domingo, 2 de dezembro de 2007

"E O INFERNO... FORA DAQUI!" >> Eduardo Loureiro Jr.

Pennie Tweedie - corbis.com
Quase ninguém leva a idéia realmente a sério, mas uma vez ou outra na vida a gente se pega falando "estou no meu inferno astral" ou — se o refresco for a pimenta no olho do outro — "ah, você está só no seu inferno astral".

O inferno astral seria o período de aproximadamente 30 dias antes do aniversário de alguém. Mas por que seria inferno algo que antecede uma data de que, tirando os deprimidos, todo mundo gosta? Não deveria ser um período de alegria, de antecipada celebração, de expectativa confiante?

A primeira analogia que me aproximou do significado do inferno astral foi a de um tanque de combustível na reserva. Nós, segundo a analogia, encheríamos nosso tanque uma única vez por ano e, perto do finalzinho do nosso ano particular, já estaríamos com o tanque na reserva e com aquela sensação de ansiedade sobre quanto ainda se pode esperar antes de encher novamente o tanque ou — em casos extremos — de dúvida sobre se vai dar ou não para chegar até o próximo posto de gasolina. A analogia é boa, mas ficam perguntas no ar: por que encher o tanque uma única vez no ano? Por que não antecipar uma reposição se já se está consciente do fim?

Então fui seguindo pela vida sem me preocupar muito com inferno astral e usando a analogia do tanque na reserva sempre que precisava, por motivos profissionais, explicar o suposto inferno.

Até que, desenvolvendo a abordagem da Astrodramaturgia — que associa a estrutura narrativa das histórias à interpretação astrológica —, alcancei uma nova compreensão do que seria o inferno astral. Ele corresponderia à reta final das histórias, àquele momento em que o herói está prestes a retornar para casa. Para que ele possa completar esse retorno, entretanto, é necessário que ele se desfaça de alguma coisa que foi necessária durante sua aventura, mas que não ficará bem em seu retorno ao lar. É a fase do descarte. Em Rapunzel, por exemplo, a moça de longa cabeleira tem seus cabelos cortados antes de ser libertada da torre em que vivia prisioneira.

O descarte não precisa ser de um objeto, pode ser de uma pessoa. Chapeuzinho Vermelho não termina antes que um personagem seja descartado. Em algumas versões, pode ser a própria Chapeuzinho — talvez representando o fim da infância — em outras, quem é descartado é o Lobo Mau, representando possivelmente a ação mal-direcionada, agora recuperada na figura do Caçador.

Também pode ser descartada uma atitude. No final de A Gata Borralheira, versão dos Irmãos Grimm, quando o emissário do rei termina de experimentar o sapatinho de cristal nas duas filhas da madrasta e pergunta se há ainda alguma moça que pode experimentá-lo, é o pai de da Gata Borralheira, ausente em praticamente toda a história, que diz ter ainda uma filha. Na história, o que é descartado é o descaso do pai com a própria filha.

A sensação de inferno, então, estaria associada à permanência de um apego quando a atitude necessária seria a de liberação. Uma vez feito o descarte, a história se liberta de seu nó e tende para um desfecho que, mesmo que não seja feliz em si, é promotor de crescimento, de abertura para um novo ciclo e para uma nova possibilidade de felicidade.

*

Estamos mais uma vez nos aproximando do final do ano. Dentro desses trinta dias de dezembro, temos também nosso inferno astral coletivo. Oportunidade de descartar objetos (reciclagem), pessoas (distanciamentos ou incorporações) e hábitos (abandono de vícios de ação e de pensamento).


As resoluções de final de ano se encaixam nesse princípio e têm mais força se pensarmos que estamos apenas descartando algo em vez de buscando algo. É mais efetivo pensar que se está largando mão da preguiça ou da acomodação do que pensar que temos que ganhar coragem ou disposição. A força, a energia, a abundância... sempre estão conosco. São as coisas que acumulamos que bloqueiam seu fluxo.


E, se me permitem um conselho profissional, o descarte não precisa esperar pelo último dia do ano, pela última chama do inferno astral. Podemos nos livrar do que nos limita em qualquer momento desse período de trinta dias. Os dias restantes agora podem ser dias de vôo. Livres do peso que carregávamos, seremos todos leveza e, antes do novo ciclo, teremos um descanso, merecidas férias.


Na história principal desse mês, a do nascimento de Jesus, seus pais, José e Maria, desfazem-se de tudo: são os mais pobres na face da Terra, não têm nem um lugar decente para dormir ou receber seu filho. E, no entanto, é nesse vão aberto pelo descarte de tudo que já não interessa mais que se dá a maior manifestação de abundância imaginável: Deus presente na humanidade. Porque não tinha nada, A Sagrada Família recebeu a estrela mais brilhante, o canto dos anjos e dos pastores e, logo em seguida, a visita cheia de reconhecimento dos Reis Magos. Eis um bom exemplo a seguir.


Feliz descarte para todos! E uma próspera história nova...

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fiquem à vontade pra comentar a crônica ou pra partilhar experiências de inferno astral. :)

Paula Pimenta disse...

Comentei com vc por email, mas vamos deixar registrado aqui:

Eu acho que o inferno astral varia de acordo com resto do ano anterior a ele. Se o ano foi fácil, a gente nem percebe o inferno astral. Se foi um ano pesado, sai de baixo! Pode reparar!

:)

Dilma disse...

Sua matéria nos leva a um reflexão. Estou pensando o aqui o que deve descartar. Feliz Natal! Dilma.

Anônimo disse...

Olha o caralho VOADÔÔÔrrrr!!!!!!