segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

SÓ SE FOR MAINTENANT >> Felipe Holder

O francês é um idioma muito estranho, onde se conta de forma mais estranha ainda. Faz quase dois anos que estudo francês e parece que, quanto mais estudo, menos sei.

A estranheza começa no fato de existirem duas línguas, a falada e a escrita — que não têm necessariamente muito a ver uma com a outra — e chega ao auge quando a gente se vê forçado a apagar da mente aquela regrinha básica que nos ensinaram quando éramos pequenos: "Não esqueça de pronunciar o esse no final das palavras no plural. É feio! Não se diz dois peixinho, e sim dois peixinhos." Pois não é que em francês o feio é pronunciar? Vá você dizer o "esse" de "deux poissons" pra você ver! Valei-me, Notre Dame!

E as palavras enormes? É verdade que o alemão é imbatível, mas fiquei espantado quando aprendi que palavras tão comuns como "hoje" e "agora", que usamos com tanta freqüência, são exageradamente grandes em francês. Se, em inglês, temos today e now, em italiano oggi e ora, em espanhol, hoy e ahora, em francês "hoje" é aujourd'hui e "agora" é maintenant. Nem em alemão! Pra eles "hoje" é heute e agora é jetzt. Uncroyable!

E a dificuldade para aprender a pronunciar o erre? Prendre, por exemplo, é motivo para horas e horas de tentativas frustradas. Temos que trazer o som de lá de dentro, assim... como se fôssemos... bem... perdão da palavra, mas é como se fôssemos escarrar. Não sei se deveria ter sido tão direto, mas achei que precisava. Não é horrível? Pois mais horrível ainda é aprender a pronunciar o tal erre. E o som do "u"? Eis outro grande problema. Não é como o nosso "i" nem como o nosso "u", mas um meio-termo entre eles. Faz boca de "u" e diz "i". É de se desesperar.

O que me deixou mais intrigado, porém, foram os números. O francês tem uma forma diferente de contar, só dele, muito, muito esquisita. Lá não existem palavras para representar setenta, oitenta nem noventa. Em vez de setenta... sessenta e dez; em vez de oitenta... quatro-vintes; em vez de noventa e nove... quatro-vintes-dezenove. Quatro-vintes-dezenove? Aí já é demais! A gente tem que fazer conta na hora de falar! E escrever, então, é ainda pior. Olha só: noventa e nove é quatre-vingt-dix-neuf. Eu, hein?

Apesar de todas essas dificuldades, aprender francês tem uma grande vantagem: poucas línguas são tão charmosas e bonitas. O que seria de Isabelle Adjani, Juliette Binoche e Audrey Tautou se não falassem francês? Continuariam sendo lindas, claro, mas sem aquele biquinho sensual certamente não estariam tão presentes em nossos pensamentos e desejos. ;)

Complicada para se aprender, extremamente agradável de se ouvir, o melhor da língua francesa é mesmo o seu charme. Agora mesmo, sem ter ainda terminado minha crônica, ouvi minha esposa chamar por mim de lá do quarto: "Você não vem dormir?" E eu, concentrado no que escrevia, respondi meio distraído: "Só se você chamar em francês!" Então ela veio de lá e sussurrou no meu ouvido um irresistível: "Tu ne viens pas, mon amour ?" Ao que respondi de imediato: "Só se for maintenant!"

Até domingo que vem!

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

O homem está no melhor de sua forma. Beleza de crônica!

Ah, e quando você começar a achar que francês tá ficando fácil, tenta aprender alemão. :) Ou japonês. :))

jcjunior disse...

Massa, Felipe!
Tu escreve bem que só a gota, rapá!
Amigo Abu, concordo totalmente cotigo com relação à língua francesa.
Já estudei há muitos anos...
Hoje em dia ainda leio alguma coisa, mas perdi a prática no falar...
Parabéns pelo texto, véi!