quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

ACERTANDO AS CONTAS COM PAPAI NOEL [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Dezembro, mês de trânsito enlouquecido, de tempo voando, de providências urgentes. Época de subir numa escada, morrendo de medo da altura, para encontrar os enfeites da árvore de natal no maleiro do armário. Mês de enfeitar as portas com festões e a varanda com luzinhas piscantes. Mês de presentes, brinquedos, comidas e Missa do Galo. Para as crianças, mês de Papai Noel. E ele existe, é fato.

Eu sei que em algum momento da minha infância acreditei "no" Papai Noel e em todos os seus acessórios lendários: renas que puxavam um trenó que voava pelos ares, duendes, uma casinha no Pólo Norte, muita neve, fábricas de brinquedos, etc. Esse Papai Noel da minha imaginação era onisciente e se encarregava, ele próprio, de produzir e distribuir os presentes de todas as crianças do mundo.

Papai Noel era furtivo. Entrava nas nossas casas sem que notássemos e deixava lá os presentes para que os encontrássemos depois que tivesse ido embora. Papai Noel era punitivo: quase sempre, deixava menos brinquedos do que tínhamos pedido ou desejado, e tudo porque não tínhamos sido suficientemente bonzinhos durante o ano. Papai Noel era injusto. Meninos e meninas da vizinhança, mesmo os mais endemoniados e que eu sabia com certeza que tinham sido muito piores do que eu jamais sonharia em ser ganhavam presentes maiores, mais bonitos e evidentemente mais valiosos.

Não sei em que ponto da minha vida deixei de acreditar em Papai Noel, mas garanto: foi um tremendo alívio. Imaginar que não tinha sido boazinha era torturante. Tentava lembrar as coisas que tinha feito para descobrir o que poderia ser pior do que o comportamento horrível de quem, no dia 26, levava para a rua uma bicicleta novinha. Quando me dei conta de que os presentes que ganhava eram comprados pelos meus pais, eles passaram a ter um valor muito maior. Não tinham a ver com merecimento, e sim com possibilidade financeira. Não poder, por questões práticas, ter algo que se mereça é bastante compreensível. Dura era a idéia de não merecer algo que seria plenamente possível para um cara que tinha a sua própria fábrica de brinquedos.

Para as crianças de hoje, imagino que a idéia de Papai Noel seja muito diferente. Vejo meu sobrinho Matheus, de 4 anos, entrando em shoppings - e ele é um grande entusiasta de shoppings - e conversando com todos os Papéis Noéis que encontra, e são muitos. Sim, ele acredita "em" Papai Noel, o que é diferente de acreditar "no" Papai Noel como eu acreditava. Na cabeça dele, Papai Noel é uma profissão como outra qualquer. Nada de renas, neve ou fábrica de brinquedos mágica. Tudo é muito lógico. Um Papai Noel - qualquer um deles - anota o seu pedido, entra na loja, compra o brinquedo e pronto.

Em todos os natais dos últimos quatro anos um desses Papais Noéis aparece lá em casa em carne e osso, suando em bicas, com pomada minâncora cobrindo as sobrancelhas e uma roupa que fica mais apertada a cada ano. Este Papai Noel que visita o Matheus tem o prazer de trazer no enorme saco vermelho todos os brinquedos que ele pediu e alguns extras. Papai Noel costuma mesmo ser generoso com crianças que são filhos únicos, sobrinhos únicos e netos únicos de gente que se derrete só de ver um sorriso.

O que não mudou, no entanto, foi a questão do merecimento, essa arma materna para tentar conter os ânimos dos pimpolhos. Se não for bonzinho, Papai Noel não vai ficar feliz, e isso pode significar menos presentes. E então o Matheus resolveu por bem que não quer mais negociar com Papai Noel. Que, convenhamos, é um velhinho bem chato com essa história de ser bonzinho. Ontem, após uma resposta mal criada e mais um aviso de que o Papai Noel não ia gostar de saber disso, deu um basta na chantagem: decidiu que não gosta mais de Papai Noel, que não vai mais conversar com ele e que, de agora em diante, vai pedir os presentes de Natal para o tio.

Simples assim. E eu fico aqui me perguntando por que foi que nunca pensei em fazer isso quando era criança...

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Beleza de crônica, Chris! Tem a combinação perfeita de narração e reflexão.