quinta-feira, 25 de outubro de 2007

À MARIA O QUE É DE MARIA [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Você sabe como chamar aquela pessoa que contratou para trabalhar diariamente na sua casa exercendo funções de natureza doméstica como limpar, varrer, lavar, passar, engomar, cozinhar e espanar? Esta pergunta, aparentemente simples, pode trazer respostas surpreendentes.

De "minha menina" ou "a menina lá de casa", passando por "maria" - mesmo quando a moça em questão na verdade se chama Ana Paula, até o mais popular de todos os eufemismos, "secretária do lar". Quem? O que faz uma secretária do lar? Anota recados, redige cartas e organiza arquivos? E a menina-lá-de-casa, é a filha, a neta ou aquela moça que só é "lá-de-casa" porque é paga para isso e desempenha suas funções com eficiência?

O termo empregada doméstica parece ter caído em desuso por conta de uma noção totalmente deturpada do famigerado "politicamente correto" e, ao contrário do que parece, acaba por dar conotação negativa ao que antes era uma expressão correta do ponto de vista legal, adequada em todos os aspectos e que definia uma profissão honrada e necessária.

Segundo o dicionário Houaiss, eufemismo é uma "palavra, locução ou acepção mais agradável, de que se lança mão para suavizar ou minimizar o peso conotador de outra palavra". Certo, entendo que, nesta época de patrulhamento do tal politicamente correto, o peso conotador é algo a ser considerado. Mas que conotação pode ter a expressão "empregada doméstica" que justifique a necessidade de a "suavizar"?

Imagino que essa mania de arrumar um "nome bonito" para designar a empregada doméstica tenha sido iniciada por gente que gostava muito da empregada que tinha, mas que achava feio, pobre ou desonroso ser empregada doméstica, e acabou perpetuada por outras tantas madames que, com uma lógica tortuosa, pretendem parecer simpáticas mas que, no fundo, estão sendo apenas condescendentes com alguém que consideram "desfavorecido".

Talvez uma das piores conseqüências do uso contínuo deste eufemismo seja o fato de que, atualmente, muitas mulheres jovens, mesmo quando são efetivamente empregadas domésticas, não querem que a profissão seja formalizada em sua carteira de trabalho. Dizem preferir "não sujar a carteira" e não se comovem ao saber que existe até uma lei específica para garantir os direitos cabíveis a todo aquele que seja registrado como empregado doméstico.

É certo que uma carteira de trabalho com registro de "empregada doméstica" poderá, no futuro, impedir que gente preconceituosa a leve a sério caso pleiteie qualquer outro cargo que não envolva vassouras e aspiradores. Usar de eufemismos, no entanto, em nada ajudará a combater o preconceito, pelo contrário: só o reforça e faz com que crie raízes profundas no inconsciente coletivo.

E é em nome da Maria de Fátima, que trabalha lá em casa como Empregada Doméstica - com muito orgulho, sim senhor, pois não lhe negamos o direito de ser algo que é bom, bonito e bacana - que inicio minha campanha pessoal contra as tais secretárias do lar. Lá em casa não queremos uma secretária, queremos a nossa empregada doméstica!!! Abaixo a papelada, os lápis apontados e as pastas suspensas: queremos a casa limpinha e as roupas cheirosas, coisas que só uma boa empregada doméstica pode nos oferecer. Viva a Maria!!! Viva!

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3 comentários:

Paula disse...

Adorei, aqui em casa também temos uma Maria de Fátima (mas pra gente ela é a Fátima) que trabalha como empregada doméstica há anos... eu sempre falo: "a moça que trabalha lá em casa", mas quando alguém liga pra cá e pergunta quem está falando, ela responde: "a empregada"! Acho que você e ela estão certas, não tem desonra nenhuma nessa nomenclatura, muito menos na profissão. Quando morei em Londres, vi que lá as "cleaners" são tratadas com muito respeito inclusive no salário e as "babysitters" são até parte da família.

Beijo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela crônica, Chris! E assunto interessantíssimo. Por aqui, eu chamo faxineira, mas também há quem chame de funcionária. Secretária, eu acho um exagero. :) E o melhor profissional que conheço de todas as profissões é uma empregada doméstica, a Iracema, que limpa, lava, passa e cozinha como ninguém. Ela devia ganhar o Nobel nessa área. A mulher sabe tudo em se tratando de arrumação de casa!

jacmila disse...

"a mulher sabe tudo de arrumação de casa"
Que nojo desse comentário!