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PARAFRASEANDO EM FRENTE [Cris Ebecken]


Vez ou outra esse arrepio confissional me sopra à nuca, toma meus dedos, toca as palavras em repeat reflexivo. Não tem santo que me cure desse desatino repleto de querências do tocar em frente, de buscar nos passos dados as promessas da caminhada. E essa entidade carimbada, vestida de branco e lingerie em cor escolhida a dedo, chamada fim-início de ano, me faz rendida à sonoridade equilibrista da música do tempo.

“Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei”*



Mas há de se fazer a pergunta să e traiçoeira: de que servem tantas linearidades com o calendário, por que agendar certezas, quando o próprio tempo, com seu andar milimétrico desmatematizado de ponteiros, é em si apenas o convite ao agora?

“Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou”*



Rascunho um reaprumar. Faço beber overdoses de silêncio a mocinha inquieta, tagarela e dançante residente em mim toda a vida. A danada parece me puxar pela beira da saia, vasculha alegrias nas fotos tiradas, revira papéis e mais papéis de palavras escritas, rasga dúvida e tristeza, pede caneta, rabisca flores, me repousa os olhos no horizonte cheia de vontades sem beira.


“Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compőe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz”*



Respiro como quem vasculha o letreiro da saída de emergęncia. A encaro olhos nos olhos no espelho. Nem chega a cinco minutos, já basta. O sorriso abre. As măos enfeitam os cabelos. Ela me sussurra: trança a beleza do brilho nos olhos, se faz crescer. Entre dedos toco a pele. Ela me suspira: agradece cada aprendizado impresso, marquinhas săo histórias, se hidrata que a aridez năo te pega. Encontro o olhar no peito. Ela fala entre ares sapeca: acredita nos chamados, isso é você.


“Conhecer as manhas e as manhăs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir”*



E o reveillon acontece. No tempo certo, na hora exata da virada interna.

* Fragmentos de “Tocando em Frente”, Almir Sater e Renato Teixeira


Extraídas Impressões

Imagem: Parafraseando em Frente, da autora.

Comentários

São bonitas as pegadas de quem toca em frente.
Mariana disse…
Esta música e este reencontro com o si-mesmo são lindos... É sorrir ao se ver no espelho e tocar em frente sempre... Você dá certa paz e segurança que tneho precisado amiga! Um beijo
Debora Bottcher disse…
Essas suas reflexões são tão minhas também... Tô sempre no espelho dos seus textos - que amo. :)
Beijo enorme.
joao grando disse…
Agora já passou a virada de ano, já passaram, talvez, certas inquietações aí descritas. Mas para mim isso tudo foi agora, pois li agora o texto.

O convite ao agora me levou ao teu passado recente – e interno. Levou-me à hora certa de uma virada – que já é passada. O “andar milimétrico” tem suas trapaças.

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