domingo, 16 de dezembro de 2007

MÃE >> Eduardo Loureiro Jr.


Amanhã será o aniversário de minha mãe. Ontem foi o aniversário de minha mãe. Ontem, a festa. Amanhã, a data. Hoje, a crônica.



Na família de minha mãe, existe a tradição de comemorar os aniversários redondos (50, 60, 70, 80 anos) com uma grande festa em que se reúne de 100 a 200 pessoas, entre familiares e amigos mais próximos do aniversariante. É feita uma ambientação temática de acordo com a vida e os gostos do homenageado. Mensagens de pessoas distantes são recolhidas e lidas. Coletam-se fotos e histórias. Prepara-se uma paródia, a partir de uma das canções preferidas da pessoa, substituindo a letra original por outra que conta a história de sua vida. Foi assim ontem com a minha mãe, que está fazendo 60 anos.



Tem gente que não acredita que minha mãe tem 60 anos. É uma tendência humana, ou pelo menos dessa nossa época, associar juventude com beleza. Se é belo, não pode ser velho. Se é velho, não pode ser belo.



Eu penso que minha mãe chegou bem a tempo, nem adiantada nem atrasada, para os seus 60 anos. No pequeno "discurso" que fez ao final da festa, minha mãe apenas agradeceu. E isso é coisa que o tempo ensina: a agradecer. Minha mãe revelou que, sempre que se sentia triste, elaborava uma lista de tudo, e todos, que tinha na vida. Com tanta coisa a agradecer, a tristeza sumia tímida entre os itens da lista.



Nesses dias, brinquei de pensar que minha mãe só foi autorizada a chegar aos 60 anos porque proferiu, há alguns meses, a frase que considero um verdadeiro certificado de que se viveu a vida do jeito que a vida deve ser vivida. Disse minha mãe: "Deus tem uma pedagogia diferente para cada um de seus filhos". E ela nem precisou de um doutorado em Educação para chegar a essa conclusão. A afirmação de minha mãe veio da própria prática: ela mesma ensinou cada um de seus três filhos de uma maneira peculiar. A mim, ela educou com uma liberdade crítica preocupada. Sempre me deixou livre para fazer o que eu quis, sempre se sentiu livre para dizer aquilo de que não gostava em minhas atitudes e sempre se preocupou quando as coisas não saíam como eu ou como ela esperávamos.



Com o tempo, temos nos afinado: a minha liberdade incorporou os seus conselhos, as suas críticas ganharam mais tolerância e temos lidado melhor com as coisas, principalmente aquelas que não acontecem conforme o esperado.



Eu vim de dentro de minha mãe, Mazé, que veio de dentro de sua mãe, Izolda, que veio de dentro de sua mãe, Encarnadinha, que veio de dentro de sua mãe... Nós, homens, somos os derradeiros a vir de dentro. Nossos filhos não mais virão de dentro de nós. Nós, homens, somos o final daquele presente em que uma caixinha se abre para outra caixinha, que se abre para outra caixinha, que se abre para outra caixinha... e, quando se espera mais uma caixinha, tem-se um homem. Nós, homens, somos em parte frustração e em parte satisfação: interrompemos um longo ciclo de vida receptiva, mas, ao mesmo tempo, oferecemos algo, uma recompensa afinal.



No momento, a única recompensa que eu, enquanto homem, posso oferecer às caixinhas de que saí, e em especial à caixinha mais próxima, minha mãe, é o agradecimento pelo útero, pelo leite e pelas outras formas daquilo que pode ser resumido numa palavra antiga que já tem muito mais do que 60 anos de vida: a palavra AMOR.



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6 comentários:

Cris Ebecken disse...

Ah, a palavra Amor... guardada na caixinha da Vida, guardada na caixinha da Esperança... da família do Tempo e da Coragem... Caixinhas uterinas de Deus... Águas-Dadas...

Carla Dias disse...

Que homenagem linda, Eduardo. Homenagem a sua mãe e a você mesmo, quem soube usufruir da sabedoria dela, alimentando a sua própria.

Eduardo Loureiro Jr. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Karina disse...

Linda cr�nica meu ism�o. Parab�ns pela m�e que tem e a mainha pelo filho que �s. Beijos. Karina

criscalina disse...

Edu,
Adorei a história das caixinhas. As mulheres são caixinhas, caixinhas, caixinhas, até que vem uma coisa tão boa de acabar o ciclo: um homem. :)

Minha mãe também fez 60 anos este ano. Tenho a impressão de que, aos 60 anos, as mulheres que viveram a vida como a vida deve ser vivida chegam numa felicidade sabida. Vi isso nos olhos da minha mãe no dia do aniversário dela.

Beijo pra você e pra suas caixinhas.

Fábio Barros disse...

É por isso que sou fã desse caba...:)
Parabéns pelo brilhante texto! Parabéns a D. Mazé! Felicidades a todos!

Um abraço!