinheiro. Alguns resolveram exagerar e “ficar na aba” da mulher/noiva/namorada (é impressionante a quantidade de casos assim que tenho verificado nos últimos tempos).

Bem, quem olha a situação neste ponto da história pode pensar que só as mulheres se deram mal e os homens estão felizes da vida. Mas aí é que a confusão se amplia ainda mais! Homens e mulheres estão infelizes porque perderam o fio da meada. Estão perdidos, não conseguem mais perceber uma identificação com determinados arquétipos. Homens estão menos homens. Mulheres estão menos mulheres. Porque alguma coisa ficou fora de lugar pelo meio do caminho.

É comum escutar mulheres reclamando da incapacidade do marido ganhar dinheiro, decidir coisas, proteger sua família. Da mesma maneira, as reclamações de homens carentes, cujas mulheres são frias, distantes, só pensam em trabalho e são incapazes de fazer um mísero bolinho de chocolate para o lanche crescem a cada dia.

Particularmente, eu sei porque hoje não dou a mínima para ser assessora de comunicação de alguma empresa importante e prefiro acumular trabalhos freela de jornalismo, artesanato e cursos e consultas de tarot. Porque em 20 anos de profissão não houve empresa ou salário que me trouxesse a felicidade e a realização que hoje sinto convivendo com meu marido e meu filho. É algo quase matemático! A conclusão é que não há dinheiro e trabalho melhor do que estar perto de quem amamos, principalmente nós mesmas. Quando estava correndo de um lado para o outro, tentando descobrir informações para uma matéria ou uma nova idéia para melhorar a imagem de uma empresa, eu estava, aos poucos, esquecendo de mim. E não há empresa que cuide de você com o mesmo carinho e atenção que você mesma ou as pessoas que te amam. Para a empresa você é um simples funcionário. Para a sua família você, a sua presença, faz toda a diferença.

Não sei se todas as histórias de mulheres que retornam para a casa têm essa mesma motivação. Mas o caminho de saída de casa é semelhante: aquela busca ilusória da liberdade masculina que nossa sociedade nos contou quando éramos meninas.

E para quem ainda acredita que uma mulher que fica em casa é submissa ao homem, só mesmo vivendo o processo para perceber como isso é bobagem. Não sei se isso é coisa de vó ou coisa de bruxa moderna (ou se as duas são a mesma coisa), mas tenho certeza do efeito que uma comida bem feita, uma massagem delicada no momento de stress e uma casa perfumada, um jardim florido podem ter. A diferença é que dentro de um novo conceito de relacionamento não há dominador e nem submisso, o que existe são duas pessoas que se amam e que utilizam bem seus talentos naturais. Tão simples... E por isso mesmo tão difícil de compreender.

Quanto à realização profissional e ao ganho do dinheiro, ninguém falou que isso não pode coexistir pacificamente com a permanência em casa durante mais tempo. Mas creio que deveríamos todos, homens e mulheres, olhar com mais atenção o que consideramos “normal” em nossa sociedade tão efêmera e consumista. Tem coisas que, como diz o anúncio do cartão de crédito, não têm preço! E ainda assim elas têm sido deixadas de lado em função da busca desesperada por dinheiro, status, reconhecimento social. A pergunta é: será que vale a pena?

Via Tarot

Imagens: Guernica, Picasso; Narcissus, J. W. Waterhouse

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2 comentários:

BF disse...

Por uma jornada de trabalho em empresas públicas e privadas de 4 horas diárias, companheira! Isso resolveria muita coisa: estaríamos mais tempo em casa e com a família, ampliaríamos o mercado de trabalho e o mercado consumidor, teríamos mais emprego, mais contribuição a previdência social, menos stress, mais produtividade, mais condições de investir no aperfeiçoamento profissional, gerando uma onda de benefícios por toda a sociedade e, então, poderíamos cantar mais felizes a música do Lulu Santos: Estou voltando para casa!!! Lanço assim a campanha: Claudinha, Presidenta!!! Serei seu primeiro-"damo" ou cavalheiro (!?)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Adorei, Claudia! Bela reflexão e depoimento.